Covid idosos solidariedadeO mundo se tornou muito estranho e ameaçador para a civilização, neste ano de 2020. Até certo ponto, um lugar esquisito, nublado e vazio. Se, como dizia Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”, neste ano, tudo ficou pior; muito difícil relaxar, viver normalmente, até tomar sol e aproveitar a natureza e tantas coisas boas que a vida nos proporciona.

Viver com medo, em estado de alerta não é nada bom. Se há uns dois anos, pelo menos, alguém ousasse prever que teríamos sério risco de nos surpreender em 2020 com uma grande catástrofe, o que iríamos cogitar? Talvez um desastre natural, ou uma grave problema climático, ou até o terrorismo. Mas algo que impediria as pessoas de viajar, de se encontrar, se abraçar, se locomover de um lugar para o outro, sem medo; de sequer sair à rua, como aconteceu praticamente em todo o mundo, como poderíamos pensar? Certamente atribuiríamos essa previsão a um delírio. Só imaginado por um roteirista de um filme-catástrofe.

Mas por que médicos, cientistas, infectologistas, futurologistas, que passam a vida estudando o mundo, o clima e a natureza, nenhum deles previu algo pelo menos parecido com essa pandemia? Para nós, leigos e da geração Baby-Boomers*, que já passamos por tantas crises, há um misto de frustração e decepção com a ciência. Tínhamos certeza. Ela estava aí, sempre pronta para nos proteger. A cada dia, novas descobertas. Onde houve a falha? Onde nós fomos enganados e acabamos acordando para descobrir que o mundo não seria mais um lugar seguro para andar pela rua, viajar, conhecer lindas cidades, ir ao bar, ao cinema, visitar filhos e netos, fazer festas de aniversário, de Natal, Carnaval?

Difícil entender onde a ciência e as pesquisas falharam. Talvez estivessem olhando para o lado errado, tantas outras ameaças, como o tráfico de drogas e de seres humanos, o terrorismo, o cyberataque, enquanto o vírus se materializava. Nem mesmo o Fórum Econômico Mundial, que divulga anualmente os 10 cenários de crises mais prováveis, mencionou a praga que nos espreitava.

Uma pandemia, um vírus desconhecido, como assim? E chegará aqui, tão longe da China? A pior crise global que a humanidade enfrenta, desde a Gripe Espanhola, em 1918. Nem a Grande Depressão de 1929, nos Estados Unidos, que quebrou a economia e gerou milhões de desempregados. Ou sequer a crise de 2008, que também arrasou economias de vários países causou tanto estrago quanto o coronavírus neste ano de 2020. O vírus não poupa nenhum país - desenvolvido, em desenvolvimento ou pobre. Os mais pobres, como sempre, sofrem mais.

A crise do coronavírus não ameaça apenas a vida; tem o poder de afetar de forma implacável a economia mundial, gerando milhões de desempregados; e de criar crises políticas, que instabilizam governos e quebram grandes corporações. Como se fosse um tsunami. Nada que enfrentamos nestes 50, 60, 70 anos se compara ao que estamos vivendo. Mesmo no Brasil, onde passamos por crises políticas, econômicas e sociais graves, nestes 70 anos, desde suicídio, golpe e impeachment de presidentes à crise do petróleo, 80% de inflação, nenhuma delas se compara ao que estamos sofrendo neste momento.

Paris deserta Thibault Camus AP PhotoA pandemia chegou como se fosse um pesadelo. Mas, ao acordar, percebemos que tudo é real e se não tivermos cuidado, seremos a próxima vítima. Como se estivéssemos correndo, administrando nosso tempo, mergulhados no nosso mundinho, e alguém apertasse o botão do “Stop”. Tudo que havíamos planejado para 2020 ficou suspenso no ar. Muitas pessoas acima de 50, 60, 70 anos nem tiveram tempo de entender, porque foram contaminadas e acabaram sem aquilo que sempre tivemos em abundância: o ar. Intubadas e sedadas, não sobreviveram. Um vírus que continua a ser extremamente letal para nossa geração.

Quantas pessoas acima de 60 anos você ouviu falar que se foram, desde março, vencidas pela pandemia? Esse vírus traiçoeiro desestabilizou o equilíbrio que, apesar da idade, o progresso na área da saúde nos havia proporcionado. Os anos de bonificação que obtivemos, em relação às gerações anteriores, estão ameaçados. Porque o vírus não escolhe raça, país, classe social e atinge de preferência pessoas que, pela idade, já não conseguem manter uma boa imunidade.

Ainda em janeiro de 2020, notícias da China davam ciência de que uma pandemia estaria surgindo em Wuhan, cidade de 11 milhões de habitantes, onde pessoas se infectavam e rapidamente morriam. Não seria a primeira vez. O cenário de filme de suspense, com a cidade chinesa praticamente deserta, nos parecia algo distante e distópico. Nós do Hemisfério Sul, privilegiados pela natureza, por não sermos alvo de tantas tragédias naturais, como em outros lugares, não imaginamos que a praga chegaria até aqui, com tanta intensidade. Em janeiro e fevereiro, perdemos tempo de nos preparar melhor, meio que duvidando do poder de disseminação. E, ao desdenhá-la, o Brasil e outros países permitiram o colapso dos sistemas de saúde. Quantos, na faixa dos 60, 70 anos morreram no Brasil, por falta de assistência, leitos e UTIs? No fundo, talvez nos considerássemos invulneráveis. Seria apenas mais um vírus. De tantos que já enfrentamos.

Até o pessoal da saúde, sempre atento, deve ter-se surpreendido pela forma silenciosa de disseminação, infectando com uma rapidez impressionante. A Itália, uma região que passou por tantas crises na história, que enfrentou a terrível Peste Negra, no século XIV, a fome no século XIX, jamais poderia imaginar aquele cenário de apocalipse, com quase mil mortos por dia no norte do país. E as cidades desertas. Isso não estava nas previsões mais pessimistas e nem na agenda do século XXI.

Imaginemos a geração que mora na Europa e nos Estados Unidos, acima de 60 anos. Que vivenciou, lutou, sofreu e perdeu parentes na II Guerra Mundial ou os velhinhos, eventuais sobreviventes da I Guerra. Essa geração, que escapou de tantos bombardeios, perseguições, fome, do holocausto, do nazismo, do regime comunista, tantas crises locais ou globais, enfrentando agora um vírus desconhecido, com uma taxa de mortalidade dessa dimensão. Temos ou não razão de estarmos decepcionados e frustrados? Por que nós, ficamos perguntando?

A geração dos Baby Boomers chegou cansada ao século XXI. E acabou decepcionada com o futuro e a ciência. Como foi possível deixar surgir um vírus, até certo ponto fatal, e os cientistas do mundo todo, que conseguiram pôr um homem na Lua, pousar um sonda em Marte, em Vênus, clonar seres vivos e descobrir a cada dia novos tratamentos para doenças raras, serem surpreendidos, como se tivessem de repente ficado reféns de um vírus invisível e desconhecido?

*Baby Boomers - A expressão Baby Boomers nasceu nos Estados Unidos. Em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos retornaram para as suas casas. O contexto era a de retomada da economia naquele país. A partir daquele momento, mais especificamente entre 1946 e 1964, foi identificado um grande aumento na taxa de natalidade, um verdadeiro “boom” de filhos. As pessoas nascidas nessa época passaram a integrar a geração denominada pelos sociólogos de Baby Boomers.

 

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