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Noite de 2 de dezembro de 1984. A liberação de 42 toneladas de metil isocianato (conhecido como MIC) de uma fábrica da Union Carbide, na cidade de Bhopal, interior da Índia, expôs 500 mil habitantes aos efeitos do gás tóxico. Mais de 10 mil pessoas teriam morrido nas primeiras 72 horas do acidente. Para lembrar os 25 anos do maior acidente catastrófico em uma indústria, na história, a Índia pretende abrir a antiga fábrica da Union Carbide para visitação, sob protestos dos sobreviventes atingidos pelo gás fatal da empresa.

A tragédia de Bhopal, chamada de a Hiroshima da indústria química, continua sendo um dos cases de crise mais lembrados e discutidos no mundo. A situação foi tão dramática, que a empresa envolvida nunca mais se reergueu, apesar de ter liberado milhões de dólares em indenizações e procurado responder a todas as demandas do governo indiano. A americana Dow Chemicals adquiriu a fábrica em 2001. O passivo é tão grande que nenhuma empresa resistiria.

A empresa Union Carbide aceitou, em 1985, a “responsabilidade moral” pelo acidente e fez um acordo com a Índia para pagamento de US$ 470 milhões de indenização. O valor foi depositado no Banco da Reserva da Índia. Parte dele foi utilizado para indenizar algumas vítimas, mas elas não podem entrar com ação contra a multinacional americana, pelo acordo feito com o governo. Mais do que o impacto financeiro, o arranhão na imagem pelo efeito do acidente e as repercussões internacionais inviabilizaram a Union Carbide.

Agora, a corte de Madhia Pradesh, onde fica Bhopal, ordenou que os portões da fábrica, de triste memória, sejam abertos para os visitantes lembrarem e orarem pelos mortos.

Mas os sobreviventes alegam que o sítio ainda está contaminado, sendo necessária uma completa limpeza de um dos piores desastres industriais do mundo, tendo contabilizado até agora 15.274 mortes. “Isto é puro mercúrio, e você o encontrará por todo esse lugar contaminado”, disse um sobrevivente de 55 anos. O número de mortes em decorrência da contaminação, nestes 25 anos, é estimativa do governo. Mas ativistas falam em quase 33 mil vítimas no total. Organizações de saúde asseguram que ao menos 25 mil pessoas já morreram.

“É a fábrica da morte. Há veneno dentro da fábrica que continua a entrar nos nossos corpos”, disse Rajbai Moolchand, de 70 anos, que vive nas favelas e esteve exposto ao gás fatal. Ele diz que o governo da Índia quer enganar o mundo.  Em 1999, investigação do Greenpeace encontrou severa contaminação química do meio ambiente ao redor da antiga fábrica, que foi poluída com metais pesados e componentes químicos.

Os efeitos do horrendo legado de Bhopal, como o chamou o site theage.com.au, da Austrália,  não cessaram. Muitas pessoas que vivem em favelas perto da antiga fábrica levaram seus casos à Corte municipal, sob alegação de que o solo e o lençol freático contaminado ainda causam doenças à população e defeitos genéticos em recém-nascidos. Centenas de crianças nasceram com deformidades e problemas de saúde mental. Segundo a Anistia Internacional, dezenas de milhares de pessoas continuam a sofrer “doenças crônicas e debilidade” por causa da contaminação de 25 anos atrás. Outras organizações humanitárias dizem que milhares de moradores, extremamente pobres, sofrem na atualidade de doenças como cegueira, câncer, tuberculose, problemas respiratórios, depressão, irregularidades menstruais e problemas de articulação.

Autoridades locais, que preconizam a visita, alegam que locais como Hiroshima, Chernobyl e o ground Zero do World Trade Center se transformaram em locais de visitação. Por que Bhopal não poderia também atrair, para que as pessoas aprendam mais sobre o desastre?

O mundo com toda razão ficou chocado em 2001 com a morte de quase 3 mil pessoas no ataque ao World Trade Center. Mas por que a tragédia de Bhopal, que continua  a matar, parece ter sido varrida para baixo do tapete? Só porque ocorreu numa comunidade pobre?
 
Enquanto até hoje, uma quarto de século depois, depoimentos chocantes continuam a nos assustar, problemas levantados há cinco anos em Bhopal, quando se lembrou os 20 anos do acidente, continuam sem solução. Apesar de todas as promessas do governo indiano, da pressão de movimentos ecológicos e humanitários e da Anistia Internacional, a crise de Bhopal continua. Parece que os efeitos do gás venenoso, além de aterrorizarem a população, continuam a assombrar os responsáveis pelo acidente, tanto nos EUA, como na Índia.(29/11/09)

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