Guia da historia das Fake NewsVez ou outra somos surpreendidos por novidades no campo da comunicação e da mídia. Não faz muito tempo, a palavra da moda era pós-verdade. Hoje, não há executivo, gerente, governante ou até mesmo um jovem que não tenha ouvido falar ou não saiba o que é “fake news”. As pessoas podem nem saber o significado de "fake", mas já sabem o que é "fake news". As “notícias falsas”, que acabaram sendo a embalagem sedutora para muitas informações suspeitas ou falsas que rolam nas redes sociais, encontrou um paladino no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Tudo para ele, ou melhor, tudo que não seja para elogiá-lo ou badalar seu governo, com aquela cara de desdém e prepotência, é “fake news”. Principalmente quando denúncias - e são muitas - são expostas pela imprensa.

Ele é o grande responsável pela popularização do termo e pela forma com que encaramos hoje essa onda que parece não ter fim de versões divulgadas pela Internet que, na sua maioria, não são verdades. No fundo, é um atentado ao bom jornalismo, à boa notícia. E um instrumento perigoso da desinformação, da disseminação de boatos, notícias não confirmadas. Até mesmo de troca de farpas entre pessoas da rede ou desafetos políticos.

O International Center for Journalists, com sede em Washington, publicou no seu site, um artigo de Julie Posetti e Alice Matthews, sobre "Fake News", anunciando o lançamento do “Um Pequeno Guia da História das FakeNews.”  O Guia é de autoria das mesmas profissionais. Julie Posetti é de um grupo de estudos de Jornalismo da Universidade de Oxford. E Alice Matthews é jornalista de notícias e atualidades na Australian Broadcasting Corporation (ABC), em Sidney.

E o que diz o artigo?

"Fake News” (notícias falsas) não é uma coisa nova. De fato, a história registrada das "guerras de desinformação" remonta à Roma antiga. Mas o século 21 viu a ameaça letal de informações em uma escala sem precedentes. Novas e poderosas tecnologias simplificam a manipulação e a fabricação de conteúdo, e as redes sociais ampliam dramaticamente falsidades propagadas por governos antidemocráticos, políticos populistas e entidades corporativas desonestas.

É interessante lembrar que o jornais, os panfletos antigos nasceram alimentados por boatos. Existe até um bom livro que aborda esse tema, "Boatos - O Mais antigo Mídia do Mundo", de Jean-Noel Kaperer, de 1993. Mas hoje sabemos que boato não é notícia. Para ser notícia, uma informação precisa ser comprovada.

Fake news boa um“Agora vivemos em um mundo onde atores maliciosos e marqueteiros do estado podem usar "propaganda computacional", "redes de robôs", "exércitos de troll" e tecnologia que podem imitar sites de notícias legítimos e manipular áudio e vídeo para se fazer passar por fontes legítimas. Depois, há os aproveitadores ganhando a vida criando conteúdo fraudulento para distribuição viral em plataformas sociais. Combinadas, essas ferramentas apresentam um nível de ameaça sem precedentes e que vê os jornalistas e seu trabalho transformados em alvos.

"A "corrida armamentista da informação" emergente é uma grande história. Mas é importante entender o contexto histórico ao examinar e relatar as manifestações contemporâneas do fenômeno do século XXI de "desordem da informação".

"Um novo recurso publicado pelo Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ) - "Um pequeno Guia para a História das "Fake News" e da Desinformação"- traça a evolução da crise atual em um cronograma internacional, destacando momentos históricos que vão de Cleópatra à empresa britânica Cambridge Analytica. Encorajamos qualquer um que use o módulo de aprendizado a ampliar essa linha do tempo com exemplos da história de seu próprio país, adicionando novas entradas à medida que as respostas a crises e defensivas evoluírem.

"O guia também inclui exemplos de boas práticas, exercícios sugeridos, leituras e tarefas para ajudar a aprofundar a compreensão e ajudar na elaboração de reportagens sobre "notícias falsas". Ele é projetado como um módulo de aprendizado para jornalistas, treinadores e educadores de jornalismo e destina-se ao uso em organizações de notícias, cursos de desenvolvimento de mídia e escolas de jornalismo. Esperamos que também seja um recurso valioso para professores de alfabetização midiática e pesquisadores em comunicação - bem como uma leitura informativa para qualquer pessoa interessada na evolução da crise de desinformação que agora ameaça sociedades abertas em todo o mundo."

Você pode baixar "Um pequeno Guia para a História das "Fake News" e da Desinformação" aqui.

Um guia para você se proteger sozinho das Fake news*

Hélio Gurovitz**

Quem está interessado em fatos reais tem de aprender rudimentos de jornalismo para se defender da infestação de mentiras

The truth matterNotícias falsas infestam as redes sociais feito gafanhotos. Na tentativa de deter a praga, Facebook e Twitter, atarantados e atabalhoados, adotam medidas drásticas, que deixam no ar aquele cheiro inconfundível da borracha queimada dos tempos da censura. Autoridades eleitorais no mundo todo, assustadas com a intervenção de hackers e robôs na eleição de Donald Trump e no plebiscito do Brexit, buscam um pesticida milagroso para exterminar o acrídio onipresente que batizaram de "fake news". Em vão. Em apenas um ano, os países afetados por campanhas digitais de manipulação e desinformação saltaram de 28 para 48, de acordo com um levantamento da Universidade de Oxford. Entre eles destaca-se o Brasil, bem às vésperas da eleição presidencial mais angustiante desde a redemocratização. A imprensa profissional, porto seguro para quem buscava informações confiáveis, enfrenta uma crise de imagem e credibilidade sem paralelo. Em quem confiar? Como se proteger em meio à revoada irrefreável de mentiras, falsidades ou propagandas disfarçadas de notícias?

Por mais que empresas ou governos tentem resguardar o cidadão, o ambiente se tornou inexoravelmente mais hostil. Sites e ferramentas de checagem, concebidos como antídotos à peçonha, parecem apenas alimentar o coro de reprovação, que brada “fake news” diante de qualquer notícia, análise ou opinião que desagrade. As regras mais triviais para regular o meio digital e disciplinar a disseminação de mentiras são vistas como expressão de censura ou viés ideológico. Não é que governos ou empresas estejam errados. É que simplesmente podem ser inúteis — algo como tentar curar um viciado em álcool apenas dando conselhos para que largue a bebida. A demanda por conteúdo que confirme as crenças da audiência é inesgotável, bem maior que a demanda pela verdade.

Quem está interessado em fatos reais e informações fidedignas tem de aprender rudimentos de jornalismo para se proteger sozinho da infestação de mentiras e da manipulação no meio digital.

Felizmente, o próprio avanço tecnológico torna isso mais fácil.

“As pessoas terão de adquirir suas próprias notícias, até certo ponto, e deverão, portanto, aprender técnicas jornalísticas e os vários truques do ofício”, escreve o economista Bruce Bartlett em The truth matters (A verdade importa), um guia com 15 dicas práticas para separar fatos de mentiras e combater a praga das "fake news". Veterano de mais de 40 anos em Washington, Bartlett lidou com a imprensa em todos os cargos que ocupou na Câmara, no Senado e na Casa Branca. Foi um dos artífices do corte de impostos no governo Ronald Reagan e um crítico veemente da política econômica no governo George W. Bush. Mesmo antes da eleição de Trump, rompera com os republicanos, sem aderir aos democratas. Vê a imprensa de fora. O maior valor de suas dicas está justamente no olhar externo e sofisticado de alguém com tarimba suficiente para entender por dentro o funcionamento do jornalismo profissional, para reconhecer suas qualidades e limitações, sem cair na histeria bocó de quem enxerga a “mídia” como mera máquina de pregação ideológica e manipulação.

Seus conselhos são expostos de modo prático e sucinto. É preciso saber distinguir entre fontes primárias e secundárias; usar corretamente sites, documentos, a Wikipédia ou bibliotecas públicas; compreender convenções jornalísticas, como “on” e “off”, o equilíbrio artificial em reportagens ou o emprego de termos vagos, como “esquerda” e “direita”; saber confiar em acadêmicos e entender os interesses de institutos privados; desconfiar de pesquisas e pôr números em contexto; confiar mais em opiniões assinadas que em anônimas; e, sobretudo, saber apontar a diferença entre notícias e boatos, notícias e propaganda, notícias e opinião. “As melhores defesas contra "fake news" são: pensamento crítico; obter as notícias de uma variedade de fontes, incluindo aquelas que não confirmam suas próprias crenças; ser cético quanto à informação que parece boa (ou ruim) demais para ser verdade.”

**Jornalista e Blogueiro do Portal G1.

*Artigo publicado na revista Época, nº 1049, de 06/08/18.

 

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