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Costa concordiaPode ser mera coincidência a data. Mas duas manchetes chamam a atenção neste sábado, 13 de maio: “Capitão italiano Francesco Schettino pega 16 anos de prisão por acidente do Costa Concordia”. E “Hopi Hari fecha por tempo indeterminado”.

Os dois fatos são de amplo conhecimento dos brasileiros.  O primeiro – o naufrágio do navio de cruzeiros Costa Concordia -  ocorreu em janeiro de 2012, nas costas da Ilha de Giglio, na Itália e teve ampla repercussão internacional. No Hopi Hari, em Vinhedo-SP, o acidente da menina, que caiu de um brinquedo, foi em fevereiro de 2012. Fatos bem diferentes, de dimensões diversas, mas que têm uma convergência de causas: falta de comando, falta de prevenção, má gestão de crises e falhas graves de comunicação.

Os dois cases foram analisados no livro “Gestão de Crises e Comunicação – O que gestores e profissionais de comunicação precisam saber para enfrentar crises corporativas”. * O naufrágio do navio Costa Concordia, no litoral italiano, próximo à Ilha de Giglio, mostrou aquilo que jamais pode faltar nas crises: treinamento, comando, ou liderança, plano de crise, coordenação de ações e "timing". O navio de cruzeiros adernou com 4.234 passageiros e tripulantes, próximo à costa, após bater numa rocha e furar o casco. Só não houve uma tragédia monumental, com a possibilidade de milhares de vítimas fatais, por estar próximo à terra. Mas decorreu da irresponsabilidade do comandante Francesco Schettino, que resolveu fazer uma "gracinha" para amigos que moravam na ilha, segundo se relatou à época. Pela irresponsabilidade, acabou de ser condenado pela Corte Suprema da Itália a 16 anos de prisão, agora sem apelação.

Ele foi considerado o principal culpado pela tragédia, quando morreram 32 passageiros e tripulantes. Houve falha gravíssima do comandante, sob o código internacional da navegação, quando fugiu do navio na hora do acidente, abandonando os passageiros; e erros primários e graves de gerenciamento da tragédia dentro do navio, como falta de clareza nos avisos e de transparência com o que estava ocorrendo, para alertar e orientar o salvamento dos passageiros. Evacuação e socorro foram confusos e demorados, havendo falhas até no idioma em que os avisos eram dados. Uma sucessão de erros que jamais poderia acontecer num navio daquela dimensão. Após cinco anos de audiências, provas e contraprovas, Schettino tentou se safar; andou até fazendo palestras sobre gestão de crises; mas foi condenado definitivamente. É o desfecho de uma crise que deu um enorme prejuízo à empresa Costa Cruzeiros (o navio tinha um custo estimado de R$ 600 milhões e foi desmontado, após vários anos no local do acidente), proprietária do navio, e causou tantos transtornos a milhares de famílias, além do luto a outras 32.

A condenação do comandante, que sempre tentou se esquivar da responsabilidade, é o desfecho natural dessa crise, que poderia ter sido evitada com um mínimo de gestão de risco. Ele foi brincar com moradores da Ilha e saiu da rota, fazendo o enorme transatlântico bater o casco com uma pedra não detectada pelos computadores de bordo. O navio adernou, mas não chegou a afundar, o que permitiu o resgate de quase todos os passageiros.

Hopi Hari – o acidente da irresponsabilidade

hopi hari torre eiffelO outro fato registrado nas manchetes deste sábado é o fechamento, por tempo indeterminado, do Parque Hopi Hari, em Vinhedo-SP, após os últimos anos de crise financeira. A decadência do Hopi Hari começou após um acidente ocorrido em 23 fevereiro de 2012, quando a adolescente Gabriela Nichimura, 14, utilizava o brinquedo Torre Eiffel. Ela despencou desse elevador, que é solto em alta velocidade, de 69,5m de altura (equivalente a um prédio de 23 andares), caindo no solo e morrendo quase instantaneamente. A cadeira em que a adolescente sentou estava com defeito, sem um dos cintos de segurança, fato que passou despercebido por ela. Além de o supervisor não avisar, por que o assento não estava interditado?

A direção do parque fez tudo errado nessa crise. Começou por deixar disponível (pela ganância) uma cadeira com defeito (deveria estar interditada), verdadeira armadilha para os usuários. Após a queda da menina, a direção tentou fraudar o episódio, indicando para perícia uma cadeira diferente da defeituosa. Desmascarada pela mãe da vítima, num programa de televisão, com a foto da filha em outra cadeira, o parque demorou a se pronunciar. Errou nas ações e errou na comunicação. Resultado: logo após o acidente, o Hopi Hari foi fechado por vários dias pelo Ministério Público e começou a perder a confiança dos usuários, que não acreditavam na manutenção correta dos equipamentos, diante das informações controvertidas e enganosas. A troca de acusações entre patrões e empregados do parque para fugirem da responsabilidade também contribuiu para degradar a confiança dos usuários.

Em 5 de março de 2012, escrevemos artigo neste site, após entrevista de um diretor do parque ao programa Fantástico da Rede Globo: A entrevista, nove dias depois do acidente, além de ser uma estratégia errada, por ter privilegiado um único veículo de comunicação, demonstrou que o "timing" da crise havia sido perdido. A empresa perdeu a batalha da comunicação desde o primeiro momento. A versão da família da vítima, da mídia, dos empregados e advogados da família prevaleceu. Perder a batalha da comunicação numa crise, é quase derrota certa.  

Nestes últimos cinco anos, o Hopi Hari nunca mais foi o mesmo. Além do arranhão fatal na reputação, perdeu receita e crédito no mercado e enfrentou as consequências da crise financeira do país. O Hopi Hari chegou a receber 24 mil pessoas em um único dia, no segundo semestre de 2011, e no fim de semana passada recebeu 450 visitantes no total, o que rendeu uma receita total nesse dia de apenas R$ 30 mil. Com vários brinquedos interditados, era uma caricatura do que foi antes da tragédia. No ano passado surgiu a notícia de que ia pedir recuperação judicial. Os donos conseguiram vendê-lo para um empresário, em dezembro de 2016, já com problemas, e este garantiu a recuperação. Mas não conseguiu.

Atolado em dívidas de cerca de R$ 750 milhões, incluindo pagamento de salários, contas de luz, etc. o fechamento do Hopi Hari é a crônica da crise anunciada. Quando se brinca com a vida das pessoas, não agindo com responsabilidade, o preço a pagar por uma crise é muito alto. Em alguns casos, como aconteceu com a Costa Cruzeiros, no acidente do Costa Concordia, e com o Hopi Hari, o preço a ser pago é a própria sobrevivência da empresa. Foi o que aconteceu com a carreira do comandante Francesco Schettino e com o Parque de diversões Hopi Hari.

*“Gestão de Crises e Comunicação – O que gestores e profissionais de comunicação precisam saber para enfrentar crises corporativas”. (Atlas, 2015, 2a edição).

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