Atentado Florida fev 2018O atentado que matou 17 pessoas, entre professores e alunos, na Marjory Stoneman Douglas High School, em Parkland, Florida, EUA, cidade que fica a poucos quilômetros de Miami, ontem a tarde, é a triste repetição de uma rotina de violência e sangue que atinge as escolas americanas pelo menos nos últimos 20 anos.

O atirador Nikolas Cruz, de 19 anos, é um ex-aluno do colégio do ensino médio, com três mil estudantes, de onde foi expulso, por mau comportamento. Ele usou um fuzil AR 15 semiautomático, para cometer o atentado, começando a atirar primeiro em pessoas ainda na rua, nas proximidades da escola, por volta de 14.40h local. Tudo aconteceu pouco antes do encerramento das aulas e da saída dos alunos. O crime foi premeditado, uma vez que ele acionou o alarme de incêndio para pegar as pessoas saindo das salas e correndo para fora. Com isso, elas se tornaram alvos fáceis.

Logo depois de atingir pessoas na rua, ele entrou na escola, que conhecia muito bem, e aproveitou o pânico para seguir atirando em quem estivesse pela frente, enquanto os alunos, professores e empregados se abrigavam dentro das salas e até em armários. O pânico foi geral, naturalmente, porque os tiros eram ouvidos em grande parte das dependências do colégio. Há alunos que esperaram duas horas, escondidos dentro da escola. Segundo apurado, ele teria matado 12 pessoas dentro do colégio e mais três fora do edifício. Duas vítimas morreram nos hospitais, depois de serem socorridas. Entre os mais de 20 feridos, muitos estão em estado grave.

O assassino foi preso em Coral Springs, uma cidade vizinha a Parkland, algumas milhas da escola, cerca de uma hora depois de fugir da cena, disseram as autoridades. Ele tinha escapado do prédio misturando-se com multidões de estudantes que fugiam. Segundo o senador Bill Nelson, da Flórida, em entrevista, o pistoleiro preparou-se claramente para o ataque. Além de grande volume de munição, ele deixava recado nas redes sociais de que ia matar alguém, aparecendo com armas.

Segundo o New York Times, o massacre chamou a atenção para os dois tiroteios em massa semelhantes, mais conhecidos do país pelo nome das escolas: Columbine, onde 12 estudantes e um professor foram mortos em 1999; e Sandy Hook, a escola primária em Newtown, Connecticut, onde 20 estudantes e seis adultos morreram em 2012.

Mais de 40 episódios envolvendo "atirador ativo" nas escolas foram registrados nos Estados Unidos desde 2000, de acordo com o F.B.I. e relatórios de notícias. Tiroteios tornaram-se comuns o suficiente para que muitas escolas, incluindo a Stoneman Douglas High, realizem exercícios anuais em que os alunos praticam ações de segurança amontoando-se nas salas de aula por trás de portas trancadas. Com esse atentado em Parkland, três dos 10 maiores tiroteios em massa na história moderna dos Estados Unidos aconteceram nos últimos cinco meses.

Parkland, um subúrbio afluente de Fort Lauderdale, com uma população de cerca de 30 mil habitantes, é conhecida por suas boas escolas públicas. O governo local e a imprensa classificavam essa escola como "segura". Na cidadezinha mais segura da Flórida, segundo diziam. Essa rotina perversa de ataques a estudantes parece não ter fim. Depois do atentado na Escola Sandy Hook, mais de 400 pessoas foram atingidas por disparos em escolas dos Estados Unidos, nestes últimos cinco anos. Geralmente os autores são alunos ou ex-alunos que sofreram algum tipo de bullying ou restrição pelo comportamento. Mesmo assim, o país, com o respaldo de um Congresso dominado pelos Republicanos, se nega a discutir a liberdade de um jovem poder comprar um fuzil semiautomático, mesmo sendo proibido de comprar bebidas alcoólicas. Esse "incentivo" ao armamento do país, com o lobby da indústria de armas, em parte alimenta essa triste estatística de atentados contra inocentes.

O FBI estudou todos os atentados, desde Columbine e de certa forma apontou quais as ameaças que as escolas devem monitorar: alunos ou ex-alunos com problemas, que ficam fazendo ameaças pelas redes sociais, quase sempre associadas ao porte de armas ou explosivos. Geralmente são jovens com problemas familiares, revoltados contra as autoridades. Gostam de ostentar fotos com armas. Essa parece ser a linha comum a todos os atentados. E por que falhou em monitorar esse atirador, se ele estava dando sinais de que poderia cometer um atentado?

americanos mortos em atentados 2018Seria outra falha de segurança?

“As palavras não podem expressar a tristeza que sentimos", disse Robert W. Runcie, o superintendente das escolas Broward. "Nenhum pai deveria ter que mandar seu filho para a escola e não recebê-lo de volta".

Por trás do atentado, descobre-se várias falhas de gestão de crises. Primeiro, ninguém ignora que atentados a escolas nos Estados Unidos se transformaram numa triste rotina, nos últimos anos. É bem provável que os três mil alunos da escola atacada já tenham feito algum tipo de  exercício simulado para o caso de atentados a tiros ou explosivos, algo que no Brasil pode soar um tanto alarmante, mas nos Estados Unidos trata-se de treinamento de rotina.

O homem suspeito de abrir fogo contra os alunos em Portland, na quarta-feira, é um ex-aluno que havia sido expulso por motivos disciplinares. Ele foi dispensado, após vários problemas, segundo o xerife do condado, Scott Israel. Ao ser preso, não esboçou qualquer reação ou emoção. Após o massacre, friamente foi ao McDonald's comer um sanduíche. Ele enfrentará 17 acusações de assassinato premeditado.

Pessoas que conheciam o atirador o descreveram como um "garoto problemático" que gostava de exibir suas armas de fogo e se gabando de matar animais. A mãe iria recorrer à polícia para que esta fosse à sua casa para tentar falar com Nikolas, porque ela não dava conta do comportamento do filho adotivo. "Eu acho que ela queria assustá-los um pouco", disse a vizinha Helen Pasciolla, ao New York Times, referindo-se aos dois filhos da mulher. "Nikolas tem problemas comportamentais, penso eu, mas nunca pensei que seria violento". Quando aluno, na escola onde cometeu o atentado, Nikolas Cruz ficava sozinho e teve poucos amigos, inspirando medo em alguns colegas pelo comportamento errático e uma afinidade pela violência, segundo o New York Times.

"Ele sempre teve armas", disse um estudante à WFOR-TV. "As coisas loucas que ele fez não eram corretas para a escola, e ele foi suspenso várias vezes por esse tipo de coisa". O presidente Trump falou ontem sobre busca de respostas. Mas os pais dos alunos mortos devem estar se perguntando por que o FBI não agiu se o suspeito postou um vídeo no You Tube afirmando: "Eu vou ser um atirador de escola profissional". O atirador tinha denúncias de violência na polícia. E mesmo assim entrou na escola com um verdadeiro arsenal bélico. Para completar a tese de que os EUA não atacam a raiz do problema, só faltava a declaração do presidente de que é preciso investir mais para cuidar da saúde mental da população, evitando tocar no verdadeiro problema que é a liberdade para comprar armas, nos EUA.

Outra falha de segurança teria sido o tempo que a polícia levou para prender o atirador. Mesmo com a estratégia de se disfarçar no meio dos estudantes, para fugir, a operação de busca e prisão do assassino de certo modo permitiu que durante uma hora ele ficasse livre, com alto potencial de ter matado outras pessoas, nesse acesso de loucura. Ou seja, ficou muito fácil para ele ludibriar a segurança, quase sempre truculenta e arrogante, nos EUA, após o tiroteio. O que suscita uma revisão completa dos procedimentos de socorro e neutralização dos atentados.

A verdade sobre o tiroteio na escola da Flórida

David Leonhardt, do New York Times

"É difícil imaginar uma distinção pior para um país ostentar. Um estudo recente da revista Health Affairs concluiu que os Estados Unidos se tornaram "a mais perigosa das nações ricas para que uma criança nasça".

Talvez seja mais condenável ainda, porque nosso país não costumava manter esse status. Na década de 1960, a taxa de mortalidade de crianças americanas era ligeiramente inferior à de outras nações afluentes. Mas três fatores mudaram isso:

1. Outros países tiveram muito mais sucesso, reduzindo a mortalidade infantil. Os motivos não são totalmente conhecidos, mas a rede desigual de segurança social americana parece desempenhar um papel.

2. Outros países reduziram consideravelmente as mortes em veículos, que são um flagelo particular para os adolescentes. (Os Estados Unidos poderiam facilmente fazer o mesmo, como expliquei em uma coluna recente).*

3. Os Estados Unidos sofrem de uma epidemia de mortes por tiroteio, que, comparativamente,.são quase inexistentes em outros lugares. A taxa de homicídios de armas neste país é 49 vezes maior do que em outros países ricos, de acordo com o estudo da mesma revista Health Affairs.

Até agora, você provavelmente já ouviu falar sobre pelo menos 17 pessoas, principalmente estudantes de ensino médio, assassinadas no sul da Flórida ontem. Você provavelmente já ouviu muitos registros penalizados de condolências. Aqui está a verdade: os adolescentes mortos na Flórida ontem tiveram o infortúnio de crescer – ou de tentar crescer - em um país que não cuidou o suficiente de suas vidas."

*Os Estados Unidos, com cerca de 40 mil óbitos em acidentes de carro, por ano, são o terceiro país no ranking mundial com mais mortes no trânsito. Índia, China, Rússia e Brasil completam os cinco países onde mais se morre no trânsito no mundo.

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