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facebook boaEm outubro, o profícuo historiador e escritor escocês Niall Ferguson publicou mais um livro: “The Square and the Tower: Networks, Hierarchies and the Struggle for Global Power” (sem edição em português, ainda). Antecipando-se ao livro, ele assina artigo no jornal britânico The Times alertando sobre o poder das redes sociais, algo que preocupa pais, cientistas sociais, educadores e historiadores, não apenas pelo fato de as novas mídias terem de certo modo se incorporado à nossa vida, direta ou indiretamente, como também pelo que representam para a forma como o mundo contemporâneo está gerenciando os problemas políticos. O tema é atual e polêmico, porque viver em rede parece ser, definitivamente, o modo de vida mais disputado no século XXI.

Segundo o jornal britânico The Guardian, ao anunciar o lançamento do livro, “Niall Ferguson não é o tipo de historiador que sofre de subavaliação. Ele escreve livros grandes e densos com ideias de alto conceito que visam as preocupações atuais através do prisma do passado. Eles são autoalertas para o presente por meio da apropriação de precedentes históricos."

No artigo do The Times, o historiador dá um instigante aperitivo para quem quiser “beber” nas páginas do mais novo livro do autor de vários outros clássicos como Civilização, Império, A Ascensão do Dinheiro, Colosso, O Horror da Guerra (1998), Império: Como os britânicos fizeram o mundo moderno (2003); Ascensão e Queda do Império Americano (2004), entre outros, além de professor na Harvard Business School e na London School of Economics.

Por que Twitter, Facebook e Google são redes antissociais

"Assim como a visão utópica de Martinho Lutero e a invenção da prensa de tipos móveis resultou em uma era de guerra e turbulência religiosa, a Internet, proclamada como um portal para um mundo melhor, está ameaçando a democracia. 

“O mundo hiperconectado não era para ser desse jeito. Em maio, Evan Williams, um dos fundadores do Twitter, disse ao New York Times: “Eu pensava que, uma vez que todos pudessem falar livremente e trocar informações e ideias, o mundo automaticamente seria um lugar melhor. Eu estava errado sobre isso.”

Em Setembro, Sheryl Sandberg, chefe de operações (COO) do Facebook reconheceu que as ferramentas online da empresa permitiram que anunciantes apontassem os autodenominados “odiadores de judeus”. “Nunca pretendemos ou antecipamos que esta funcionalidade fosse ser usada dessa maneira”, admitiu, “e é nossa culpa”.

"Surpresa! Os homens e as mulheres que criaram as redes sociais baseadas na Internet, que tanto transformaram as nossas vidas, pensavam que tudo estaria ótimo se pelo menos pudéssemos estar todos conectados. Discursando em uma cerimônia de graduação de Harvard em maio, Mark Zuckerberg, co-fundador e chefe executivo do Facebook, relembrou a sua ambição de universitário de “conectar o mundo inteiro”. Ele recordou que “essa ideia estava muito clara para nós, que todas as pessoas queriam conectar-se… Minha expectativa nunca foi criar uma empresa, mas sim causar um impacto”.

“O Facebook certamente causou impacto ano passado, mas não exatamente o impacto que o jovem Zuckerberg tinha em mente em seu dormitório em Harvard. Um engajado adepto da globalização que tende a declarar abertamente suas políticas liberais, Zuckerberg está cambaleando. Não só os mentores por trás das campanhas do Brexit e de Trump utilizaram com sucesso os anúncios no Facebook para aprimorar e direcionar suas mensagens de campanha por fim vitoriosas; pior, o governo russo parece ter usado o Facebook da mesma forma, procurando reduzir o apoio dos eleitores à Hillary Clinton. Pior ainda, parece que os neonazistas vem usando a rede social para propagar seu próprio modelo distintivo de ódio.

“Entretanto, os arquitetos das maiores redes sociais existentes não deveriam ter se surpreendido. Se tivesse estudado história em Harvard, ao invés de psicologia e ciência da computação, Zuckerberg poderia ter previsto as formas pelas quais o Facebook e sua turma seriam usados e abusados. 

“Há 500 anos, Martinho Lutero enviou uma carta com a sua crítica às praticas de corrupção da Igreja (Católica) para o Arcebispo de Mainz. Não é totalmente incontestável se Lutero também não afixou uma cópia dessa carta na porta da Igreja de Todos os Santos, em Wittenberg, mas isso pouco importa. Graças à invenção da prensa móvel por Johannes Gutenberg, aquele modo de publicação foi suplantado.

“Antes do final de 1517, versões do texto original, em latim, de Lutero foram impressas em Basel, Leipzig e Nuremberg. Quando Lutero foi oficialmente condenado como herege pelo Édito de Worms em 1521, seus escritos estavam disponíveis em toda a Europa de língua alemã. Ao longo do século XVI, as gráficas alemãs produziram quase 5.000 edições dos trabalhos de Lutero.

“A visão de Lutero era utópica. Assim como Zuckerberg hoje sonha em criar uma “comunidade global” única, Lutero acreditava que a sua Reforma originaria uma “presbiterado de todos os fiéis”, todos lendo a Bíblia, todos em uma relação direta com o único, verdadeiro Deus.

“O resultado não foi esse. A Reforma resultou em uma onda de revoltas religiosas contra a autoridade da Igreja Católica Romana. À medida que ela se disseminava dos clérigos e estudiosos reformadores para elites urbanas e para os camponeses analfabetos, ela lançou primeiro a Alemanha e depois todo o Noroeste da Europa no caos.

“Em 1524 eclodiu uma revolta de camponeses insuflados. Por volta de 1531, existiam príncipes protestantes suficientes para formar uma aliança (a Liga de Schmalkalden) contra o Santo Imperador Romano, Carlos V. Apesar de derrotados, os protestantes eram poderosos o suficiente para preservar a Reforma em uma série de territórios.

"Os conflitos religiosos recomeçaram na Guerra dos Trinta Anos, confronto que transformou a Europa Central em um sepulcro. Especialmente no Noroeste europeu – na Inglaterra, na Escócia e República Holandesa – tornou-se impossível reestabelecer o Catolicismo Romano, mesmo quando Roma virou as tecnologias e estratégias de conexões da Reforma contra essa, em complemento a mais tradicional série de torturas e punições cruéis que foram o forte da Igreja por muito tempo.

"O impacto global da Internet tem poucos análogos na história melhores que o impacto da prensa móvel na Europa do século XVI. O computador pessoal e o smartphone empoderaram as redes tanto quanto o panfleto e o livro fizeram na época de Lutero.

“De fato, os percursos para a produção e precificação dos computadores na América entre 1977 e 2004 são extremamente similares aos percursos para a produção e precificação dos livros impressos na Inglaterra de 1490 até 1630.

“Na era da Reforma e depois disso, a conectividade aumentou exponencialmente com o aumento da alfabetização, de modo que uma parcela crescente da população pode ter acesso à literatura impressa de diferentes tipos, ao invés de ter que depender de oradores e pregadores para lhes transmitir novas ideias.

“Existem três diferenças principais entre a nossa era conectada e a que acompanhou o advento da impressão europeia. Primeiro, e mais evidente, nossa revolução de conexões é muito mais rápida e mais extensa geograficamente que a onda de revoluções desencadeadas pela prensa móvel alemã.

“Em um período de tempo muito mais curto do que demorou para 84% dos adultos do mundo se tornarem alfabetizados, uma parcela extremamente grande da humanidade conseguiu ter acesso à Internet. Ainda em 1998, apenas cerca de 2% da população mundial estava online. Hoje a proporção é de dois para cinco. O ritmo da mudança é aproximadamente uma ordem de grandeza mais rápido que no período pós-Gutenberg: o que levou séculos após 1490, levou apenas décadas após 1990.

“Com US$ 100.000 gastos em anúncios do Facebook, espiões russos podem ter decidido as eleições norte-americanas".

“No caso norte-americano, várias redes estavam atuando. Havia a rede de suporte de base criada pela campanha do Trump – e que se autodesenvolveu – nas plataformas do Facebook e do Twitter. Esses são os homens e mulheres “esquecidos” que se revelaram no dia 8 de novembro para derrotar o “establishment político falido e corrupto”, que diziam que a oponente de Trump personificava.

“A rede jihadista também desempenhou seu papel, na medida em que os ataques terroristas assumidos pelo Isis (autodenominado Estado Islâmico) durante o ano da eleição deram credibilidade às promessas de Trump de “eliminar as redes de apoio ao radicalismo islâmico” e de banir a imigração muçulmana.

“Em dois aspectos, ainda há uma clara semelhança entre a nossa época e o período revolucionário que precedeu o surgimento da imprensa. Assim como a prensa móvel, a tecnologia de informação moderna está transformando não apenas o mercado – mais recentemente, ao facilitar o compartilhamento de veículos e residências – mas também a esfera pública. Nunca antes existiram tantas pessoas conectadas em uma rede imediatamente responsiva por meio da qual “memes” podem se propagar ainda mais rápido que os vírus naturais.

"Mas a noção de que conectar o mundo inteiro online iria criar uma utopia de netizens, todos iguais no cyber espaço, sempre foi uma fantasia – muito mais ilusória que a visão de um “presbiterato de fiéis” de Lutero. A verdade é que a rede global se transformou em um mecanismo de transmissão de todos os tipos de manias e pânicos, assim como a combinação da imprensa e alfabetização, durante um tempo, aumentou a prevalência de seitas milenares e de aficionados por bruxaria. As crueldades do Isis (autodenominado Estado Islâmico) parecem menos idiossincráticas quando comparadas com as de alguns governos e seitas dos séculos XVI e XVII.

“Em segundo lugar, a nossa era está assistindo a um enfraquecimento da soberania territorial. Nos séculos XVI e XVII, a Europa estava imersa em uma série de guerras religiosas. A Espanha e a França tentaram, por meios justos e sujos, trazer a Inglaterra de volta para o rebanho católico-romano. Ainda em 1745, um exército de Highlanders escoceses, apoiados pelos franceses, invadiram a Inglaterra com o plano de restaurar a antiga fé nas ilhas britânicas.   

“No século XXI, assistimos a um fenômeno similar de crescente intervenção nos assuntos internos de governos soberanos. No fim das contas, havia uma outra rede envolvida nas eleições de 2016 dos Estados Unidos, e era a da inteligência russa.

“Está claro que o governo russo fez todo o possível para maximizar os danos à imagem de Clinton, decorrentes dela e da sua descuidada segurança de email de campanha, utilizando o WikiLeaks como canal pelo qual documentos roubados eram repassados para a media ocidental. Ano passado, os hackers e trolls russos representaram uma ameaça à democracia norte-americana similar a que os jesuítas representaram para a Reforma Inglesa: uma ameaça interna com apoio externo.

“Deixe de lado a questão se a interferência russa decidiu ou não a eleição em favor do Trump; basta dizer que ajudou, embora notícias falsas e verdadeiras prejudiciais para Clinton também foram disseminadas sem o envolvimento russo. Deixe de lado também as questões ainda não esclarecidas sobre quantos membros da campanha de Trump participaram da operação russa e o quanto eles sabiam.

“O ponto critico é que o próprio Facebook pode ter decidido o resultado de uma eleição, que teria tomado outro rumo se cerca de 40.000 eleitores de apenas três Estados tivessem escolhido Clinton ao invés de Trump.

“Não, não era para ter sido desse jeito. Não foi isso o que o Vale do Silício imaginou quando começou a criar “um planeta onde tudo está conectado” – lema da fundação de Eric Schmidt.

“Da mesma forma como Lutero também não se propôs a causar 130 anos de sangrentas guerras religiosas."

Obs: Extraído do livro ““The Square and the Tower: Networks, Hierarchies and the Struggle for Global Power” de Niall Ferguson, livro publicado em outubro de 2017 e disponível a partir de janeiro de 2018. Não há previsão, ainda, de lançamento em português.

Tradução: Isadora Rabelo Hausen

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