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Goiania tragediaO triste episódio de um aluno que atirou com uma pistola em seis colegas no Colégio Goyases, em Goiânia, infelizmente, não é um ato isolado no contexto da educação brasileira. Um dia antes, em Brasília, um aluno de 18 anos, adulto portanto, jogou uma cadeira numa professora, porque esta o advertiu para tirar o boné na sala de aula. Agressões a professores tornaram-se comuns, o que acontece principalmente com alunos mais vulneráveis, geralmente com problemas de relacionamento em casa ou que vivem num ambiente de violência.

No Brasil, o episódio mais sangrento envolvendo alunos ocorreu na escola Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro, em abril de 2011, quando um ex-aluno entrou na escola, armado com dois revólveres carregados, e matou 12 estudantes, com idades entre 13 e 16 anos, deixando outros 13 feridos. Ao ser interceptado por policiais, ele cometeu suicídio.

O crime em Goiânia ocorreu num colégio particular, por volta de 11.45, nesta sexta-feira. Não há explicações oficiais sobre os assassinatos, mas segundo o pai do garoto, o atirador vinha sofrendo bullying de alguns colegas, que o chamavam de “fedorento”. O autor frequentava a 8a série. Um dos atingidos pelos tiros teria trazido um desodorante para “provocar” o atirador. Os mortos são dois alunos de 12 e 13 anos.

Três meninas e um menino ficaram feridos, sendo três em estado grave. Uma estudante de 13 anos está em estado gravíssimo, segundo a polícia. O estudante que efetuou os disparos é filho de um major da Polícia Militar e o revólver utilizado pertencia à mãe. A mãe também é militar.

O delegado responsável pelo inquérito disse que o menor vai ser ouvido no sábado e posto à disposição do Ministério Público, que decidirá sobre possível internação.

O bullying é culpado?

Segundo informações de pessoas próximas ao atirador, ele sofria bullying no colégio e por isso planejou o ataque. Se os colegas e uma professora não o tivessem contido após descarregar a pistola, quando queria carregá-la de novo, certamente ele teria feito mais vítimas, disse o porta-voz da polícia civil de Goiás. Ele chegou a apontar a pistola para outros colegas, mas não havia mais munição.

Definitivamente, o bullying não é a causa principal dos assassinatos. Ele pode ser o “gatilho” que leva jovens com algum problema mental ou de relacionamento a agir violentamente contra colegas e professores. Muitas crianças sofrem bullying e sofreram no passado. Nem por isso temos uma epidemia de serial killers, tentando assassinar os colegas. Alguns convivem numa boa com as gozações. Outros, por estarem fragilizados e terem pouco ou nenhum senso de humor, além de uma baixa autoestima, acabam descarregando suas frustrações, quase sempre na escola onde estudam. Seria uma forma de marcar a agressão com pessoas que eles conhecem.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos, a depressão de jovens em idade escolar está preocupando as autoridades. Tanto faz se for na época da high school quanto da universidade.

Crise na educação

Esse fato isolado de ataque com arma de fogo, perpetrado por um aluno, foge ao padrão brasileiro de crise nas escolas, ao contrário dos Estados Unidos, onde atentados semelhantes são muito comuns. Apesar disso, a tragédia de Goiânia é a crônica da crise anunciada. Nos últimos anos, no Brasil, aumentaram as agressões a professores, invasões de escolas por grupos de alunos, à revelia da direção e dos professores e intensificaram-se os conflitos entre colegas. Os alunos perderam o respeito pelo professor e até pela direção das escolas.

Foi um processo de degradação que vem se agravando há anos com a pouca valorização do professor pelo próprio governo. Ao mesmo tempo, os sindicatos patrocinam e institucionalizam greves ou paralisações relâmpagos, que acabam colaborando para piorar o nível do ensino. Reposição de aulas vira um faz-de-conta apenas para os professores receberem os salários. Há uma descontinuidade do plano de aula, e do cumprimento dos dias letivos, que desmotiva os alunos, transformando o ato de ensinar numa disputa de poder. Os alunos, com raras exceções, não levam a sério a escola.

Já se foi o tempo em que os “discípulos” se levantavam quando o “mestre” chegava na sala. O “exame” final (no fim do ano), quando todo o conteúdo do curso era cobrado, transformava-se numa epopeia. Hoje, os pais, muitos deles ausentes por problemas profissionais, terceirizaram a educação dos filhos para os professores. Resultado: os mestres sobrecarregados e estressados não dão conta de ensinar e educar, até porque muitos alunos são adolescentes rebeldes e revoltados; sem a cobrança e até o contato em casa, eles passaram a descarregar frustrações e problemas nos professores e colegas. A escola passou a ser uma forma canhestra de terapia, já que em casa muitos deles vivem num ambiente tumultuado e não têm nenhuma condição para conversar, relaxar ou ajuda para superar os problemas.

Essa comportamento violento e até paranoico resulta também do ambiente que vive o país, onde os alunos, principalmente da periferia das grandes cidades, aprenderam a banalizar a violência tanto da polícia quanto das quadrilhas que infestam muitas regiões do entorno das metrópoles. Conviver com tiroteios, balas perdidas e batidas policiais faz parte da rotina diária desses moradores.

A crise da escola passa também por anos de leniência das autoridades com a figura do professor, profissão que em sua maioria tem salários defasados e incompatíveis com a responsabilidade. Não há como alunos e pais respeitarem o professor, quando este recebe salários inferiores aos de motoristas das repartições públicas de Brasília e outras cidades. Desgastado, cansado por duplas ou triplas jornaldas, ele não consegue conter a disciplina na sala de aula, necessária para um mínimo de concentração no conteúdo. Orientação pedagógica equivocada, por ideologias muito boas para a teoria, mas ineficazes na prática, induz os alunos a fazerem o que quiserem, porque não pode ser inibido, nem constrangido. Basta dizer como se glamourizou as invasões em escolas de S. Paulo e outras cidades. Seria uma forma de ele “crescer”. Resultado: temos uma geração de pequenos marginais, que não respeita os pais, não respeita as autoridades, e muito menos respeita os professores. Estes, cada vez mais estressados pela carga horária excessiva e pelos baixos salários se transformam na figura ideal para os alunos desrespeitarem e afrontarem.

Epidemia global

depressao infantilNa Inglaterra, foi constatado nos últimos anos um aumento crescente dos casos de depressão de jovens, principalmente aqueles nos últimos anos da “secondary school” (high school, nos EUA). Aumentou o número de suicídios de jovens por problemas que sequer os pais tinham conhecimento. Destaque para o bullying, essa praga que hoje virou crise nas escolas. Uma em cada quatro meninas está clinicamente deprimida no momento em que completar 14 anos, de acordo com pesquisas que despertaram novos receios de que adolescentes da Grã-Bretanha sofrem de uma epidemia de má saúde mental, segundo artigo publicado nesta quinta-feira (19) no jornal britânico The Guardian.

Um estudo financiado pelo governo britânico descobriu que 24% das meninas de 14 anos e 9% dos meninos da mesma idade têm depressão. Seus sintomas incluem sentir-se miserável, cansado e solitário e, até mesmo, odiar-se.

“Não é novidade que o número de estudantes universitários que dizem estar enfrentando problemas de saúde mental e emocional tenha crescido constantemente. O que há de novo é que as universidades estão cada vez mais empenhadas em tentar entender, através de pesquisas rigorosas, quais intervenções funcionam melhor e para o maior número possível de alunos", segundo o artigo.

"O fato de que os alunos estão lutando com ansiedade e depressão é real", disse Thomas C. Shandley, reitor de estudantes do Davidson College na Carolina do Norte. "Demorou um tempo para chegar às universidades, mas agora está aqui".

A tragédia de Goiânia foi a triste conjunção de várias falhas. A mais grave, a família ter permitido o acesso do menor a uma pistola de uso profissional. Outra, foi a não interferência da escola e da família nesse processo de bullying, que, se tratado, pelo menos poderia ter amenizado ou corrigido a reação violenta que o aluno foi alimentando e acabou executando. O bullying não pode ser encarado como mais um probleminha na escola. Ele deve ser combatido, principalmente porque os jovens hoje estão mais vulneráveis e susceptíveis à exposição pública e isso os envergonha. Em resumo: "Tudo isso poderia ser evitado", desabafou o pai do menino João Pedro Calembo, 13 anos, no enterro do filho.

Atualização em 29/10/17

Escolas violentas

"A violência nas escolas, escancarada com o tiroteio em Goiânia, não se restringe a episódios extremos. Em 2015, 55% dos diretores da rede pública brasileira registraram agressões físicas ou verbais de alunos a professores e funcionários. Os dados constam de um estudo inédito da consultoria IDados. A pesquisa mostra que esses casos acontecem com mais frequência em escolas de situação socioeconômica "média alta" (61%). O menor índice é dos colégios mais pobres (43,6%). Curiosamente, escolas com projetos para prevenir a violência contabilizam mais ocorrências: a incidência é 7,4% maior em relação às que não os têm. O mesmo acontece com colégios que tentam prevenir o bullying, com uma diferença de 5% a mais." (O Globo, Coluna Lauro Jardim, 29/10/17).

Fotos: Cleomar Almeida - Folhapress; Alamy Stock Photo.

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