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imprensa tresDesde a posse de Donald Trump temos nos surpreendido pela forma como ele se comunica, via Twitter, posicionando-se sobre assuntos da maior relevância pelas redes sociais. Não se aprofunda em absolutamente nada. Desde janeiro, ele administra a comunicação da Casa Branca por espasmos. Nem o truculento e inexperiente porta-voz Sean Spicer, que chegou em janeiro, aguentou. Pediu demissão. Se Barack Obama ficou marcado pelo modo original e inteligente como usou a Internet e as redes sociais para se comunicar com os eleitores e arrecadar dinheiro para a campanha, Trump tem se notabilizado pela forma canhestra com que usa o Twitter, como se fosse o canal oficial do governo.

As redes sociais, como aconteceu anos antes com a Internet, revolucionaram a forma de se comunicar até mesmo com o público interno. Mas um governante ficar o tempo todo mandando recado pelas redes sociais parece ser um exagero e uma prática ainda pouco aceita. O risco de falar bobagens, como acontece com Trump, e ter depois de se corrigir, é muito grande.

O jornalismo impresso, principalmente, ainda continua com dificuldades de como vai transitar nesse novo mundo da Internet e das redes sociais. Jornais sobrevivem, penam e tentam todos os dias descobrir fórmulas de se viabilizar impressos ou na forma digital. Muitos desaparecem. No Brasil, alguns grandes jornais optaram por edições apenas digitais, como a edição de domingo do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Essa é uma tendência que parece irreversível, com o passar do tempo. Mas isso não vai salvar a empresa jornalística, se não tiver investimentos em qualidade, o que significa também um jornalismo de excelente nível.

O surgimento da Internet e a disseminação de edições digitais mexeram com a relação das empresas jornalísticas e os leitores. De início gratuito, hoje a maioria dos grandes jornais do mundo - à exceção do britânico The Guardian e do espanhol El País - cobram pelo acesso. Isso exigiu também um novo comportamento dos leitores e dos profissionais de comunicação, principalmente os relações públicas, porque a pauta do jornal, ainda que impresso, ao contrário do que acontecia no passado, submete-se à imediatez da Internet. Se a pauta for boa, um furo por exemplo, a empresa jornalística pode publicá-la imediatamente no site, furando a própria edição impressa.

Muitos autores comparam o surgimento da Internet com uma revolução tão emblemática para a história quanto foi a invenção da prensa móvel e do telégrafo. A Internet, ao contrário do rádio e da televisão, foi a primeira invenção que realmente abalou o jornalismo impresso. A Internet não é apenas um canal rápido de informação. Ela democratizou a opinião, dando poder ao consumidor, ao contribuinte, não importa quem seja e onde ele estiver. A Internet de certo modo encontrou um atalho para a comunicação chegar mais rápido ao consumidor. E, com isso, colocou as empresas em estado de alerta.

O cidadão produtor de informação

Para Roger Bridgeman, (1), “a Internet é uma espécie de meio diferente que realinha o papel e a influência da mídia tradicional, instituições e corporações, enquanto está empoderando novos ativistas e até mesmo o cidadão médio, sentado na frente do seu computador pessoal”, ou do tablet ou do smartphone, para falar da última tendência. “A web dá poderes até mesmo para aquele pequenino grupo de interesse interferir em corporações globais”. (2)

A Internet, como meio de informação, possibilitou acelerar a velocidade, a qualidade e o impacto da comunicação. Com a crise da mídia impressa, perdendo leitores e receita publicitária, a Internet favoreceu a proliferação de blogs e sites de notícias, comandados por jornalistas de renome ou colunistas que perderam o emprego, e que começaram a fazer um tipo diferente de jornalismo; ou até mesmo para “aventureiros”. O objetivo foi criar alternativas ao jornalismo impresso, que não conseguia concorrer em velocidade com a Internet. E nem segurar as estrelas do jornalismo, com altos salários. Por isso, esses profissionais percorreram um atalho para tentar fazer bom jornalismo; passaram a fazer análises mais profundas dos acontecimentos, repercutir notícias ou divulgá-las sob novo enfoque, ouvindo especialistas, fazendo contraponto ao que já tinha sido publicado. Essa leitura, até certo ponto atemporal e densa, sem o compromisso e a pressão da redação, consagrou muitos blogs, pilotados por profissionais oriundos de carreiras de sucesso na mídia diária.

Alguns blogs, como o americano Huffington Post (3), por exemplo, contrataram grandes equipes de jornalistas e articulistas de renome, valorizando os conteúdos e multiplicando as plataformas de notícias em vários países, com equipes locais. É um blog que faz uma cobertura diferenciada, por trabalhar com uma grande cobertura do que está acontecendo no mundo, principalmente na política. A crise da mídia impressa, sobretudo, acirrou outra briga, desta feita por audiência, que ficou mais acirrada. No caso dos blogs, por cliques na Internet, o que na prática significava a possibilidade de um faturamento maior. O Huffington Post, um modelo bem sucedido de um blog, foi fundado pela publisher e jornalista Arianna Huffington, em 2005. Ela e os sócios venderam o blog em 2011 para a AOL, por US$ 350 milhões.

Mas nem tudo foram flores nesse mercado. Como era um campo inexplorado e novo, muitos investimentos nessas área também fracassaram. Várias empresas constituídas com equipes caríssimas, jornalistas de renome, não conseguiram se firmar e acabaram fechadas, inclusive no Brasil. Até porque a migração do leitor do jornal para o online não se deu numa relação direta. O crescimento dos leitores na Internet começou e até hoje é lento e bastante disputado. Essa migração coincide com o aumento das fontes de informação e a instantaneidade da notícia, o que aos poucos transforma o jornal impresso num instrumento quase jurássico, sempre perdendo de goleada para a Internet e as redes sociais. Por isso, ele precisa urgentemente gerenciar essa crise até de identidade, descobrindo em que nicho ele quer atuar para manter a fidelidade dos leitores. 

O poder das grandes redes

O surgimento das redes sociais mais poderosas, sobretudo Facebook, Twitter e You Tube causou outro choque nesse mercado, porque elas passaram a se comunicar diretamente com os usuários, sem a intermediação da mídia tradicional. Além da quantidade de “seguidores” (só o Facebook tem 2 bilhões de usuários), a facilidade de acesso e de interação deixou a mídia tradicional ainda mais confusa. Depois da Internet e dos blogs, a chegada dos tablets e smartphones veio sacramentar essa relação, pela facilidade de navegar e se atualizar onde quer que o usuário esteja. A grande vantagem do celular e aos demais equipamentos é a mobilidade, permitindo uma interação praticamente real time 24 horas por dia, sete dias por semana, numa multiplicidade de canais.

E tem mais. Repentinamente, os jornais e revistas precisaram competir de forma muito acirrada pela atenção e o tempo das pessoas. Isso coincide com a mexida que os proprietários de empresas jornalísticas precisaram fazer para conseguir sobreviver. Eles precisaram implodir o próprio modelo de negócio para viabilizá-lo. Foi assim que jornais, como o britânico “Evening Standard”, acabou com a cobrança e se transformou num jornal gratuito, distribuído durante a tarde, em Londres, nos principais pontos da cidade. Assim também com o “Metro”, uma franquia que hoje publica e divulga uma edição vespertina com as principais notícias do dia e a distribui em ônibus e metrôs, principalmente nas grandes cidades do mundo, como Londres, Paris, São Paulo e Nova York.

Mesmo no mundo online, fazer jornalismo não foi tão simples assim. Rupert Murdoch, quando lançou o iPad, tentou fazer um jornal diário no tablet, o iNewspaper, em 2012, como forma de fidelizar os usuários no meio e na mensagem. Mas a experiência durou apenas 21 meses e resultou num prejuízo de US$ 30 milhões. Não deu certo.

Nos Estados Unidos, principalmente, de uma cultura mais televisiva, muitos jornais centenários fecharam ou suspenderam a circulação impressa e se tornaram unicamente online. Entre 1981 e 2014, cerca de 400 jornais impressos fecharam definitivamente ou migraram para a plataforma online. Isso, porque não suportaram a queda nas vendas, associada à possibilidade de redução na verba publicitária. A abertura de um site ou o fechamento do ralo dos impressos não garantiu também nem sucesso editorial e muito menos mais faturamento. Apenas conteve o prejuízo.

O que importa é a credibilidade

Esse dilema representado pela crise do impresso versus a ascensão de plataformas online de notícias trouxe uma questão que até hoje não está pacificada. A credibilidade da mídia digital é a mesma, historicamente representada por jornais pertencentes a grandes grupos de comunicação, como Wall Street Journal, New York Times, El País? Como as empresas convivem com essa dicotomia, até mesmo para suas campanhas de marketing? A força de um jornal online, ainda que mantenha a marca e a linha editorial, é a mesma da circulação impressa? Todas as atenções deveriam se concentrar na mídia social, agora?

O Edelman Barometer 2017, pesquisa anual na área de comunicação da empresa de PR Edelman, feita com mais de 30 mil pessoas, em 28 países de maior PIB, constatou que a mídia tradicional teve o “índice de confiança” reduzido este ano. Era 62% em 2012 e caiu para 57%. Mesmo assim, acima dos índices da mídia online que registrava 46% em 2012 e agora subiu apenas 5 pontos, 51% de confiança, no limite da negatividade. Precisa ainda afirmar essa confiança.

A mídia social, se por um lado significa uma revolução na forma de interagir com os diversos públicos e a possibilidade de transformar desconhecidos em celebridades apenas por uma postagem bem sacada, por outro favoreceu a disseminação de notícias falsas (as chamadas "fake news'), boatos e fofocas que deturparam o sagrado dogma de que notícia para ser notícia tem que ser veraz.

Tal fato é reforçado por um estudo recente divulgado pela revista Nature, em que se afirma que o alto volume de informações nas redes sociais, associado à limitada capacidade de absorção dos conteúdos, têm contribuído para a proliferação de boatos e notícias falsas no ambiente digital. A preocupação com a difusão de rumores e os impactos que isso pode representar, especialmente no setor da saúde, quando a informação falsa pode pôr em risco a vida de milhares de pessoas ou causar uma situação de pânico, fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) declarasse, em março de 2017, que os boatos (“Fake news”) e a desinformação são “ameaças globais”.

Esse problema chegou a tal nível que a eleição americana para presidente, de 2016, continua posta em xeque, pela divulgação de informações falsas – certamente por profissionais contratados – contra a candidata democrata Hillary Clinton, fato desdenhado pelo atual presidente dos EUA. A questão está posta e nem por isso as redes sociais perderam credibilidade. Apenas precisam ser olhadas com certa reserva. Cada vez mais pessoas mergulham nesse mundo ainda bastante difícil de entender e de gerenciar. E não é raro empresas de grande porte, como recentemente a United Airlines, terem crises corporativas principalmente por causa das redes sociais.

 O fato é que a geração “Millenials” (nascidos entre 1977 e 1983), e até a geração posterior, não criaram o hábito da leitura de jornais impressos. Embora sejam também consumidores de notícias. Como as redes sociais e os sites de notícias deveriam cortejar esse cliente? O drama dos jornais que não têm mais quem os compre teria chegado no limite? Talvez a última geração que assinou jornal com fidelidade e ainda mantinha o hábito da leitura diária tenha sido a chamada geração “baby boom”, os nascidos após a II Guerra Mundial, de 1946 em diante, que já passaram dos 70 anos.

Em 2010, o futurista Ross Dawson previu que os jornais tradicionais, no modelo como eram feitos, nos Estados Unidos, poderiam deixar de existir, na forma como os conhecemos, por volta de 2017. E no Reino Unido (onde a tradição do jornal impresso ainda é muito forte) isso deveria ocorrer por volta de 2019. Essa é uma previsão que não tem base científica e nem consenso, até porque um outro autor, Philip Meyer, em “Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era da informação”(4), fez outra especulação sobre o fim dos jornais. Eles desapareceriam em 2043, quando circularia o último jornal impresso.

O paradoxo dessas profecias é que, mesmo com esse cenário apocalíptico, em muitos países a mídia impressa continua sólida, tendo aberto novas frentes, procurando conviver com o avanço da Internet como meio de informação. Ou seja, as empresas jornalísticas tiveram que se reinventar para sobreviver. O New York Times, após várias crises, que o levaram a vender parte do controle da empresa para outros investidores (o magnata da mídia mexicana Carlos Slim é um desses investidores), desenvolveu um modelo de negócio chamado “pay wall” (5) que acabou dando certo. Mantém hoje cerca de 20 milhões de page views diárias (580 mi mensais); é o primeiro jornal americano na Internet e registra, após vários anos, crescimento na receita online e no faturamento em geral. O jornal americano mantém a qualidade em meio à crise e busca formas de se manter vivo e influente. O modelo, em consequência, começou a ser usado por outra empresas jornalísticas, até mesmo no Brasil.

A concorrência dos gigantes da Internet

Segundo o jornal britânico The Guardian, (6) em instigante artigo publicado em 12/07/2016, “How tecnology disrupted the truth”,  “as redes sociais têm um papel relevante nessa equação, seja na manutenção ou na debacle da mídia. O Facebook, surgiu em 2004, e tem hoje cerca de 2 bilhões de usuários em todo o mundo. Tornou-se o caminho dominante para as pessoas encontrarem notícias na internet - e na verdade é dominante em formas que não poderiam ser imaginadas na era dos jornais. Como Emily Bell escreveu: "A mídia social não apenas engoliu o jornalismo, ela engoliu tudo. Ela engoliu campanhas políticas, sistemas bancários, histórias pessoais, indústria de lazer, varejo, até governo e segurança ".

“Mas, embora as possibilidades de jornalismo tenham sido fortalecidas pelos desenvolvimentos digitais dos últimos anos, o modelo de negócios está sob grave ameaça, porque não importa quantos cliques você obtenha, nunca será suficiente. E se você cobra aos leitores para acessar seu jornalismo, você tem um grande desafio para persuadir o consumidor digital que é usado para obter informações gratuitamente e postar. O que para o Google significa muito dinheiro”, diz o The Guardian.  

Até onde iremos?

O artigo de Katharine Viner conclui: “Temos o privilégio de viver numa época em que podemos usar muitas novas tecnologias - e a ajuda do nosso público - para fazer isso. Mas também devemos lidar com as questões que sustentam a cultura digital e perceber que a mudança da mídia impressa para a mídia digital nunca foi apenas sobre tecnologia. Devemos também abordar as novas dinâmicas de poder que essas mudanças criaram. A tecnologia e os meios de comunicação não existem de forma isolada - ajudam a moldar a sociedade, assim como são moldados por ela. Isso significa envolver-se com as pessoas como atores civis, cidadãos, iguais. Trata-se de manter o poder para contabilizar, lutar por um espaço público e assumir a responsabilidade de criar o tipo de mundo em que queremos viver.“

Notas

1. “Crisis Communication and the net”, artigo publicado no livro Crisis Communication: practical PR Strategies for reputation management and company survival, de Peter Anthonissen. London e Philadelphia. Kogan Page, 2008.

2. Forni, João José. Gestão de Crises e Comunicação - O que Gestores e Profissionais de Comunicação Precisam Saber para Enfrentar Crises Corporativas - Editora Atlas, 2015, 2a. Edição.

3. O Huffington Post é um agregador de blogues americano criado por Arianna Huffington e Kenneth Lerer e lançado em 9 de maio de 2005. Em 2 de setembro de 2011, Arianna Huffington esteve em São Paulo, apresentando uma palestra sobre "como as mídias sociais têm revolucionado as comunicações" e anunciou a versão brasileira do The Huffington Post, o primeiro da América Latina, e o sexto criado fora dos Estados Unidos, atrás apenas da versão britânica, canadense, espanhola, francesa, alemã e italiana.

4. Meyer, Philip. Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era da informação. S. Paulo. Editora Contexto, 2007.

5. Pay wall – Sistema de assinatura usado por jornais e outros veículos de comunicação digitais que permite ao internauta o acesso a conteúdos restritos. Diante da diminuição das tiragens impressas, os jornais vêm adotando o pay wall em suas versões eletrônicas, na intenção de elevarem as receitas. O primeiro jornal a aplicar o sistema de pay wall de maneira abrangente e integrada foi o norte-americano “The New York Times”, cobrando por três níveis de acesso diferentes, que consideram a arquitetura do conteúdo.

5. How technology disrupted the truth. The Guardian, edição de 12/07/16.

Outros artigos sobre o tema

The Guardian: How technology disrupted the truth.

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