compra_de_ingressos_finalA realização de eventos esportivos em Brasília mostra como os governos e as federações estão despreparados para organizar uma Copa do Mundo. Em dois importantes jogos de futebol  - Seleção Brasileira e decisão do Campeonato Brasileiro - realizados no novo estádio do Bezerrão, na cidade satélite do Gama, o governo do Distrito Federal se atrapalhou.

Primeiro, destinou metade do estádio para convidados. Um Secretário de governo declarou à imprensa que as autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário davam mais retorno para o GDF do que os torcedores do povo. Teve que voltar atrás e aumentar a cota popular. Depois, não conseguiu organizar a venda dos ingressos.

Para quem quer ser uma das sedes da Copa do Mundo, vai precisar melhorar muito. A CBF e a Federação Brasiliense de Futebol, pelo visto, não tinham controle sobre os preços cobrados. No jogo do Brasil, o preço virou um quebra-cabeça não apenas pelo valor elevado, com ágio, quanto pela dificuldade de acesso aos locais de compra.  Venda de ingressos para futebol é atividade corriqueira, que qualquer time da série “C” sabe fazer muito bem.

Na manhã da data informada, os locais anunciados para venda de ingressos para o jogo Brasil e Portugal, em 19 de novembro, não dispunham dos ingressos e os empregados das lojas não sabiam o que fazer nas primeiras horas, por falta de informação. As lojas Blockbuster – anunciadas como locais de venda – nada sabiam sobre os ingressos e encaminharam os torcedores para as Lojas Americanas, que também não tinham ingresso.  

Depois do imbróglio, a surpresa. O ingresso vendido pelas Lojas Americanas tinha algumas  peculiaridades que prejudicavam o torcedor. Pagamento só com cartões de crédito e os valores tinham um ágio de 20%. Isso não foi informado para o consumidor pela Federação. E por que esse ágio? Simples. As Lojas Americanas, que atraíram centenas de pessoas às suas filiais com o marketing dos ingressos, fazia a compra pelo site ingresso.com. Que cobra ágio de 20%. Qualquer pessoa poderia fazer o mesmo do computador de casa ou da empresa, sem enfrentar filas e tumultos. O torcedor, portanto, foi enganado. E mais: o comprador não  recebia o ingresso, mas apenas um voucher. O ingresso era entregue nos guichês do Ginásio Nilson Nelson, seis quilômetros de distância, ou no novo estádio, a 45 km do Plano Piloto, na cidade satélite do Gama.

Com a autuação do Procon nas Lojas Americanas, por desrespeito ao código de defesa do consumidor, e diante da pressão da imprensa e dos torcedores, o GDF aumentou o número de ingressos à venda e liberou a venda nos guichês do estádio. A confusão continuou. Só não houve feridos e depredação dos locais, porque o preço elevado funcionou como um freio ou seleção natural nas filas.

Passada a batalha dos ingressos, no dia do jogo os torcedores enfrentaram um festival de desinformação. Inúmeros seguranças e aspones uniformizados ao redor do campo, não sabiam indicar as entradas para os torcedores. A confusão iniciada com a venda dos ingressos continuou, portanto, no dia do jogo. Lá fora, a Polícia Militar entrava em confronto com torcedores que não conseguiram entrar no estádio. Pelo preço, o povo ficou de fora.

As informações erradas publicadas na imprensa local certamente serão elementos para ações indenizatórias e denúncias no Procon e órgãos de defesa do consumidor.

Repeteco dos erros

Quem acha que o GDF aprendeu com os equívocos cometidos no jogo do Brasil, enganou-se. Pelo menos deveria ter aprendido com aquela crise. Poderia ter avaliado os erros e procurado corrigi-los para o próximo espetáculo. Se houve graves problemas no primeiro jogo, por que os organizadores não previram os problemas que se repetiram?

Caiu no colo do GDF, pela punição imposta ao time do Goiás, no Campeonato Brasileiro, o jogo de decisão entre S. Paulo e Goiás, no dia 7 de dezembro. No primeiro dia de venda dos ingressos, houve tumulto nas bilheterias do estádio. Pessoas que chegaram às 6 horas, inclusive o primeiro da fila, alegaram que ao solicitar ingressos para determinado setor, estes já estavam esgotados. Como? Se naquele horário a venda estava apenas começando? Mistérios que o GDF não explicou. Na véspera e no dia do jogo os cambistas fizeram a festa. E as autoridades também.

O que começa mal, acaba pior. Passada a confusão dos ingressos, no dia do jogo a polícia de Brasília também mostrou despreparo, ao tentar conter uma briga entre torcidas, que nunca deveriam ter se cruzado na entrada do estádio. Um sargento da PM, ao dar uma coronhada na cabeça de um torcedor do São Paulo, de 26 anos, disparou a arma e atingiu a nuca do jovem, que está em estado grave. Para especialista em segurança, ao ver as imagens dos torcedores no confronto com a Polícia, divulgadas pelo Jornal Nacional da Rede Globo, faltou planejamento da polícia para conter a briga das torcidas.

O problema do setor público administrar estádios, como acontece no Rio de Janeiro com o Maracanã, em Minas Gerais, com o Mineirão, e agora em Brasília, com o Bezerrão, é que parte do estádio precisa ser reservada para os amigos do rei. As autoridades, sem pagar um tostão, apossam-se de lugares nobres em nome do cargo. E o povão que se lixe. Enfrente filas, apertos, para depois ficar sem ingresso.

O mais incrível de tudo isso, é que pelo Brasil todo multidões encheram os estádios de futebol nos últimos fins de semana, em grandes decisões, alguns com mais de 60 mil pessoas. Em nenhum deles houve tumultos ou confusão na venda. Pela segunda vez, em menos de um mês, para colocar 20 mil pessoas no Bezerrão, os brasilienses tiveram que enfrentar, além dos preços exorbitantes, o desconforto da desorganização de filas e falta de ingressos.

De tudo o que se assistiu nesses últimos dias em torno dos dois jogos que lotaram o estádio, pode-se inferir que o GDF e a Federação Brasiliense de Futebol estão despreparados para sediar qualquer tipo de campeonato que implique grandes massas de público. Quem não sabe administrar sequer a venda dos ingressos, não está apto para sediar e organizar grandes jogos. Com um amadorismo tão grande, como poderá Brasília se credenciar para ser uma das sedes da Copa do Mundo?

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