acidente_de_transitoO Brasil vive uma guerra particular. Supera em número de mortes as vítimas das guerras do Iraque ou Afeganistão. Não é a guerra dos traficantes, no Rio de Janeiro. São 40 mil brasileiros que perdem a vida todo o ano de forma violenta no trânsito, um recorde em termos mundiais.

Calcula-se o número de feridos em 400 mil, muitos incapacitados ou com lesões irreversíveis. Além de comprometer a força de trabalho, porque a média de idade da maioria dos acidentados fica entre 18 e 35 anos, o número de internações, com a consequente permanência nos hospitais, onera o sistema público de saúde, prejudicando os demais pacientes quem procuram esse serviço. Nos países desenvolvidos, a média de morte no trânsito é de cinco pessoas por 100 mil habitantes. No Brasil a taxa média sobe para 19 por grupo de 100 mil, sendo superior a 20 em várias capitais.

Conforme estudos realizados por pesquisadores australianos para a OMS-Organização Mundial da Saúde, acidentes de trânsito são a causa de 10% das mortes de jovens entre 10 e 24 anos. O estudo mostra também que a taxa de mortalidade é maior entre os homens (15%) do que entre as mulheres (5%).

Mas por que o trânsito se tornou a maior epidemia a dizimar jovens na idade mais produtiva, concorrendo apenas com as drogas? Não adianta culpar a má conservação das estradas, o excesso de veículos, a falta de campanhas esclarecedoras ou procurar outras causas. Basta uma viagem de alguns dias por estradas brasileiras para perceber que os principais culpados dos acidentes são os próprios motoristas.

Percorremos 1.500 km em estradas do Rio G. do Sul nos dias que antecederam o Natal. Destes, apenas 125 km não eram privatizados. O restante é administrado por empresas privadas, que cobram pedágio entre R$ 6,00 e 7,00 reais, em média para cada percurso de 100 km. Em um trecho de 320 km, foram quatro pedágios. Se o preço do pedágio é salgado, em contraposição, o estado das rodovias é excelente, não havendo buracos ou defeitos que ameacem a segurança da viagem. Além do piso bem conservado, em geral as estradas eram bem sinalizadas. Todas de pista simples, mas seguras.

Mas por que ocorrem tantos acidentes? Por que somente nos feriados de Natal ocorreram 25 mortes no RGS? No Rio de Janeiro, ao contrário, há razões de sobra para comemorar. Houve redução de 50% no número das mortes no trânsito em relação ao ano passado.

Certamente, a imprudência dos motoristas é a principal causa, como apontam as estatísticas oficiais e informam os departamentos de trânsito. Alguns motoristas estão sempre apressados, querem ultrapassar, mesmo em locais proibidos e extremamente perigosos. Não conseguem esperar alguns segundos para ter mais segurança na ultrapassagem. Um policial rodoviário do RGS definiu bem essa histeria coletiva: “As pessoas saíram ensandecidas de suas casas para viajar neste fim de ano”.

O pior é que estradas bem conservadas significam também tentação para correr e quem não consegue segurar o pé, acaba ultrapassando a velocidade permitida, colocando em risco a vida dos demais motoristas. Superar a velocidade permitida não significa, neste caso, dirigir a 100 km/h, até porque no RGS a máxima permitida na maioria das estradas é de 100 km/h. Direção perigosa, no caso, é dirigir muito acima de 100 km/h em estradas naturalmente congestionadas pelas férias de fim de ano.

Excesso de velocidade é apenas um dos desvios de conduta.  Não dar sinal com pisca-alerta, quando vai parar ou dobrar, sair da fila de ultrapassagem sem sinalizar, dirigir com luz alta, não reduzir a velocidade na pista molhada, cruzar a BR perigosamente, na frente dos carros, sair do posto de gasolina e entrar na faixa sem dar sinal são outros deslizes dos motoristas em férias.

Campanhas dos departamentos de trânsito ou ministério das cidades não surtem efeito. Os redutores de velocidade ainda impõem algum respeito.  Mas na maioria dos estados, os contratos estão suspensos. Liberados para correr, os motoristas não respeitam nem o pedestre, nem os demais motoristas. Aí surge o problema mais grave nos crimes de trânsito: a impunidade.

Raros são os motoristas presos por cometerem infrações graves no trânsito. Brasília registra uma exceção. No início de dezembro, júri popular condenou motorista de caminhão, que atropelou e matou três pessoas, a 19 anos de cadeia. Uma decisão rara, mas importante no país da impunidade. Como não são indiciados e, quando presos, liberados por fiança irrisória, os motoristas se sentem impunes para fazer o que quiser, até mesmo beber dirigindo, como fazia um sisudo cidadão, acompanhado de uma mulher, ziguezagueando num pálio na estrada Pelotas-Porto Alegre, no dia 28 de dezembro às 18 hs. Na mão, uma cerveja. Passou incólume por uma viatura da Polícia Rodoviária, estacionada à margem da rodovia.

Nas praias, jovens desembarcam dos carros, todos com latas de cerveja nas mãos, inclusive o motorista. Se a polícia não vê, é porque não quer. Eles bebem o dia todo,  voltam à tarde, dirigindo e pegam estradas federais. Ou seja, o problema não é só da condescendência das leis, que não punem infrações de trânsito, mas também da fiscalização e da repressão aos motoristas infratores. 

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