*João José Forni

A sociedade brasileira precisa ficar atenta, porque nos próximos anos, com a badalação em torno da Copa do Mundo, em 1914, e das Olimpíadas, em 1916, abriram-se as comportas do Tesouro Nacional para financiar projetos megalômanos com dinheiro público. Os brasileiros ficaram roucos de ouvir, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, a voz estridente do presidente Lula dizendo que “não haveria um tostão de dinheiro público” nas obras dos estádios.

Após quase dois anos, a passos de tartaruga, os estádios públicos, como Maracanã, Mineirão, Fonte Nova, entre outros, começaram as obras para a Copa sem se saber claramente de onde vem o dinheiro. Alguém aposta em um tostão da iniciativa privada nessas obras? Na hora da festa, todos prometeram, apareceram em fotos, imagens na TV, sorridentes, comemorando a festa que em seguida iria começar com o meu, o seu, o nosso dinheirinho.

Para quem não lembra, é bom recordar a farra dos Jogos Panamericanos.  Orçados em R$ 600 milhões, os gastos chegaram a R$ 3 bilhões. Na pressa, a maioria das obras foi dispensada de licitação. O Tribunal de Contas da União resolveu, este ano,  deixar por isso mesmo o estouro do orçamento (para não falar em rombo) e a prestação de contas, porque entendeu a urgência das obras e a dificuldade de licitação. Os elefantes brancos estão lá no Rio de Janeiro. Instalações públicas foram privatizadas. Como o Estádio Olímpico João Havelange (vulgo  Engenhão), que caiu de presente no colo no Botafogo do Rio, pago com nosso dinheiro. Alguém acredita que o Botafogo paga alguma coisa ao Tesouro, como previsto?

Depois da FIFA e CBF terem esnobado o bom estádio Morumbi, do São Paulo, que precisaria apenas de boa reforma para abertura da Copa, o Corinthians aproveitou o torcedor ilustre na presidência da República e tirou da cartola um projeto de estádio em Itaquera. Previa um estádio de R$ 400 milhões, com 48 mil lugares, por conta de uma empreiteira muito boazinha.  Mas por que, então, diante da indecisão da Fifa e do governo de S. Paulo,  não aproveitar esse estádio para abertura da Copa? Para agradar o “cara”, a FIFA dá o sinal verde, desde que tenha 65 mil lugares, ou que significa mais R$ 200 milhões. Ela não coloca um centavo. Só fatura o lucro. Tudo acertado de boca, claro. E está resolvido o problema do estádio para a abertura da Copa. Adivinha quem vai pagar? E quem vai ficar dono do estádio, sem assumir o ônus das obras?

Outro projeto faraônico,  menina dos olhos da presidente eleita, é o trem-bala Rio-S.Paulo. Esse talvez seja o maior elefante branco surgido nos últimos 40 anos no país. Começou com um projeto de R$ 19 bilhões. Antes de concluído o projeto definitivo, o custo já pulou para R$ 33 bilhões. A presidente, quando candidata, sempre assegurou que seria uma obra com recursos privados.

Nesta semana, terminada a eleição, medida provisória publicada no Diário Oficial prevê que o Tesouro poderá entrar com até R$ 5 bilhões para pagar parte do juro do crédito dado pelo BNDES à empresa construtora. Porque não há empresa interessada em colocar dinheiro privado nesse obra. Os estudos e projeções não dão garantias de retorno. Os cálculos de demanda de público e arrecadação estão superestimados, segundo analistas. O leilão está previsto para 16 de dezembro. O BNDES poderá financiar até R$ 20 bilhões do projeto, com juros subsidiados, abaixo das taxas de mercado, portanto.  Quem garantirá o empréstimo? O Tesouro, claro. Nós, eu, você.  Tudo que der errado na obra, nós pagaremos. Acabou? Não.

Além dos empréstimos de mãe para filho, o governo pretende entrar com mais R$ 3,3 bilhões com recursos do Orçamento, a fim de custear a empresa pública sócia do vencedor.  Alguém poderia argumentar. Tudo bem. É uma grande obra, cara, mas essa sangria nos recursos públicos valeria a pena para a Copa, as Olimpíadas. Só que a previsão de conclusão da linha é 2017. Considerando que os cronogramas no país nunca são cumpridos, mais as restrições ambientais e do TCU, com otimismo, talvez tenhamos um trem bala rodando por volta de 2025. Ou seja, nossos netos e bisnetos poderão andar 400 km, entre Rio e S. Paulo, a 300 km por hora daqui a 15 ou 20 anos.  

Qual a utilidade dessa obra para a população de baixa renda, a que não usa avião no eixo Rio-São Paulo? Muito pouca. Talvez seja muito bem-vinda para empreiteiras, ávidas por faturas gordas de projetos mirabolantes. Ou para os burocratas do governo e intermediários de plantão, com uma excelente fonte para financiar campanhas políticas nos próximos sete anos.

O Brasil conseguiu, na contramão do resto do mundo, destruir e sucatear  as ferrovias, nos últimos 50 anos. Priorizou o transporte caro e poluidor das rodovias.  Os projetos de estádios e transportes megalômanos  apenas confirmam uma triste realidade: os governos são muito bons para cobrar impostos e bater recorde de arrecadação todos os meses. Mas não conseguem demonstrar para a população que o dinheiro dos impostos está sendo bem empregado.

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com. Email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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