boia para salvarUm observador estrangeiro que chegasse ao Brasil nos últimos dias, e lesse as notícias ou assistisse aos telejornais, iria concordar com a famosa frase atribuída ao ex-presidente francês Charles de Gaulle: ““Le Brésil n’est pas un pays serieux”. Se ela foi pronunciada ou não, pouco importa. Esse é o sentimento da maioria dos brasileiros nesse momento. A cada dia aumenta a sensação, não apenas de formadores de opinião, cientistas políticos e economistas, mas também de investidores e empresários, de como os nossos governantes e políticos são despreparados para situações de crise. E, por isso, ninguém pode prever como estará o país daqui a seis meses.

As últimas manifestações, tanto da presidente Dilma, quanto de ministros, políticos, porta-vozes de ocasião, “papagaios de pirata” e oportunistas demonstram que nos transformamos num autêntico “samba do crioulo doido”, tantas são as versões ou palpites divulgados, pelos mais diferentes porta-vozes, sem nenhuma conexão ou compromisso com um projeto de país. Ninguém sabe qual a versão realmente correta; nem quem é o porta-voz oficial do país.

O bate-cabeça do governo é tão evidente que chegam a publicar um decreto da presidente da República tirando poderes burocráticos dos comandantes militares e atribuindo-os ao ministro da Defesa, sem que este, que estava no exterior soubesse; ou sequer o seu substituto, que estava no exercício do cargo. Durma-se com um barulho desses.

Depois dos malfadados anúncios de redução em ministérios, corte de cargos em comissão, que até agora não deram em nada (meros factoides), e da ideia original de ressuscitar a CPMF para tapar os rombos do orçamento, todos os dias surge uma nova notícia, como se fossem balões de ensaio para ver a reação da população. Ou eles estão perdidos mesmo?

As últimas ações e declarações mostram mais uma vez que não há qualquer programa do governo fechado, consistente e consensado para debelar a atual crise, a mais aguda dos últimos 20 anos, pelo menos. A presidente da República, para comemorar o Dia da Pátria, anuncia em redes sociais, porque não tem coragem de fazer pronunciamentos públicos, com medo de vaias, que o país vai ter que tomar “remédios amargos, mas indispensáveis”.

Um dia depois, o “remédio amargo” ou “purgante” da presidente tinha um nome, anunciado pelo ministro da Fazenda, em entrevista fora do país. Chama-se aumento de imposto, não importa qual, tanto pode ser o imposto de renda ou outro qualquer, desde que aumente a arrecadação. Não muito diferente do que faziam os monarcas na Idade Média, para cobrir os gastos nababescos dos palácios dos nobres. Os governos preferem adotar o caminho mais fácil. Compulsoriamente, baixam um decreto e o seu dinheirinho vai custear um gastador empedernido e que nada dá em troca. Fácil, não?

Na mesma hora, empresários, grande parte do Congresso, oposição, sindicatos, todos reagem e repudiam mais aumento de imposto no país, com uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo. E pior: sem dar qualquer contrapartida. É um monstro que engole trilhões de reais por ano, enredados numa burocracia que faz os grandes tubarões escaparem e os lambaris pagarem. Até porque é mais fácil achar serviços públicos que não funcionam do que algum que seja uma maravilha.

Ontem mesmo, reportagem do Jornal Nacional, da Rede Globo, mostrava a odisseia de trabalhadores de São Paulo. Eles gastam quatro a cinco horas diárias no transporte coletivo da grande São Paulo, entre vir e voltar para casa. O país está jogando fora o tempo de toda uma geração de pessoas jovens, que podiam estar descansando, cuidando da família ou estudando. Especialistas calcularam quanto o país perde por ano, nesse emaranhado do trânsito: R$ 114 bilhões. Pela incompetência dos governos em achar soluções para crises que deveriam ter sido combatidas há muitos anos. 

A sucessão de porta-vozes que todos os dias se revezam em dar explicações vazias para a solução da crise, começa a dar a sensação de que ninguém, tanto no governo, quanto no Congresso descortina algum caminho sensato para sair dela.

Assusta-nos quando uma economista como Monica de Bolle, além de constatar que a “desorganização econômica e a crise política são causas da recessão que está esmagando o país”, vaticina que ou a gente encontra logo uma forma de sair do buraco em que nos metemos ou a solução será muito mais amarga do que o “purgante” que a presidente quer nos botar boca abaixo. Pelo jeito, só com calmante nós vamos conseguir dormir.

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