aeroportoDesastre em outubro, descalabro no transporte aéreo nacional durante nove meses, seguido de outra tragédia parecem ter acordado a mídia para uma realidade nacional. Nós tínhamos aeroportos e não sabíamos, havia pistas para os aviões pousar e também desconhecíamos.

É o que se deduz da cobertura diária, com cadernos inteiros sobre o apagão aéreo, após o trágico desastre com o avião da TAM. O assunto entrou na pauta desde outubro do ano passado. Nunca mais saiu, até porque a incompetência das empresas aéreas e das autoridades aeronáuticas manteve o assunto na ordem do dia. Com pequenos intervalos, desde o ano passado, atrasos, cancelamentos, overbooking, desrespeito ao consumidor, reclamações e ataques histéricos nos aeroportos viraram rotina nas reportagens e noticiários da imprensa. A Infraero até criou um boletim diário com o termômetro dos atrasos nos aeroportos. Parece competição esportiva ou resultado de loteria em que todos são perdedores.  

A mídia custou a descobrir que durante anos os aeroportos funcionavam e as pistas recebiam pousos e decolagens, sem qualquer problema e sem que isso fosse notícia. Como funcionava, ninguém percebia. De repente a imprensa descobriu que as pistas têm defeitos, os aviões voam com peças sucateadas e excesso de passageiros, de carga e de combustível, as revisões são encurtadas para eles voarem mais, os aeroportos não tiveram investimentos em segurança, mas em lojas e salas. A agência reguladora não fiscaliza, os recursos não são aplicados ou acabaram, as obras são liberadas antes de ficarem prontas. Afinal, sempre foi assim?

Não. O que a imprensa deve apurar é o que aconteceu nos últimos anos para que o transporte aéreo brasileiro, que funcionava tão bem, elogiado por organismos internacionais, tenha se transformado nesse caos e calvário diário de quem quer viajar e cumprir seus compromissos ou simplesmente passear. Por que, a partir do acidente da Gol, escancarou-se um abismo que, das duas uma: existia e não aparecia. Ou de repente estourou, após erros de gestão, incompetência, corrupção, lobbies, para não dizer descalabros. E todo o Brasil descobriu que voar se tornou uma aventura perigosa.

Infraero e Anac, entidades que os simples mortais desconheciam totalmente, de repente viraram personagens da novela das oito e manchetes de cadernos especiais. A Anac se origina do antigo DAC – Departamento de Aviação Civil e desde que nasceu sempre foi notícia, porque sua criação e composição surgiu com contornos políticos. Mas o DAC e a Infraero, esta uma empresa de mais de 30 anos, que administra os aeroportos, cumpriam suas missões como aquele juiz que apita bem e passa despercebido durante o jogo. E porque o juiz de repente foi para as manchetes, começou a ser xingado e esquecemos o jogo?

Bem, aí é que está o busílis, diria o filósofo. Se a imprensa tivesse mais cuidado, teria acompanhado mais de perto o desempenho de todos os organismos que compõem o sistema aéreo nacional, a começar pelo Ministério da Defesa, a quem estão vinculados todos os órgãos que controlam o transporte aéreo. Transformaram-se empresas e entidades eminentemente técnicas em setores aparelhados, em que o viés político se sobrepôs ao técnico.

Só agora a mídia descobriu que nos aeroportos existem lojas e salas de embarque luxuosas em lugar de equipamentos de segurança? Bobagem. Sempre existiram. Em todo mundo é assim. Basta observar os aeroportos de Frankfurt, Madrid, Miami e tantos outros. São verdadeiros shopping. E isso, inclusive no Brasil, não impede que os aeroportos funcionem com segurança. É apenas uma questão de prioridade. Quantas vezes a imprensa cobrou conforto nas instalações de Congonhas? A mídia e inúmeros especialistas que aparecem nessas horas estão atrás de culpados, olham as coisas mais fáceis. Observam as pequenas árvores e esquecem de olhar a floresta.

O cerne do problema que a imprensa deveria apurar com mais cuidado é que a aparelhagem da máquina pública e o desvio de recursos para outros fins que não exclusivamente a construção, reforma e segurança dos aeroportos acabou relegando investimentos prioritários para segundo plano, porque o interesse privado e político se sobrepõs ao interesse público. As obras suntuosas, com placas alusivas ao governo, é apenas a parte mais visível da má gestão que marcou a administração do transporte aéreo nos últimos anos. Essa má gestão inclui as empresas aéreas que não pagam ou vivem rolando as dívidas, fazem pressão, lobby e das autoridades e empresários que aceitam essa pressão e se tornam reféns das empresas aéreas. Ou da Aeronáutica, com recursos escassos para atualizar equipamentos e sistemas. Enquanto isso, a Anac que deveria fiscalizar, pelo que se depreende das recentes revelações de defeitos em aviões de carreira, fazia o jogo das empresas aéreas, liberando linhas, aceitando a pressão e cedendo, sem falar na falta de conhecimento técnico de uma diretoria toda ela indicada por padrinhos políticos. Seria surpreendente se o resultado fosse bom.

Administrar aeroporto não é para amadores. E a imprensa agora sai correndo atrás de culpados, corre atrás de deputados que ficam decifrando as gravações da caixa preta como se fossem técnicos para dar o furo do grito que possivelmente possa ser ouvido. O que deputados entendem de caixa preta, de “grooving” ou de controle do espaço aéreo? Deviam deixar para os técnicos e se preocupar com a floresta, que está infestada de incompetência. Tentar saber se os recursos arrecadados pela Infraero foram mesmo aplicados na infra-estrutura aeroportuária e se os orçamentos foram devidamente auditados e passaram pelos controles de economicidade e da boa prática de gestão. O resto é novela para levantar audiência de TV e leitura de jornal.

A imprensa está esquecendo de cobrar. É só tentar descobrir o que aconteceu nos últimos anos e não será difícil explicar por que aviões que deveriam voar com segurança, como ocorreu durante anos, de repente começam a cair. Ou por que os aeroportos que eram lugar de sonhos, para quem queria vencer distância, se transformaram numa rodoviária piorada. Até os ônibus estão chegando na frente dos aviões nas viagens Rio-São Paulo.

A imprensa avoca sempre o papel de fiscal do contribuinte. É pena que na maior parte dos casos ela chega atrasada. A crise que teve seu desenlace na tragédia mais recente deu sinais durante meses e até anos. Por que a imprensa não cobriu os investimentos em segurança feitos pelo governo nos aeroportos? Por que não descobriu que parte do lucro da Infraero (quando tinha lucro) foi desviado para ajudar no superávit fiscal em vez de ser aplicado nos aeroportos? Por que a mídia não descobriu na ocasião apropriada que as empresas aéreas pressionaram a Infraero para liberar a pista sem o famoso “grooving”? Por que a imprensa não acompanhou a condescendência da Anac com o interesse das empresas aéreas em congestionar Congonhas com vôos diretos e charter antes da tragédia?

Infelizmente a mídia tem chegado atrasada. Assim foi no caso da Encol, da Construtora Gautama, do Banco Santos e em tantos outros. O prejuízo acaba sempre pago pelo contribuinte, pelo passageiro. Agora o problema só foi parar na mídia com destaque porque os aviões começaram a cair. Pena que o atraso da imprensa custou não apenas muito recurso público desviado e jogado fora, custou também muito sofrimento para tantas pessoas.

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