Logotipo da copaQuatro anos passam rápido. O Brasil se preparou para aquele tradicional período em que, de norte a sul, muita gente começa a curtir o clima de Copa do Mundo e, naturalmente, da seleção brasileira de futebol, como favorita para ganhar mais um título. Aquele clima de “Pra frente Brasil”... Não é o caso agora. O grupo de jogadores convocados pelo técnico Carlos Ancelotti em sua maioria não joga no Brasil e alguns nunca jogaram. Foram direto para usufruir dos cofres cheios das equipes da Liga dos Campeões da Europa ou para outros países, com salários bem superiores aos pagos no Brasil. “Como a grande maioria deixa o país muito cedo para se formar sob a lógica europeia, o torcedor perdeu a convivência e a criação de memórias afetivas com seus craques.” Quem diz é a psicóloga e escritora Ana Paula Hornos, em artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” de 13 de junho de 2026.

No imaginário popular, acabou aquele tempo romântico em que os jogadores, maioria deles jogando no Brasil, iam dar show nos gramados da Copa, não importava onde fosse, jogando pelas cores e pela alma do País. De que são exemplos, tantos os heróis do primeiro título, de 1958, como Gilmar, Garrincha, Pelé e Nilton Santos, como outros dos anos de 1962, 1970, 1994 e 2002, quando o Brasil foi Campeão do Mundo.

O que o imaginário popular deduz, hoje, de nossa seleção, até mesmo pelo comportamento midiático ou ostentação de algumas estrelas da seleção? Os jogadores estariam menos interessados em defender uma bandeira, a honra do país, do que aparecerem na seleção, ser convocados pelo que a Copa poderá render para eles no futuro. A rigor, a maioria são jogadores que atuam em clubes milionários, com salários nababescos. Assediados pelas famigeradas BETs, marcas de cerveja e outros penduricalhos, eles também estão de olho em milionários contratos publicitários.

Seleção de 1958 esperando trem em Poços de CaldasResultado: não há aquele comprometimento e despojamento do passado, em que a seleção brasileira tinha um grupo dos notáveis que atuava no país e se deslocava até de trem, como numa famosa foto de Pelé e cia, esperando a passagem de um trem na estação de Poços de Caldas, MG, em 1958, como se todos estivessem ali numa confraria, despojados, num encontro de amigos, dispostos a jogar por uma paixão, por uma camisa, pelo país. Foto essa que se encontra no Museu do Futebol, em São Paulo.

A psicóloga e engenheira Ana Paula Hornos, especialista em comportamento humano, e autora da coleção didática escolar ‘Educação Financeira e Valores’, do livro ‘Crise Financeira na Floresta’, no denso artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” - “Por que a Copa parece diferente desta vez?”, tenta explicar que os brasileiros hoje não conseguem dissimular uma certa frustração quando a seleção brasileira entra em campo. Salvo algumas exceções, acabou aquela empolgação, aquela mística como se o grupo que viaja para a Copa fosse defender a honra e a reputação do País. Mudaram os tempos, mudaram os interesses, as prioridades. Garotos com 18, 20 anos já são contratados por grandes clubes do exterior, sem terem passado pelas dificuldades de uma carreira no Brasil. Alguns sequer são conhecidos da torcida brasileira.

“O brasileiro sempre admirou o sucesso, mas historicamente se conectava ao esforço, à superação e à sensação de humanidade no ídolo. Neste novo cenário, muitos jogadores deixaram de ocupar o espaço de heróis esportivos e passaram a representar estilos de vida inalcançáveis, consumo ostentatório e publicidade de apostas”, diz a escritora.

Vinte quatro anos depois do último título, a equipe do Brasil se tornou meio que uma vitrine de talentos, ou melhor, de egos, fazendo a Confederação Brasileira de Futebol trocar treinadores e, por consequência, também de jogadores a cada tropeço, a cada perda de Copa do Mundo ou outros torneios, como a Copa América. Ou seja, em quatro anos, com a CBF em crise, numa gestão política, errática e pouco profissional, não houve um trabalho de continuidade com treinadores, para criar um verdadeiro time. Cada novo treinador impunha o próprio estilo e, nas primeiras derrotas, seu nome já começava a ficar desgastado. Quem segurava um ano, numa temporada, no próximo podia perder a posição, numa autêntica competição pra ver quem errava menos.

E o brasileiro, como reagiu a isso? “Há um visível recuo no engajamento espontâneo. As camisas amarelas estão guardadas, o comércio está mais tímido e sumiu aquela antiga sensação de que o País inteiro, de forma visceral, parava emocionalmente junto. E se até Neymar está diferente nesta nova fase, ele se torna o símbolo mais claro dessa transição”, diz a escritora Ana Paula, no citado artigo. “O craque que antes representava o sonho do herói salvador do futebol brasileiro, atualmente aparece associado menos à performance e mais ao universo das bets, campanhas publicitárias, streams e à lógica da hiperexposição permanente.”

“No curto prazo, isso gera atenção, engajamento e dinheiro. No longo prazo, desgasta o ativo mais valioso de qualquer figura pública: o vínculo emocional, a confiança e a identificação. A verdade é que a Copa parece diferente porque nós também estamos diferentes. A nossa realidade ficou pesada demais e o anestésico antigo do futebol já não faz efeito”, segundo Ana Paula.

A Copa da discriminação

Seleção Brasil 2026Quando a FIFA escolheu os Estados Unidos como a sede da atual Copa do Mundo, certamente não poderia saber quem seria o presidente do país em 2026. Mas, se tivesse tido um cuidado maior, descobriria com uma simples pergunta à IA, ou talvez por contatos com o governo americano, amplas informações sobre o que o atual presidente e seus comparsas pensavam sobre imigração, segurança e minorias, como lamentavelmente vem acontecendo com as delegações de países pobres ou sem expressão no futebol, incluindo a do Irã, do Haiti, Senegal, que foram literalmente discriminadas por Donald Trump e sua polícia de fronteiras. A rigor, não deveria causar surpresas para a FIFA, pela forma autocrática e xenofóbica da gestão Trump. Não faltaram cenas de constrangimento. A seleção do Uruguai, um dos países mais pacíficos e educados da América, teve que passar pelo constrangimento de uma revista, onde até cachorros foram utilizados pelos policiais. Sem falar nos torcedores estrangeiros que compraram ingressos, confiando no chamado “fair play” da FIFA, e acabaram impedidos de entrar nos Estados Unidos. Quem vai pagar o prejuízo?

O presidente da FIFA, Giani Infantino lava as mãos e diz que lamenta o que aconteceu, mas a entidade não pode intervir nas normas internas dos países-sede. Uma desculpa esfarrapada, para quem teve o desplante de criar um troféu da paz da FIFA para entregar ao presidente dos Estados Unidos, que, na época, reivindicava o Prêmio Nobel da Paz.

Mas, voltando à população brasileira e sua reação a uma Copa do Mundo, além do desalento de uma seleção sem alma, por trás também existe um certo ‘preconceito’ ou seria constrangimento de torcedores em utilizar as cores verde e amarela. A explicação pode ter muito a ver com o período bolsonarista que, de certa forma, tentou se apropriar da bandeira e das cores brasileiras para ostentá-las em passeatas, carreatas e comícios durante os quatro anos daquele mandato. Certamente, há pessoas que são partidárias do ex-presidente e continuam usando o verde e amarelo, como símbolo.

A escritora Ana Paula Hornos atribui esse desinteresse patriótico pela seleção a outros fatores também, um certo desencantamento com aquele grupo de jogadores, alguns que os brasileiros nem conheciam, porque não atuaram no Brasil, atribuindo ao momento histórico que vivemos, com crises que atingem, principalmente a população de baixa renda.

“Diante de um cenário profundo de insegurança social, avanço da pobreza e um endividamento crônico que sufoca o orçamento doméstico, o esforço diário pela sobrevivência simplesmente esgotou a nossa capacidade de dar uma pausa para celebrar.”

“Durante muito tempo, o futebol funcionou como uma suspensão simbólica da realidade nacional. A Copa do Mundo fazia o País esquecer, ainda que temporariamente, do desemprego, da inflação e da desigualdade. O jogo operava como uma espécie de anestesia coletiva". Algo que aconteceu em 1970, durante o período da ditadura militar, que surfou nas vitórias daquela seleção inesquecível com uma geração de ouro no time brasileiro, como Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino e companhia.

“É justamente nessa exaustão real e financeira que fomos engolidos pela disputa agressiva por nossa atenção e por nosso bolso. A paixão pelo futebol passou a competir com um ecossistema digital desenhado para capturar cérebros cansados e transformar ansiedade em consumo instantâneo”, conclui a escritora no artigo citado. 

O novo Big Brother nos gramados dos Estados Unidos

Juiz deportado da CopaA Copa pode se tornar um novo Big Brother da Rede Globo, principalmente pela avalanche publicitária que tenta transformar o evento na redenção do País, como se aqui estivéssemos num clima do famigerado Pra Frente Brasil, dos anos 1970, em plena ditadura. Não é de hoje que os governos querem e gostam de tirar proveito de vitórias na Copa. O comércio comemora com festas, shows e encontros onde o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente, aumenta e facilita o clima de oba-oba. As empresas de comunicação comemoram, porque o faturamento publicitário também cresce.

No caso da Rede Globo, que tem os direitos de transmissão da Copa do Mundo, o esforço de marketing é tamanho que podemos especular que o faturamento destes 40 dias equivalem aos valores faturados com o famigerado Big Brother. A cada passo do time do Brasil, a fatura está garantida. Os consumidores são envolvidos pela onda que anuncia não apenas os patrocinadores da Copa do Mundo, mas uma série de outras empresas interessadas em embarcar no iate da Copa. A Rede Globo enviou perto de 120 profissionais para os Estados Unidos, México e Canadá, apostando numa possibilidade de o Brasil chegar à final. Um tanto quanto improvável pelo futebol apresentado no primeiro jogo contra o Marrocos e pela dificuldade até do treinador em definir qual o time titular do Brasil.

Ainda segundo a escritora Ana Paula, “O brasileiro sempre admirou o sucesso, mas historicamente se conectava ao esforço, à superação e à sensação de humanidade no ídolo. Neste novo cenário, muitos jogadores deixaram de ocupar o espaço de heróis esportivos e passaram a representar estilos de vida inalcançáveis, consumo ostentatório e publicidade de apostas.”

A avalanche comercial da mídia, principalmente, não constrangeu a Rede Globo – detentora dos direitos de transmissão - a cometer um pecado mortal: confundir jornalismo com publicidade, ignorando uma máxima que qualquer estagiário de jornalismo aprendeu na faculdade. Nunca misturar a igreja com o estado, ou seja nada de jornalismo fazendo publicidade. Ou vice-versa. O contrato da Rede Globo com o treinador da seleção, Carlos Ancelotti, facilitou a entrevista de 28 minutos, ao “Jornal Nacional”, em 18 de maio, quando anunciou os convocados. Seguida, poucos minutos depois, por anúncio publicitário, onde aparece o treinador. A entrevista, de certo modo, perde credibilidade com essa ação de marketing.

Agora, já na Copa do Mundo, houve uma outra cena, desta vez com o jornalista Alex Escobar, lá nos Estados Unidos, em que ele entra ao vivo numa reportagem sobre a Copa e no fim dessa participação ele, com cara de paisagem, faz um escancarado anúncio de uma BET. Ou seja, o encanto, o dogma do jornalismo foi quebrado, vulgarizado, provavelmente, pela pressão do departamento de Marketing. Vale perguntar: o bom jornalista não ficou constrangido com essa saia justa?

Assim como acontece com a FIFA, a Copa do mundo se transformou num grande caça níquel. Onde todos os envolvidos ganham alguma coisa. Até aqueles três minutos da pausa para hidratação estão sendo questionados, pelo fato de a FIFA aproveitar para inserir anúncios pela televisão. E o torcedor, iludido, ainda pensa que os times entram em campo com espírito patriótico, para defender as cores do país. Ao fim e ao cabo, tudo tem a ver com Money, Money, e não com futebol.

“Essa quebra de sintonia com o ídolo isolado reflete também uma mudança profunda no próprio esporte. O futebol moderno evoluiu: os times que vencem hoje não dependem mais do milagre de um único homem, mas sim de sistemas coletivos extremamente coordenados, de um espírito de equipe operário e de disciplina tática”, conclui a escritora Ana Paula Hornos.

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