Hospital campanha Santo AndreUma questão interessante para quem trabalha com gestão de crises é a imprevisibilidade das crises. Afinal, as crises podem ser previstas? O Brasil atingiu ontem uma marca terrível: 300 mil mortes por Covid-19, em um ano. Só os Estados Unidos têm números maiores. Com uma população um terço maior. Em mortes por 1 milhão de hab, os EUA registram 1.654 óbitos e o Brasil 1.424. 

Em março do ano passado, quando morreu o primeiro paciente por Covid no Brasil, nenhum brasileiro de sã consciência e discernimento poderia prever ou sequer ousar especular que teríamos 300 mil mortes pelo coronavírus, um ano depois. E por que nos permitimos chegar a essa marca histórica? Com todas as consequências nefastas para os brasileiros?

Crise do coronavírus

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Não é difícil tentar explicar. O Brasil está colhendo o que plantou durante todo o ano passado e, principalmente, a partir das festas de fim de ano. O governo de certo modo se omitiu durante a pandemia, a começar pela instabilidade instalada no próprio ministério da Saúde: 4 ministros em um ano, sendo grande parte conduzido por um ministro que não é médico, como, nesse período de crise sanitária, deveria preferencialmente ser. Depois, pelo negacionismo da presidência da República, postura errada que se espalhou pela Esplanada dos Ministérios como o próprio vírus. Se o chefe não usa máscara, condena o distanciamento social, é contra as vacinas e o ‘lockdown’, por que nós vamos ser a favor? Assim reagiam muitas pessoas, seduzidas pelo canto de sereia de quem deveria dar o exemplo. Basta ver o que os líderes da Nova Zelândia, Taiwan, Dinamarca, Alemanha, Reino Unido, Chile, Finlândia, entre outros, fizeram. E outros países que estão conseguindo conter a segunda e até a terceira onda do vírus, mesmo com perdas de vida e prejuízos financeiros. 

Definitivamente, na hora de uma crise dessa dimensão, uma liderança forte faz uma grande diferença. E infelizmente, o Brasil não teve.

Uma tragédia anunciada

A morte de milhares de brasileiros era uma tragédia anunciada? Sim, mas não com essa dimensão. Além da presidência da República comandar um boicote aos médicos, infectologistas, secretarias de Saúde, governadores, prefeitos, no sentido de criticar e não apoiar os procedimentos sanitários recomendados pela OMS e por todas as agências de saúde do mundo, o principal mandatário desdenhou de quem pregava o 'lockdown', por exemplo, ou restrições mais severas para reduzir as aglomerações e segurar as pessoas em casa. Desde o começo da pandemia, Bolsonaro promoveu pelo menos 41 cerimônias com aglomerações no Palácio do Planalto, segundo o site O Antagonista.

Ele critica os governadores por tomarem medidas de restrição, como o toque de recolher, por exemplo, ameaçando-os – equivocadamente - com um instrumento que ele sabe que não poderá usar nesse caso: o estado de sítio. É apenas uma bravata para agradar os seguidores? Naturalmente, não demonstrou estar interessado em resolver a crise da pandemia. Aparenta estar preocupado apenas com os riscos à eventual reeleição. Pode parecer até que não importam quantas pessoas morram, o que, convenhamos, é uma postura extremamente desumana, para quem, vez por outra, chama Deus para o seu discurso. Seria isso um projeto de poder e de confronto a quem não segue sua cartilha? Por mais sinistro e macabro que seja?

Em português bem claro: em nenhum momento o presidente demonstrou aquilo que, no idioma inglês, tem uma palavra forte para expressar, quando devemos demonstrar, realmente, um sentimento de pesar, de dor, sofrimento, para quem perde seus entes queridos - "compassion" -. O sentido da palavra"Compassion" não é compaixão, mas um sentimento que se assemelha a "empatia" com as famílias enlutadas, com a memória dos mortos. Ao contrário, o governo federal chegou ao ponto de insinuar que os governadores estariam aumentando o número de mortos por Covid, numa teoria conspiratória e doentia de que isso seria para desestabilizar o presidente. Sobre isso, até o novo ministro da Saúde teve que opinar, no dia da posse. A que pequenez institucional nós chegamos!

O provisório definitivo

Covid abracoAo deixar o Eduardo Pazuello no ministério da Saúde, tanto tempo, todo atrapalhado com a gestão da pasta e criticado pelos governadores e por outras autoridades do Congresso e do Judiciário, o presidente sinalizou que a ciência para ele tinha pouca importância. Não foram poucas as vezes em que as recomendações insistentes dos infectologistas foram ridicularizadas pelo presidente e apoiadores, ostensivamente fazendo ajuntamentos, manifestações, onde eles, incluindo outras autoridades do Palácio do Planalto, compareciam sem máscaras, em cumprimentos e abraços, tudo que a medicina recomenda evitar, neste momento. Seria uma forma acintosa de desdenhar dos “catastrofistas” da pandemia, o que incluía a “mídia esquerdista”? Um mantra dos bolsonaristas fanáticos, sempre criticada pelo presidente e os áulicos que gostam de rir das barbaridades ditas pelo presidente?

Alguém tem dúvida de que dia a dia construímos essa tragédia anunciada? Em 2 de março, em entrevista, a pneumologista Margareth Dalcolmo, professora e pesquisadora da Fiocruz, no Rio de Janeiro previa: “As festas de final de ano foram trágicas. Eu mesma me manifestei diversas vezes dizendo que o Brasil teria o mais triste janeiro de sua história. Agora eu não tenho dúvida de que teremos o mais triste março de nossas vidas. Isso é resultado do Carnaval e do descompasso entre o que nós, cientistas, dizemos, e o que as autoridades afirmam."

“Nos últimos dias, ouvimos que não é pra usar máscaras. Não há dúvidas, está demonstrado que a máscara é uma barreira mecânica que protege quem usa e todo mundo ao redor. Todos esses fatores, somados ao cansaço de uma pandemia tão longa, geram um comportamento que tem se mostrado desastroso. O que vemos agora então é uma pressão enorme sobre o sistema de saúde, que sofre com uma taxa de ocupação de leitos acima de qualquer nível desejado em hospitais públicos e privados.”

Só a boa gestão salva a crise

O Brasil colhe neste início de ano, o ápice de um longo período de má gestão da crise da pandemia. Onde não tivemos liderança, não havia plano centralizado e definido, com objetivos claros; não houve uma comunicação institucional efetiva, que era capenga e pontual, com os governadores tentando assumir, mas sendo bombardeados pelo Palácio do Planalto; e, finalmente, não tinha um norte: cada um tentou fazer a sua parte. Todos pressupostos essenciais que faltaram pra qualquer gestor fazer uma boa gestão de crise.

Chegamos um ano depois, exauridos física e psicologicamente. Só menos do que o pessoal da área da Saúde, nos hospitais e clínicas espalhados pelo Brasil. Esses estão completamente esgotados. Alguns desistiram pelo caminho; muitos morreram contaminados pela Covid. Dependemos deles, porque se os brasileiros forem depender do sistema de saúde público ou privado, pelo menos neste momento crucial, estão fadados a entrar numa fila congestionada, do Ceará ao Rio G. do Sul, para conseguir uma UTI ou um leito, e serem preteridos, mesmo com plano de Saúde ou muita grana para pagar.

A única esperança é a vacina em massa. Mas até nisso o governo falhou. Pela má gestão da Saúde, esta se omitiu em comprar vacinas quando os países mais ricos e espertos compraram. Agora, quando todos querem vacinas, elas estão escassas. E o nosso ritmo de vacinação, é lento e desorganizado, porque nem isso o ministério conseguiu gerenciar. Os estados, com todas as suas limitações, estão tentando organizar. E as vacinas que temos se devem, em grande parte, ao Instituto Butantã.

Chegamos ao ponto em que, não importa seja rico ou pobre, mais moço ou mais velho, se estiver em estado grave o paciente correrá sério risco de não ser socorrido a tempo. Basta dizer que no estado do Paraná, sempre citado como dos mais urbanizados e desenvolvidos do País, 1.000 pessoas morreram por falta de leito nos hospitais, nos últimos dias. Não tivesse acontecido nada mais nesta pandemia no Brasil, só esse fato já seria suficiente para demonstrar com tristeza que falhamos totalmente em cuidar da saúde dos nossos co-irmãos. 300 mil mortos é seis vezes mais do que os americanos perderam de soldados nos cinco anos da Guerra do Vietnã e as mesmas cinco vezes de brasileiros que morreram na Guerra do Paraguai, no século XIX. É uma vergonha nacional o que está acontecendo no Brasil. 

Foto: Hospital campanha de Santo André - The Guardian/André Pener/AP

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