resgateDepois da passagem do furacão Sandy que virou tempestade, nos EUA, muitos governantes tem se perguntado como evitar vítimas e estragos maiores nos desastres naturais. Ou como prevenir crises graves. Embora muitas delas sejam crises potenciais, até certo ponto previstas, não se sabe quando e nem as dimensões que irão tomar.

O tema da prevenção é dos mais instigantes na Gestão de Crises. A propósito, em 2010, Amanda Ripley, escritora e jornalista da revista Time, publicou um livro nos EUA, The Unthinkable (O inimaginável, ainda sem edição em português). É uma leitura recomendada para todos aqueles que trabalham ou têm interesse em respostas a emergências, principalmente governos, serviços de socorro, agências de meio ambiente e de defesa civil.

A obra de Ripley faz um percurso histórico sobre grandes crises, oriundas geralmente de tragédias, algumas emblemáticas, como o atentado ao World Trade Center, ou a Explosão de Halifax, uma tragédia na cidade escocesa de Halifax, em 1917, quando dois navios se chocaram e explodiram, matando duas mil pessoas. Mas o foco do livro de Ripley, além de investigar algumas das mais graves catástrofes do mundo moderno, é questionar como as pessoas reagem às crises e por que algumas sobrevivem e outras não. O livro traz uma gama de informações sobre como o cérebro humano processa mensagens durante uma crise e então direciona o corpo para responder.

Incêndios, inundações, tsunamis, naufrágios, acidentes de avião, atentados. Não é um livro de tragédias ou de novelas-catástrofe. Ele está mais para o relato jornalístico cru, sem enfeites, de fatos que na época em que aconteceram foram manchetes, mas muitos deles ignorados. Mas o livro, principalmente, tenta responder por que milhares de pessoas morreram em alguns dos acidentes e outras se salvaram, mesmo sob condições extremas.

Nem todos foram um Titanic. Há 100 anos o mais famoso naufrágio do mundo enche páginas e páginas de jornais, revistas e livros e até mereceu uma superprodução de Hollywood. Por isso, muitas crises acabam nos desvãos da história. Até certo ponto o livro é reconfortante e tranquilizador sobre a natureza do ser humano, principalmente na sua capacidade de sobreviver e ajudar os outros a sobreviver.

Prevenção ou acaso

Existem inúmeras histórias de pessoas que sobreviveram a tragédias porque não estavam no lugar errado na hora errada. Houve algo que as fez escapar. Os que não escaparam não estão aqui para contar a história. Mas podemos pelo menos deduzir ou até atribuir ao azar o que aconteceu com determinadas pessoas ou organizações. Como aquele empregado que voltou a um dos edifícios que desabou no Rio, no início do ano, porque havia esquecido algo, e acabou morrendo.

O que interessa à Ripley é a história dos sobreviventes. Por que o furacão Sandy acabou ajudando Obama na eleição e não se transformou numa grande tragédia? A palavra chave é prevenção. Porque teve uma longa preparação, que não aconteceu 24 ou 48 horas antes. Há muito tempo, detectada a ameaça, o Serviço de Prevenção de Acidentes dos EUA (FEMA) começou a mapear tudo que seria preciso fazer para reduzir o impacto negativo da tormenta. E assim foi feito. Mas houve mais de 100 mortes, diria alguém. Sim, mas poderiam ser milhares. Os estragos materiais seriam infinitamente maiores do que o cálculo dos prejuízos até agora, estimados entre US$ 20 a 50 bilhões.

Nada aconteceu por acaso ou sorte. Os hospitais da costa leste já anunciaram nesta terça-feira que irão repensar todo o planejamento de desastres, em função do que aconteceu e do que aprenderam durante a passagem do Sandy. Pelo menos três hospitais e quatro casas de abrigo tiveram que ser evacuadas por causa da tempestade, em Nova York, e os outras unidades foram sobrecarregadas. Se não tivessem estrutura, não teriam suportado. Mas nem todos estavam preparados.

Só um bom trabalho de prevenção pode evitar crises mais graves. O tema é tão instigante que se constitui num dos capítulos mais importantes da Gestão de Crises e tem repercussão até mesmo na vida pessoal. Prevenir implica conhecer as próprias vulnerabilidades. Mas não apenas isso. É estar preparado para, quando surgir alguma ameaça, com todas as alternativas, poder se não evitá-la, pelo menos minimizá-la.

The Unthinkable

Karren Terril, comenta o livro de Amanda Ripley e os serviços públicos de alertas de acidentes, no Blog Crisis Management, de Jonathan Bernstein. Para ela, "The Unthinkable diz ao leitor o que os serviços de informação pública já sabem... Devemos considerar como as pessoas pensam durante uma crise, e tratá-las adequadamente. Estamos muitas vezes dizendo que não deveríamos divulgar esta ou aquela informação, porque não queremos que as pessoas entrem em pânico. Mas, como a autora observa, as pessoas quase nunca entram em pânico, de fato. A primeira resposta ao medo é normalmente uma espécie de congelamento, ou o que ela chama de "fase de negação".

"Temos um "viés de normalidade". Significa que esperamos que tudo seja do jeito que sempre é, de modo que quando ouvimos um alarme ou alguém grita fogo, ou o chão começa a tremer, não corremos gritando. Nós paramos e consideramos, olhamos em volta e conversamos com outras pessoas, e acabamos atrasando nossas ações, algumas vezes por longos períodos de tempo." O livro, repleto de estudos de caso, mostra como em muitas tragédias as pessoas morreram devido à falta de informação, ou por acreditar em informações erradas.

"Nós poderíamos nos perguntar quantas vidas poderiam ter sido salvas de desastres naturais, atentados, acidentes e outros tipos de crises se as pessoas tivessem pelo menos parte da informação. O livro nos faz pensar em como os governos, autoridades e empresas falham em políticas de prevenção de crise que evitariam não apenas as tragédias, mas os custos elevados pelas consequências delas."

Gastam-se vultosos recursos públicos para minimizar os efeitos das crises. Se os serviços de informação pública e as inúmeras entidades que existem para supervisionar crises na área pública cumprissem sua missão, criando campanhas agressivas de informação, milhões de dólares em gastos públicos seriam economizados. Infelizmente, não apenas no Brasil, mas na maioria das crises graves em outros países, ações preventivas só são atacadas realmente após a ocorrência dos eventos.

Karren Terril argumenta que o leitor fica a se perguntar quantas vidas poderiam ter sido salvas em tragédias (como o Katrina, o tsunami do Japão, as inundações e deslizamentos no Rio de Janeiro), se as pessoas tivessem pelo menos parte da informação, e, claro, se elas iriam até mesmo acreditar. Eu imaginava uma equipe de Public Information Service (PIO) criando uma campanha de informação agressiva, levando de casa em casa, a mensagem única para essas pessoas.

"PIOs experientes sabem a importância de uma mensagem simples e poderosa ... uma mensagem criada especificamente para um determinado grupo, com atenção deliberada para o seu estado de espírito, durante uma crise. Eu não estava lá, (Katrina e outros eventos) então eu não sei se houve um esforço para fazer isso. Mas o relatório pós-ação parece indicar que esta questão foi uma das causas de inúmeras mortes", diz a colunista.

"Desde 9 de setembro, o governo dos EUA gastou cerca de US$ 23 bilhões, dos estados às cidades, em nome da segurança interna. Muito pouco desses recursos tem sido canalizado inteligentemente para proteger pessoas comuns como eu e você. Por que não dizer às pessoas o que fazer quando o país está em Alerta Laranja, em vez dizer a elas para ter medo ou ficar alertas?"

A autora do livro, Amanda Ripley, vai mais longe nos questionamentos sobre alertas. "Por que cada bombeiro numa cidade chamada Casper (Wyoming, pop. 52.632 hab.) tem um kit de materiais perigosos de US$ 180, mas cada um de nós não tem uma estatística com um ranking dos riscos que nós atualmente estamos enfrentando, e um plano criativo e inteligente de como administrá-los?"

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