sala_de_aula_boaSurpreendente e chocante a tragédia que se abateu sobre duas famílias de S. Caetano do Sul, na última quinta-feira. Um aluno de dez anos entra armado na escola. Na frente de 25 colegas, invade a sala e sem dizer nada atira na professora, atingida pelas costas. Logo em seguida, sai e dispara contra a própria cabeça, vindo a falecer.

O que levaria uma criança, ainda na infância, a pegar o revólver do pai e cometer um desatino desses? Haveria alguma motivação para um aluno com boas notas, numa escola de elevado conceito de avaliação no Enem a reagir de maneira tão violenta? Como pista, surgiram informações de que ele sofreria bullying de colegas, por ter uma deficiência na perna. O que não ficou comprovado, até agora. Além de bom aluno, filho de pais participativos e presentes, não tinha histórico de violência. 

O drama de David, que talvez nunca seja devidamente explicado, é a mostra mais cruel do estado de violência a assolar as escolas brasileiras e, em certos casos, também no exterior. Sob o argumento de uma pedagogia moderna, e a patrulha dos que vêm ameaças ao sagrado direito da liberdade em qualquer exigência disciplinar, os alunos foram assumindo um pseudopoder e os diretores e professores acabaram virando reféns.

Talvez não seja o caso de David. Mas por trás da violência escolar, o cenário é muito parecido. A família abdicou da educação, pela necessidade de mães e pais passarem o dia fora. Jogam exclusivamente para a escola e os professores a responsabilidade de ensinar, educar e corrigir, tarefa que deveria ser, antes de tudo, compartilhada. Os valores, portanto, foram completamente invertidos. 

Os apelos modernos por mais liberdade e respeito aos direitos individuais de crianças, adolescentes e alunos de modo geral criaram uma fronteira muito perigosa que descamba, não raro, para a licenciosidade, o pouco caso, o desrespeito e, agora, com muito mais frequência, para a violência contra pais, professores  e autoridades. Os psicólogos com muito mais propriedade certamente explicam melhor esse fenômeno bastante agravado no século XXI. 

Mas não há como ignorar e fazer de conta que não há culpados. Os apelos atuais de uma vida cada vez mais competitiva, junto com estímulos à violência, que a própria mídia e a indústria eletrônica glamourizam, tanto em competições, quanto em videogames, contribuem para estimular precocemente a juventude a assumir o papel de herói ou bandido.  Quando não, de justiceiro. Os colegas mais vulneráveis e até os professores se transformam em “sparring”. A violência seria uma forma de materializar fantasias que todos os dias inundam o imaginário de crianças e adolescentes, quase numa lavagem cerebral. 

Ao mesmo tempo, os professores, e por que não os pais, todos são vítimas do sistema. Os pais precisam ter vários empregos para poder manter os filhos em colégios com um mínimo de qualidade e para assegurar um padrão de vida imposto pela sociedade de consumo e que a pressão dos filhos lhes cobra. 

O exemplo recente ocorreu na Inglaterra, um país até então com excelente qualidade de vida. Manifestações de jovens das classes pobre e média, em torno da morte de um jovem, descambaram para um quebra-quebra, invasões e incêndios de prédios públicos e lojas, aliado ao saque por puro vandalismo. 

Essas reações violentas, ocorridas também em Paris, no ano passado, e que não raro acontecem no Brasil, são apenas uma mostra de que os gritos da juventude, como talvez o do pobre David, são pedidos de socorro ou de alerta de crianças e jovens para o tipo de sociedade que criamos. Em vez de transformá-los em vilões, por que não paramos para fazer uma reflexão, e tentar descobrir onde nossa geração errou.

Ao analisar a tragédia ocorrida em abril, na escola Tasso da Silveira, no Rio, quando um ex-aluno invadiu o prédio matando 12 estudantes, citamos especialistas, unânimes em assegurar que esses atos são geralmente premeditados. “Antes de cometerem o ato de violência, os atiradores costumam desenvolver fantasias permeadas por violência, sem estarem em condições de elaborar ressentimentos ou resolver conflitos. Aparentemente são jovens ajustados, cujo comportamento não levanta suspeitas”. 

Até agora, existem informações esparsas de testemunhas que o pequeno David havia mencionado e até desenhado o atentado. Embora sejam filigranas policiais que podem interessar ao inquérito, uma coisa é certa: a tragédia de S. Caetano do Sul foge aos padrões até mesmo internacionais de violência juvenil. 

Talvez nunca saberemos as humilhações sobridas pelo aluno, o que o atormentava e quanto isso o incomodava. Agredir uma professora, segundo informações, com excelente relacionamento com os alunos, por motivos até agora inexplicados, e depois atentar contra a própria vida, talvez tenha sido uma forma de libertação. Uma maneira de escapar da pressão psicológica, dessa praga do século XXI, o bullying, que nem os pais, nem os professores, infelizmente, foram capazes de detectar e muito menos tratar. 

A escola, num passado nem tão distante assim, era um lugar onde a criança encontrava apelos e conteúdos que em casa dificilmente poderiam lhe oferecer. Era o lugar por excelência que ajudava crianças e adolescentes a almejar e a galgar patamares sempre superiores aos dos seus pais. Havia uma cobrança rigorosa, mas saudável. Poderia até haver uma relação de amor e ódio com certos professores, dependendo do relacionamento e da experiência pedagógica de cada um. Mas jamais passaria pela cabeça dos alunos que as desavenças deveriam ser resolvidas à bala. 

O paulatino desprestígio, com a chancela do estado, do papel e da figura do professor, no Brasil, principalmente das escolas públicas, precisando se desdobrar em vários empregos para ter salário e condições mínimas para lecionar, acaba contribuindo para a permissividade que campeia nos campus e escolas do país. Daí para tragédias como a do desafortunado David é apenas questão de tempo.

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