Livro_do_BucciTrês fatos nesta semana, embora não tenham relação direta, mostram como as empresas de comunicação têm dificuldade de administrar aquilo que elas cobram tanto de empresários e autoridades do governo: transparência, liberdade de expressão, isenção política.

No fim de semana os jornais anunciaram o lançamento do mais recente livro de Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, professor e autor de outros livros de comunicação: Em Brasília, 19 horas: a guerra entre a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula (Ed.Record). No domingo último (6), o ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães, anunciou que estava saindo um ano antes de terminar seu mandato, porque o jornal não concordou mais com a publicação de suas críticas diárias na Internet. Como se sabe, o ombudsman faz um relatório diário para os editores do jornal, com críticas e sugestões. Por último, a FSP (10) denuncia que a Istoé manipulou uma foto de autoria de fotógrafo da Folha, referente ao MST, usando o photoshop para apagar a expressão “Fora Serra” que aparecia na foto. Além da alteração, a revista publicou a foto sem dar crédito ao autor.

O livro de Bucci traz relatos de como ministros do Governo, no primeiro mandato, tentaram interferir ou criticar o noticiário da Radiobras, considerando-o mais realista do que deveria.  Bucci recebeu bilhetes de pelo menos três ministros com críticas ao enfoque das matérias, principalmente em temas polêmicos, como manifestação de servidores e durante as denúncias do mensalão. Bucci tentou imprimir na Radiobras uma linha editoral jornalística e de certo modo isenta, evitando a linha oficialesca dos comunicados oficiais ou tendenciosa a favor do governo.  

O livro desvenda como a máquina de informação do governo deve ser monitorada e desnuda a luta de um jornalista para manter a isenção num dos setores mais nevrálgicos de qualquer governante, a divulgação de informações. Governos são todos iguais. Gostam que a imprensa elogie as próprias ações, que critique os adversários, mas têm extrema dificuldade de conviver com o contraditório. Com o PT não foi diferente, segundo o relato de Bucci. A tese de Ricupero, (“o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”), tão criticada na época pelo então partido da oposição, continua valendo na Esplanada dos Ministérios.  

O episódio de demissão do ombudsman da Folha de S. Paulo ficou bem claro na coluna publicada no jornal, em 6 de abril, quando o ombudsman não escondeu que, embora tenha um mandato de dois anos, estava se afastando porque a direção da Folha não concordou em continuar publicando suas críticas diárias na internet. Ele considerava isso um avanço e por não concordar, preferia sair. O episódio não mereceu maiores explicações da Folha, informando tratar-se de decisão da diretoria. Constituía-se um avanço a publicação das críticas para todos os leitores. Agora, a posição do ombudsman ficará restrita à coluna de domingo.  

O caso da adulteração da foto pela revista Istoé não é novo. Tanto no Brasil como no exterior foram registrados casos de fotos manipuladas. Agora,, com o photoshop, ficou mais fácil vender peixe por lebre. O ineditismo está no fato de que essa foto, além de manipulada, foi usada sem o registro de que pertencia à Folhapress. O jornal publicou em 10/04 a notícia. O editor executivo da Istoé pede desculpas e reconhece ter havido um erro da revista e que não houve manipulação política por ter tirado a expressão “Fora Serra” de uma das placas de trânsito que aparecia na foto.  

Coluna do Ombudsman – Folha de S. Paulo -  06/04/08

Despedida

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto

NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.
De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia.
Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.
A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.
A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL.
A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.
Como se constata no site www.folha.com.br/ombudsman, desde 2000 as críticas vão ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los.
Não poderão mais.


Regras
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalístico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.
E continuará a ocorrer.
Quase 20 anos atrás, as críticas ainda denominadas internas eram distribuídas em papel à Redação.
Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.
Com a difusão por e-mail, será ainda mais difícil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?
Já os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornalística de sucesso, serão barrados. A medida não resolve o problema a cuja solução se propõe, mas prejudica quem é alheio a ele.
A não-renovação do mandato é legítima, respeita a Constituição do jornal. Sua direção tem a prerrogativa de convidar ou não o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. Não há quebra de contrato, e sim respeito.
No meu caso, haveria mudança de regra no meio da gestão, composta de um a três mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.

Autópsia
Não é praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.
Assim como, na conferência da Organização dos Ombudsmans de Notícias, com participantes de 13 países, não encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma crítica ou memorando.
A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou públicas as críticas antes limitadas à Redação. Mais do que as colunas dominicais, essa espécie de parecer se destina a uma autópsia das edições. Em minúcias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Expõe as vísceras do jornal.
O desafio do ombudsman é ser a melhor síntese possível dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas críticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da véspera.
Essa confluência faz do ombudsman um benefício potencial ao leitor e ao jornal.
Mesmo com as críticas vetadas aos leitores, a Folha não perderá a primazia em transparência no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistirão, e a publicação de um artigo como este expressa tolerância com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de análise fossem eles?

Regressão
A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado. Reconhece que o leitor fiscaliza a pauta de compromissos do jornal.
O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles.
Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.
O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?
A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.

Agradecimentos
A crítica diária é valiosa como instrumento de diálogo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi possível conferir se eu perguntei à Folha quem lhe forneceu o dossiê do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. Não é verdade.
Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter à crítica on-line, não sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estatística, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.
Em janeiro, fevereiro e março de 2008, registraram-se marcas inéditas. O salto de 24% na comparação com idêntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como eleição e Olimpíada.
O vigor do Departamento de Ombudsman é manifestação da mudança de comportamento de cidadãos e consumidores de notícias: a fé nos relatos jornalísticos dá lugar ao ceticismo; troca-se a submissão a versões pela leitura crítica; a passividade, por cobrança. Essa é a principal característica do jornalismo do século 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.
Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.
Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos anúncios de prostituição aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.
Pelo ano em que fui feliz, agradeço à confiança que a direção da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um ombudsman crítico. Tentei desempenhar escrupulosamente a missão.
Sou muito grato à minha supersecretária, Rosângela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Redação, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut.
Na editoria de Arte, a Fábio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.
Minha gratidão maior é para quem me deu lições inestimáveis -hoje à noite, em casa ou na rua, não esquecerei o brinde aos leitores da Folha.

Mário Magalhães é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2007.

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