Coronavirus enfermeiraO Brasil entra na segunda semana em regime de quarentena, com as grandes cidades desertas. Educação, serviços, shoppings; atividades industriais e comerciais em sua maioria parados, no maior ou, talvez, no primeiro “lockdown” da história do País. Levará anos para se avaliar e dimensionar os efeitos dessa interrupção da vida social e econômica no Brasil e no mundo. Como se nosso dia a dia estivesse transcorrendo como um filme e ele fosse interrompido abruptamente por um “PAUSE”. Sensação de vazio, de impotência diante da ameaça do vírus, principalmente pelo que vem acontecendo em outros países, alguns com um bom sistema de saúde e acostumados a guerras, atentados e desastres naturais.

Análise da crise do Coronavírus

Como administrar uma crise dessa dimensão? Nós, brasileiros, que nos consideramos privilegiados por não termos tantos desastres naturais como outros países; premiados com praias, fauna e flora exuberantes. Por um clima tropical invejável. Enfrentamos algumas epidemias em anos recentes, mas nada que aparentasse um apocalipse. Algo parecido, talvez a terrível “gripe espanhola”que matou cerca de 35 mil brasileiros, em 1918, a maioria no Rio de Janeiro, onde morreram 14 mil pessoas. Revoltas, revoluções, apenas acontecimentos localizados, que podem ter mudado a história do país, mas não causaram uma grande comoção nacional.

De repente, em pleno século XXI, com todo o progresso, tecnologia, avanços na qualidade de vida, na saúde e prevenção de doenças, somos reféns de um vírus que vem lá da China. Sonhos de empregos, cursos concluídos, viagens, até casamentos, tudo transferido ou frustrado. Todo o planejamento do ano de milhares de empresas e negócios se pulverizou em poucos dias. As expectativas de ter um PIB melhor, neste ano, se evaporou em uma semana. Crescimento zero. Avós, idosos segregados da família, com medo de serem contaminados. Pessoas de máscara, fugindo das ruas e das multidões. Cidades desertas, com cenário de cidades-fantasmas. E milhões de pessoas numa quarentena compulsória, não sabendo o que fazer com o bem mais precioso deste século: o tempo.

Nenhum autor imaginou esse cenário, pelo menos para o Brasil. Hollywood lançou alguns filmes distópicos, tendo como pano de fundo algumas das grandes cidades do mundo atacadas em clima de terror por pandemias. Mas na nossa imaginação, o que era ficção, deveria ter ficado lá, quando de repente é a nossa realidade. Alguém acordou com a sensação de que tudo isso é um sonho?

Uma crise que desafia o país e os governantes

Coronavirus Piazza di Spagna RomaEssa crise precisa ser administrada pelos governos, empresas e pessoas sob três vetores: o da saúde, o econômico e o político. Todos sob a âncora da comunicação. Nenhum pode atrapalhar o outro, porque o objetivo é vencer a guerra contra o coronavírus. No que respeita a saúde, o ministério aparenta estar preparado e vem administrando a crise com os recursos humanos e financeiros disponíveis. Ninguém espere um milagre. Um sistema que já era caótico, apontado por muitos brasileiros, em pesquisas, como o maior problema do Brasil, não vai se transformar num modelo por causa do coronavírus. O ministro tem sido realista, objetivo, bom porta-voz e transmite credibilidade. Um fator importante nas crises é não “dourar a pílula”, minimizando uma ameaça extremamente grave e que pode levar à morte milhares de pessoas.

Trata-se de uma crise séria, talvez a mais grave que o país enfrenta do ponto de vista humano em mais de um século. A líder da Alemanha, Ângela Merckel, ao adotar medidas duras, declarou que o país estava enfrentando a crise mais grave, desde a II Guerra Mundial. O ministério da Saúde tenta fazer o possível. Dentro das limitações de um país com problemas orçamentários graves e vivendo num regime de déficit fiscal. Sem falar nos problemas de urbanização e saneamento; adensamento populacional, nas grandes cidades, com muita gente demandando assistência na saúde para um sistema já no limite.

Os governadores se engajaram no esforço federal para minimizar o possível caos na saúde, principalmente carência de leitos e UTIs, um dos problemas mais graves enfrentados pela Itália. Lá, a quantidade de contaminados foi maximizada pela proporção de idosos na população, o que ajudou o sistema de socorro entrar em colapso. Médicos italianos disseram que em Bérgamo, uma das cidades onde o sistema colapsou, eles tinham previsto cerca de 20 leitos de UTI. Já nos primeiros dias, tiveram que aumentar para 30, 40, 50, pela quantidade de pacientes graves que chegavam. E não deram conta. Tiveram que segregar os pacientes pelo nível de gravidade. Basta dizer que num único dia (21/03/20), 793 pacientes de coronavírus morreram. Um recorde. 

O teste mais duro para o sistema de saúde no Brasil está próximo. O ministro da Saúde calcula que nos primeiros 15 dias de abril atingiremos o “pico” de infestados e de mortes. É preciso estar preparado para isso. O número de infectados no Brasil vem dobrando cada vez num prazo menor. No sábado, 21, eram 1.121 os infectados. Dia 22, 1.546. E dia 23, 1.891, dia 24, 2.201, sem contar os registros estaduais. Mas infectologistas especulam que o número real deve ser dez vezes maior do que isso. Alguns governadores estão montando estruturas para aumentar a capacidade hospitalar, em estádios e ginásios, como em SP, RJ, DF, MG e outros. Mesmo assim, admitem as autoridades, chegará um momento em que certamente faltará leitos, principalmente de UTIs. Por isso exigem o “distanciamento social” e a necessidade de ficar em casa, para evitar o contágio, o que em muitos casos pode comprometer toda a estrutura do sistema de saúde local.

O coronavírus contamina a economia

coronavirus bolsas caem no mundo

É certo que toda a atenção do país hoje está concentrada na área de saúde. Mas é preciso cuidar da economia, porque ela também mata. A paralisação do país, que resultou no fechamento de indústrias e casas de comércio e serviços, pela possibilidade de contágio dos empregados, levou o governo a aprovar medidas especiais para desafogar as empresas em "lockdown". Prazos maiores para pagamento de impostos; linha de crédito para capital de giro; flexibilização de pagamento de dívidas. Todos sabemos que a economia em 2020 já afundou, em função da pandemia. Não foi só no Brasil. Muitas empresas já acenaram que não poderão garantir todos os empregos, com os prejuízos acumulados. O que o governo vai fazer é tentar amenizar o impacto da pandemia.

Quantas pessoas perderão empregos por causa dessa paralisação e as consequências adversas para os empresários? A diretora-geral do FMI, a búlgara Kristalina Georgieva, vê uma recessão igual ou pior do que a de 2008. Há setores que estão à beira da falência, como o aéreo e o de turismo, por exemplo. Em todo o mundo, governos estão anunciando programas para não deixar empresas aéreas quebrar. Missão difícil, nesse momento. O ramo das agências de viagem teve cerca de 80% de cancelamentos nos primeiros dias da crise. O setor hoteleiro está ocioso desde o início de março, com ocupação mínima. As empresas paradas não produzem, não exportam. A população proibida de ir à rua, não compra, não movimenta. A não ser o comércio eletrônico, que, em alguns casos cresceu 300%. Difícil achar um setor que não seja atingido pela crise. Os efeitos mais graves ainda não apareceram. Mas não é difícil calcular.

No momento, todas as ações estão voltadas para proteger as pessoas e evitar o colapso no atendimento, no caso de precisarem de hospitais, principalmente ao grupo de maior risco, os idosos. Não adianta colocar a economia como prioridade, se o país não conseguir evitar o contágio e, em consequência, as mortes, como vem ocorrendo na Itália e na Espanha. De certo modo, é uma escolha de Sofia que os governos precisam administrar.

Por que a comunicação é importante na crise

Coronavirus casos confirmados 2Outro fator importante nessa crise é a comunicação. As entrevistas, desde o início, têm sido bem conduzidas pelo ministro da Saúde que conquistou, pela empatia e o didatismo das explicações, a maioria da população. Nas entrevistas diárias, explica o que o governo está fazendo e o que a população dever fazer: distanciamento social, manter-se em casa, evitar viagens e só se locomover por extrema necessidade. O alerta sobre o frágil sistema de saúde brasileiro também foi dado. Divergências quanto à forma como as ações de saúde interferem na gestão econômica do país também vieram à tona. Não há um consenso se as medidas drásticas de confinamento de todos os empregados - com o fechamento unilateral dos negócios - impactariam de tal forma a economia, causando um mal maior do que o efeito provocado pelo risco de contrair o coronavírus. Não há dúvida que a quarentena vai interferir no desempenho da economia. Aumentando o desemprego. Um tremendo dilema, que foi polêmica também na Itália, na Inglaterra e nos EUA.

A prática tem mostrado, olhando os exemplos da Coreia do Sul, Alemanha e Itália, que o isolamento prematuro das pessoas é um dos requisitos básicos para evitar o contágio e a proliferação de casos. Inclusive na letalidade dessa pandemia. A Alemanha e a Coreia do Sul centraram os esforços na aplicação de testes para isolar a população já contaminada. Na Itália, a demora nos testes foi fatal para o agravamento da pandemia. O resultado todos sabemos. Mais de 6 mil mortos, em 23 de março, em menos de um mês, o dobro da China durante todo o período.

No Brasil, por enquanto, a comunicação tem sido um bom diferencial para esclarecer e ajudar a população a entender a dinâmica dessa crise. A maioria dos veículos liberou o acesso (o chamado pay-wall) pela Internet, para facilitar a disseminação das informações. As entrevistas recorrentes dos técnicos do ministério da Saúde, médicos, especialistas em saúde, psicólogos, de manhã e à tarde, se mostraram eficientes para as pessoas se manterem informados, como dizem as pesquisas. O papel da mídia, nesse momento, é reconhecido como um dos fatores mais importantes para se combater o coronavírus. Não adianta o governo tomar medidas de prevenção, se a população não entender.

Quando o quadro do Brasil se agravou, o presidente da República continuava minimizando e dizendo que seria como uma gripe. Criticava a histeria coletiva por causa do vírus, que estaria prejudicando a economia. Era preciso apenas se cuidar. Na realidade, essa “gripe” mata, disse um médico italiano. “Não é uma gripezinha”, alega. “É uma pneumonia muito forte e quando o paciente chega aqui, muitas vezes não se pode fazer mais nada”. A comunicação pode ser a grande diferença na gestão dessa crise. A população está tentando fazer a parte dela, atendendo aos pedidos do ministério da Saúde. Resta saber se a nossa infraestrutura hospitalar, principalmente nos grandes centros, vai aguentar tamanha pressão. Os próximos dias serão decisivos para avaliarmos se a resiliência dos brasileiros, junto com os esforços de governos e de empresas privadas, que estão doando equipamentos e produtos, serão suficientes para derrubarmos o vírus.

Fotos: Selecoes.com.br; Piazza di Spagna - Roma. Deserta 18/03/20 - Alberto Pizzoli/AFP via Getty Images; Adek Berry/AFP; Gráfico Bom Dia Brasil - 24/03/20.

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