Rocky_front_page_268_x_350Sexta-feira, 27 de fevereiro. O jornal Rocky Mountain News, de Denver (Colorado), nos EUA, com circulação diária de 210 mil exemplares (457 mil aos sábados) tornou-se o maior jornal americano a se render à crise. Foi a última edição em 150 anos. Um dia triste para a cidade e para o jornalismo.

O jornal é mais uma vítima da recessão econômica que atingiu outros títulos fortes como o grupo Tribune, que edita o Los Angeles Times e o Chicago Tribune, jornais de Filadélfia e o Miami Herald, oferecido à venda. Ou o The New York Times, – o jornal de maior prestígio no mundo -, que enfrenta uma das maiores crises de sua história.

O fim melancólico do Rocky, 55 dias antes de completar 150 anos e um dos mais sólidos jornais americanos, com 230 profissionais, entre editores, repórteres e fotógrafos, mostra como é grave a crise que ameaça a mídia americana.  O Rocky foi vencedor de quatro Prêmios Pulitzer, entre 1999 e 2009, um dos mais conceituados prêmios de jornalismo do mundo. Nada disso foi suficiente para superar o prejuízo de US$ 16 milhões no ano passado.

Desde então, a direção do jornal empreendeu um luta incessante para evitar o fechamento. Até o lançamento de um site – I want my Rocky -  convidava os leitores a salvar o tradicional diário.  Não foi suficiente.

Na reunião com os funcionários, que teve narração ao vivo via Twitter, alguém perguntou. Se a edição impressa é economicamente inviável, por que não fazer um produto exclusivamente on-line? Naquele momento a direção não tinha uma resposta, porque nem ela acredita nessa saída.

Três empresários de Denver, sensibilizados pela perda do tradicional jornal, em conjunto com 30 antigos jornalistas do Rocky, planejam lançar um novo jornal on line. Com o nome de InDenverTimes, o novo jornal pretende substituir o Rocky. Segundo os fundadores, será um jornal local que cobrirá a área metropolitana de Denver, capital do Colorado. Apesar de ter alguns artigos gratuitos, a maioria dos conteúdos será pago. O site já está on line numa versão experimental, mas o seu futuro é ainda incerto. Se até 23 de abril, dia em que o Rocky faria 150 anos, não obtiverem 50 mil assinaturas pagas, os empresários não sabem como manter o site.

Na esteira desse jornal, outros títulos fortes se acham ameaçados.  A queda na publicidade e a redução no número de assinantes, em decorrência da crise econômica, é uma ameaça constante à mídia americana. Pequenos jornais têm encerrado as edições impressas e optado somente por edições on line. Pelas dificuldades enfrentadas pelos grandes jornais, anuncia-se a iminência de que San Francisco, na California, seria a primeira grande metrópole do mundo sem um jornal impresso.

O problema é que não há nenhuma segurança de que os assinantes continuarão fiéis com jornais na internet. As pesquisas apontam que o leitor tradicional e fiel de jornais gosta da versão impressa. Ele é de uma geração anterior à internet e reluta em aderir ao uso do computador para ler jornais ou revistas.

Os jornais impressos também são vítimas da enorme concorrência de sites e blogs, que diariamente postam notícias, publicam artigos assinados e discutem a vida americana com a mesma desenvoltura dos jornais em décadas passadas. Quer dizer: não é necessário assinar os grandes jornais para saber o que acontece nos Estados Unidos ou no mundo. E jornalistas famosos, não apenas lançaram os próprios blogs, como aderiram ao jornalismo on line, atraindo anunciantes e com um custo bem menor de edição.

O custo dos jornais impressos e da televisão, diante de um quadro de recessão econômica, praticamente inviabiliza a manutenção de grandes estruturas, como as construídas nos últimos anos nos Estados Unidos. Âncoras veteranos de jornais e TV estão sendo demitidos em função dos altos salários.

“Hoje a informação é um serviço público e uma commodity”, diz Andrew Donohue, editor-executivo da VoiceofSanDiego, um site de notícias independente, sem fins lucrativos, criado em 2005 e que publica reportagens com a mesma qualidade dos grandes jornais. O site vive de doações. “É uma das coisas necessárias para operar uma sociedade, e o mercado não está se saindo muito bem nessa área”, diz o jornalista.

Rupert Murdoch, publisher de um dos grandes conglomerados de mídia do mundo, a News Corporation, discorda desse entendimento. Além de continuar investindo em grandes jornais, como o The Wall Street Jounal,  em recente palestra, na Austrália, ele disse que “é verdade que nas próximas décadas as versões impressas de alguns jornais vão perder circulação. Mas se os jornais derem aos leitores informações confiáveis, veremos ganhos na circulação (em outras mídias)”.

Para ele, os leitores atuais querem a mesma coisa que os leitores do passado “uma fonte na qual podem confiar. Foi sempre esse o papel dos grandes jornais no passado. E esse papel fará os jornais serem grandes no futuro”, conclui Murdoch.

Ilustração: Rocky Mountain News.

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