O poder da comunicação*Francisco Viana

O reino da comunicação é a esfera social dos valores e interesses de atores conflitantes que estão comprometidos em disputa e debate para reproduzir a ordem social, para subvertê-la, ou para acomodar novas formas resultantes da interação entre o velho e o novo, o passado de dominação cristalizado e o futuro de projetos alternativos para a existência humana promovidos por aqueles que aspiram mudar o mundo e estão prontos a lutar por isso.

Manuel Castells, O poder da comunicação.

Quais os caminhos do poder político, no particular, e das instituições, no conjunto, na nova sociedade em rede que vem se tornando a espinha dorsal da vida na sociedade do século XXI? Manuel Castells, filósofo da comunicação, que foi militante antifranquista e acredita no poder transformador da comunicação, entende que há uma saudável transição entre a estrutura tradicional do poder, que se alimenta do controle da comunicação e da informação, para uma cultural de liberdade, característica da universo da internet, que está para a Era digital como a indústria esteve para a Era industrial. E no Brasil, como se realiza essa transição?

A julgar pelas campanhas para prefeitos e vereadores, sem dinheiro e despojadas da suprema influência dos marqueteiros, parece que vai tudo bem. O eleitor, afinal, poderá não ser iludido, ou ser menos iludido, na hora de votar. Em relação à recuperação da economia, parece que nada mudou. Continuamos sem uma boa comunicação e, muito menos, uma transformação concreta capaz de inspirar confiança. Impera o mais estarrecedor silêncio. Nada que possa despertar os ânimos, inspirar confiança. Por quê?

A transição no rumo de uma comunicação digital, que inspire confiança, não é uma transição em linha reta. O poder – foi o que Castells descobriu nos anos de militância clandestina contra a ditadura de Franco, quando distribuía mensagens mimeografadas denunciando o regime, o que lhe valeu um exílio em Paris – está baseado no controle da comunicação e da informação, seja ele o poder macro do Estado e das corporações da mídia, seja o poder micro de todos os tipos de organização. Hoje, é um poder invisível, ditado pelos interesses econômicos e a intolerância ou pela ausência de uma autêntica democracia.

Assim, o poder é mais do que comunicação e a comunicação é mais do que o poder. Mas o poder depende do controle da comunicação, assim como o contrapoder depende do rompimento desse controle. Não é um rompimento fácil, mas um avanço diário. Impasses cotidianos. Tudo isso, Castells coloca com clareza no livro O poder da comunicação e se traduz na forma mais fundamental de poder, a sua hipótese de trabalho: a capacidade de influenciar a mente humana. Como se dá essa influência num país, no caso o Brasil, onde, todos os dias, chovem notícias negativas? Onde parece existir um prazer especial pelo fato negativo e pouco interresse desperta a notícia positiva? Onde parece prevalecer a máxima de que boa notícia não é notícia… Onde a crise, e não as soluções, parecem ser soberanas?  

Contudo, a internet não é uma panaceia. Não foi o antídoto real contra o sistema de comunicação tendencioso – como cita Castells, campanhas políticas condicionadas pelo poder do dinheiro, políticos midiáticos ou pela estratégia dos escândalos – porque ela também incorpora a manipulação e mensagens ilusórias, como no passado foi a televisão. E não poderia ser diferente. O noticiário na internet é construido por seres humanos e traz para a realidade suas ambiguidades, vícios e grandezas. Precisa de liberdade para que as grandezes expulsem (ou superem) as ambiguidades e vícios.

Mas a internet e as redes de comunicação, com a cultura da liberdade, desde a campanha presidencial da Obama em 2008, representa, no mínimo, uma comunicação híbrida, em que os dois modelos se misturam: parte, o modelo tradicional de controle e semeadura de promessas ilusórias, em parte pelo despertar da sociedade pela necessidade de uma comunicação nova, não alienada, que privilegia não o espetáculo, mas a informação. É a tendência que se insinua no caso brasileiro. O eleitor amadureceu. Não se deixa iludir tão facilmente. Espera-se que isso aconteça. As eleições podem beneficiar muito o país. Eleitores bem informados fazem escolhas conscientes.

Dai, a emergência do contrapoder na Era Digital, com amplitude e rapidez maiores que nas eras dominadas pelos jornais, pelo rádio e pela televisão, porque a tecnologia maximixou “as chances e a mobilização de projetos alternativos que emergiram na sociedade para desafiar as autoridades”. E também a comunicação em escala global. No Brasil, espera-se que esse contrapoder ganhe espaço e se amplie. Não só para combater, de fato, a corrupção, mas a incompetência. Sobretudo, a incompetência comunicacional, fator de atraso e da não solução de graves problemas como saúde, educação e transporte.  

Exemplo dessa realidade tem sido a transformação mais importante dos últimos anos: a transição da comuniçação de massa para a intercomunicação individual, tornada possível graças à internet e às redes de comunicação móvel. Soma-se o fato de a internet questionar a todo instante o antigo modelo baseado no controle da comunicação e da informação, o que faz, por exemplo, a ascensão dos movimentos contra situações sociais um fato evidente.

Eles são simultaneamente globais e locais, como ocorreu com a chamada Primavera Árabe; estão conectados globalmente, aprendendo com as experiências uns dos outros, se envolvem em debates globais constantes e expressam “consciência aguda” sobre problemas interligados e humanitários, modelando claramente uma cultura cosmopolita ao mesmo tempo em que se mantêm enraizados em sua identidade específica. Prefiguram, em alguma medida, a superação da divisão atual entre identidade comunitária local e rede individual global. Entre nós, pode-se citar a questão da violência em todas as suas matizes: a violência dos roupas e assassinatos, a violência contra a mulher, contra os homossexuais, etc… São denunciadas localmente, com repercussão nacional e global. O Brasil hoje é visto como um país violento, não mais a ilusória ilha de paz e prosperidade.

O poder da comunicação (Editora Paz & Terra ) é recheado de exemplos concretos da criação do contrapoder. Além disso, há especial relevância nas observações sobre a necessidade de combinar esperança com mudança. Diz Castells: “A mudança é necessária, mas a esperança é a emoção impulsora. É a emoção, que segundo as pesquisas de cognição política, estimula o entusiasmo por um candidato. É somente com a condição de ser esperançosa que a mudança torna-se ‘mudança em que podemos acreditar’ porque o mensageiro confere credibilidade à mensagem, não necessariamente em virtude de suas credenciais, mas pela capacidade que ele tem de inspirar esperança e confiança”. Mensageiro e Mensagem = confiança, credibilidade.

É uma reflexão de valor universal. Vale tanto para clarear os horizontes da entorpecida economia brasileira e das nossas eleições municipais, como a eleição americana. Quebra o paradigma de que importam apenas as imagens, tão venerado pelos marqueteiros, e introduz em cena o valor das palavras. Palavras importam sim, pois podem portar “esperança e não o medo”, como lembra Castells. Porque o importante é influenciar positivamente a mente humana. É isso que faz a qualidade da comunicação, é o que altera, para melhor, o exercício do poder. Que está na raiz do sentido da comunicação. Ler Castells é fascinante.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP).

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