Samarco barragem rompidaA Mineradora Samarco, controlada pela brasileira Vale e a australiana BHP, enfrenta uma crise grave, por dois componentes que por si só já são extremamente deletérios para qualquer empresa: acidente com vítimas fatais e risco de contaminação do meio ambiente. As primeiras ações foram lentas para uma empresa que lida com um negócio de alto risco. De positivo, o tempestivo pronunciamento do diretor-presidente, em vídeo, na tarde de ontem (5).

O rompimento de duas barragens no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, MG, a 115 km de Belo Horizonte, já registrou duas mortes, mas a empresa e a Defesa Civil reconhecem o desaparecimento de 28 pessoas, entre trabalhadores e moradores, sendo cinco crianças, no mar de lama que desceu das montanhas em direção a um lugarejo onde viviam aproximadamente 500 pessoas, em 120 imóveis. Essas pessoas perderam tudo, porque a aldeia praticamente ficou toda coberta pela lama. Pela extensão, a Defesa Civil calcula que 2 mil pessoas possam ter sido afetadas.

O Sindicato dos Trabalhadores (Metabase) calcula que haveria mais pessoas desaparecidas, o que agravaria a crise da mineradora. Eles estão se baseando em dados dos empregados que lá trabalhavam. Até o início da tarde de sexta-feira, os bombeiros haviam resgatado cerca de 500 pessoas que estavam isoladas pela lama.

Em nota, a empresa afirmou ontem desconhecer as causas do desabamento, uma vez que as barragens teriam sido vistoriadas ainda este ano. Naturalmente, alegar que foi um evento repentino e não estar preparada para crise dessa dimensão, não é uma justificativa aceitável, uma vez que a Vale (controladora) é uma mineradora de porte internacional e conhece muito bem os riscos dessa atividade.

A mineração está incluída entre as indústrias que mais registram crises no mundo, atualmente, com um índice de aproximadamente 30% de todas as crises industriais. Essas crises estão inseridas no que os especialistas chamam de “Externally incidents”, ocasionadas por fatores externos e sobre os quais, muitas vezes, as empresas não têm absoluto controle. Mesmo assim, o acidente ocorrido na Samarco não poderia, à primeira vista, ser classificado com os chamados “atos de Deus”, aqueles eventos naturais sobre os quais o homem tem pouco ou nenhum controle, como terremotos, maremotos e furacões.

A maioria dos acidentes com mortes ocorre nos países em desenvolvimento, especialmente a China. As minas de carvão da China são as mais mortais e perigosas do mundo, matando uma média de 13 trabalhadores por dia. O país também responde por 80% das mortes em minas de carvão do mundo, embora produza 35% do carvão extraído no nível global.

Se uma mineradora mexe com uma quantidade enorme de terra para fazer escavações e armazena resíduos em barragens, tem que levar em conta o risco de um acidente dessas proporções.

Entretanto, o fato de ser uma indústria de alto risco, assim como petróleo, indústria química e outras, não significa ter esquemas frágeis de gerenciamento de risco para acidentes graves. As multinacionais, como é o caso da Vale e da Samarco, certamente conhecem todos os riscos do negócio e devem ter uma área de prevenção, compliance, gerenciamento de risco e gabinetes de crise preparados para eventos dessa natureza. Moradores reclamam da demora em informações tanto no dia da ocorrência do rompimento, quanto no dia seguinte.

Segundo a jornalista Miriam Leitão, “As mineradoras tinham que se preparar para eventos como esse. A Vale, que controla a Samarco junto com a australiana BHP, reagiu como se a tragédia em Mariana fosse um fato inesperado. A empresa não demonstrou, até o momento, ter uma rotina de combate a desastres, um gabinete de crise. Isso é inconcebível. A Vale precisa fazer mais do que lançar uma nota.”

Ainda de acordo com a jornalista, “O desastre em Mariana é assustador, uma tragédia ambiental. Após o rompimento da barragem, a lama de detritos industriais da mineração se espalhou por distritos do município. Em alguns pontos, o "tsunami" chegou a três metros. Os socorristas não podem se aproximar porque há o risco de afundarem na lama. A atividade de mineração traz grande risco ambiental. Não faz sentido uma mineradora não saber como reagir ao rompimento de uma barragem de detritos da sua própria operação.” Ouça o comentário da jornalista sobre o rompimento da barragem da Samarco, na CBN.

Alarme por telefone

Em entrevista nesta sexta-feira (6), o diretor-presidente da empresa reconheceu que não houve sinal sonoro de alerta para os moradores dos distritos de Bento Rodrigues e de Paracatu antes do rompimento dos reservatórios, na quinta, em Mariana. Os moradores dos dois subdistritos foram avisados da iminência do desastre por telefone, assim que a empresa percebeu algo de anormal.

Ele explicou que ainda existem pessoas ilhadas nos subdistritos atingidos pelo mar de lama e que ainda não foram resgatadas. "Ainda existem pessoas ilhadas, a espera de socorro. Há pessoas nas matas e em locais mais altos", afirmou. O diretor presidente disse também não ser possível estimar a extensão da tragédia. "Estamos fazendo os levantamentos necessários. Mas a prioridade agora é resgatar as vítimas e ampará-las".

O executivo da Samarco confirmou ainda que será responsável pelo pagamento da hospedagem dos desabrigados em hotéis de Mariana e de municípios da região: 70 famílias já foram abrigadas em hotéis  na sexta-feira.

"É a pior crise em 40 anos de existência da Samarco. Interrompemos a produção na mina de Germano, que vai atingir a produção de Ubu (ES), por onde é escoada a produção de pelotas de minério de ferro que produzimos. Entramos em contato com nossos clientes que estão solidários com a situação que estamos vivendo", afirmou o executivo. Cerca de 98% da produção de pelotas da Samarco são exportadas.

Laudo alertou risco em 2013

Um laudo técnico elaborado a pedido do MP (Ministério Público) de Minas Gerais alertou, em 2013, sobre os riscos de rompimento da barragem do Fundão, da mineradora Samarco. Esse laudo também fazia alertas sobre “a proximidade perigosa entre a barragem do Fundão, para onde a Samarco destina o material descartado durante a mineração --como água, terra e restos de minério--, e o local onde a Mina de Fábrica Nova da Vale coloca rochas sem minério, chamado de pilha de estéril União”, segundo informações do portal Uol.

Por meio de nota, a empresa afirmou que fiscalização feita em julho deste ano "indicou que as barragens encontravam-se em totais condições de segurança". "A Samarco também realiza inspeções próprias, conforme Lei Federal de Segurança de Barragens, e conta com equipe de operação em turno de 24 horas para manutenção e identificação, de forma imediata, de qualquer anormalidade", diz o documento.

O Sistema (Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Minas Gerais) comunicou nesta sexta-feira (6) que a barragem do Fundão estava regular e foi inspecionada por um auditor especialista em segurança de barragens.

"De acordo com o programa de auditoria de segurança de barragem da Fundação Estadual de Meio Ambiente, a barragem do Fundão estava com estabilidade garantida pelo auditor.

Prevenção e pessoas primeiro

Samarco mapa do localComo manda o bom manual de crises, proteger as pessoas afetadas é certamente o ponto-chave da resposta nesse momento e a primeira e urgente providência. Buscar eventuais sobreviventes, cuidar dos feridos e desabrigados e resgatar eventuais vítimas fatais. Toda a assistência necessária, urgente e imprescindível aos desabrigados, que perderam tudo.

Depois, mas na mesma velocidade, esclarecer possível contaminação do meio ambiente. A empresa se apressou em dizer, em nota, hoje pela manhã que “O rejeito é inerte. Ele é composto, em sua maior parte, por sílica (areia) proveniente do beneficiamento do minério de ferro e não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde.” Essa explicação lacônica e burocrática, para os leigos, pode dar uma primeira sensação de tranquilidade, mas é preciso ficar definitivamente demonstrado que não há risco às pessoas e ao meio ambiente. Algo difícil de convencer, nesse momento. Até porque a maré de lodo que tomou conta do rio Doce, que abastece pelo menos 15 cidades no percurso até o mar, assusta os consumidores. Você beberia água com tranquilidade, contaminada por esses resíduos, apesar das explicações da mineradora?

A empresa deve ter um gabinete de crise instalado, que gerencie as operações de resgate e de saneamento da área, conectado com o governo do estado, prefeitura, defesa civil, bombeiros, secretarias de meio ambiente, Ministério Público e demais órgãos intervenientes. Pelas dimensões do rompimento, representa um enorme prejuízo para a empresa, não apenas financeiro, mas um grande desgaste reputacional, não importam as causas do acidente. E nem mesmo o fato de que possam ser causas naturais. Na sexta-feira (6), as ações da Vale tiveram desvalorização de 6% na Bovespa.

Especulou-se também a ocorrência de alguns abalos sísmicos de baixa intensidade, na região de Mariana, detectado pelo laboratório da Universidade de Brasília, com grau 2,7 na escala Richter. Não há ainda nenhuma comprovação de que esse fenômeno meteorológico tenha contribuído para o rompimento. O MP de MG descartou que um abalo sísmico tenha contribuído para o rompimento. Trabalha com a hipótese de descumprimento de normas técnicas e ambientais. Mas tudo isso ainda é prematuro.

A Samarco está nesse momento no período de contenção da crise. Mesmo que a empresa afetada pelo incidente tenha poucas alternativas agora para reduzir o impacto da tragédia, dependendo de como ela agir em relação aos atingidos - empregados, moradores, meio ambiente - ela poderá pelo menos mitigar os efeitos dessa crise. Mas não há como evitar o passivo de imagem que um fato dessa natureza irá produzir.

Chile e África

As mineradoras são assíduas no noticiário de crises. Em 2010, o caso mais emblemático foi o dos 33 mineiros chilenos, soterrados na mina San José, em Copiapó, nas montanhas do país. Durante mais de 2 meses foi montado um esquema para resgatá-los, com ampla cobertura da mídia internacional. Esse soterramento decorreu de uma crise grave de segurança nas minas do país, que não eram fiscalizadas e colocavam a vida dos mineiros em risco permanente. Mais de 20 minas foram fechadas, após esse acidente. O sucesso no resgate não minimizou a crise que essa indústria enfrentou no Chile.

Em 2012, houve outro caso com ampla repercussão na mina de Marikana, na África do Sul. Operada pela britânica Lonmin, os mineiros se revoltaram e começaram uma greve reivindicando melhores salários e condições de trabalho. A greve se transformou numa disputa entre trabalhadores e policiais que queriam desbloquear a mina. Em quatro dias, houve dez mortes, incluindo dois policiais. No sétimo dia, o conflito tomou proporções de tragédia, quando a polícia atacou os trabalhadores e 34 morreram. Marikana foi um desastre de gestão de crise e tornou-se o conflito mais grave em número de mortes na África, desde o “apartheid”.

Comunicado da empresa Samarco publicado no site sexta-feira (6) pela manhã.

Rompimento das barragens Samarco Mineração

A Samarco informa que colocou em ação, juntamente com Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e outras instituições competentes, todas as ações previstas no seu Plano de Ação Emergencial de Barragens – validado pelos órgãos competentes, em função do rompimento das barragens de Fundão e Santarém, localizadas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), ocorrido na tarde dessa quinta-feira, 5 de novembro. A mineradora está mobilizando todos os esforços necessários para priorizar o atendimento e a integridade das pessoas que estavam trabalhando no local ou que residem próximas às Barragens, além das ações para conter os danos ambientais. As operações da Samarco na unidade de Germano estão paralisadas.  

Até o momento, não é possível confirmar número de vítimas e desaparecidos. Todas as pessoas resgatadas com ferimentos estão sendo encaminhadas para pronto atendimento no hospital do município de Mariana e demais municípios próximos e, os desabrigados, para um ginásio de Mariana onde equipes prestam auxílio a todos. Neste momento, não há confirmação das causas e a completa extensão do ocorrido. Investigações e estudos apontarão as reais causas do ocorrido.  

As barragens da Samarco são compostas por quatro estruturas: barragens de Germano, Fundão, Santarém e Cava de Germano. Todas possuem Licenças de Operação concedidas pela Superintendência Regional de Regularização Ambiental (SUPRAM) – órgão que, nos recorrentes processos de fiscalização, atesta o comportamento e a integridade das estruturas. A última fiscalização ocorreu em julho de 2015 e indicou que as barragens encontravam-se em totais condições de segurança. A Samarco também realiza inspeções próprias, conforme Lei Federal de Segurança de Barragens, e conta com equipe de operação em turno de 24 horas para manutenção e identificação, de forma imediata, de qualquer anormalidade.

Informações sobre a composição do rejeito de minério de ferro:

O rejeito é inerte. Ele é composto, em sua maior parte, por sílica (areia) proveniente do beneficiamento do minério de ferro e não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde.  

Devido ao grande número de acessos, nosso site apresentou instabilidade e problemas técnicos. Estamos trabalhando para corrigir o problema o mais rápido possível.

Enquanto isso, acompanhe os pronunciamentos da empresa em nossa página oficial no Facebook, onde está disponível o comunicado feito pelo diretor-presidente, Ricardo Vescovi.

A empresa criou um espaço no site para atualizar informações sobre a crise.

Foto: Luis Eduardo Franco/TV Globo

Obs. O número de vítimas fatais e desaparecidos foi atualizado no dia 7/11/15.

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