petrobras - plataformaQue as crises são ameaças às empresas, aos governos, à reputação pessoal, todos sabemos. Mas as crises não necessariamente precisam destruir uma organização ou corroer o que resta de credibilidade numa marca. Quando ocorrem, até mesmo aquelas que poderiam surgir por acontecimentos inesperados, se bem administradas, podem acabar fortalecendo a organização.

Não é o que está acontecendo na Petrobras. O amadorismo dos últimos dias na condução dessa crise deixa o mercado atordoado. A ponto de concordarmos com a máxima de que aquilo que estava ruim, pode sempre ficar pior. Ou, como diz o colunista Ezra Klein, do Washington Post: “Pode dar errado? Vai dar”. E a crise da Petrobras nem pode se enquadrar naquilo que o investidor Nassim Taleb chamou de "cisnes negros": crises imprevisíveis. Ela está mais para os "cisnes brancos", cunhado pelo economista Nouriel Roubini, crises que podemos prever e até evitar. 

A decisão de afastar a diretoria da Petrobras era cobrada pelo mercado, pelos órgãos fiscalizadores, inclusive pelo Procurador Geral da República, pela oposição, por todos os brasileiros. Mas, seguindo o estilo “não faço nada sob pressão" de Dilma Roussef, a empresa, a presidente Graça Foster e a diretoria ficaram sangrando durante quase um ano, sem que fosse dado um sinal efetivo para o mercado de que o governo estava disposto a sanear a empresa, acabar com a interferência política e dar um ponto final na crise.

O mal causado à estatal por essas indecisões é incalculável. E, não bastasse isso, não se vê sequer um carro de som de sindicatos da categoria assumir a defesa da empresa, eles, tão acostumados a ir para a frente do prédio da Petrobras fazer barulho para reivindicar aumentos, decretar greves e protestar. Quando a Petrobras mais precisa de quem a defenda, silêncio total. Como se eles sentissem vergonha do que está acontecendo por obra e graça de companheiros, indicados por partidos políticos, que levaram a maior empresa brasileira a afundar na crise.

Pode ficar pior

Além do descontrole, dos desmandos e anos de corrupção na empresa, sem que as falcatruas fossem descobertas pelas auditorias ou órgãos de compliance, o governo tem sido lento e incompetente para resolver essa crise e sinalizar ao mercado a disposição de tratar seriamente os problemas graves da empresa. Ou não é essa a disposição?

Será que Dilma e companhia estão reféns de algum grupo que se apossou da Petrobras, quando lá em 2002, o quinhão de uma das joias da coroa do governo foi rateado pelo presidente Lula, ao distribuir diretorias com gordos orçamentos entre três partidos políticos? Todos denunciados agora como beneficiários dos atos de corrupção? E por isso a presidente não consegue sair do atoleiro?

Ou seria de fato falta de experiência e conhecimento de gestão de crises? Ou pruridos políticos para não ferir aliados? Não dá para entender o amadorismo com que essa crise está sendo conduzida, desde abril do ano passado. Quando se pensa que virá um ato sensato, mergulhamos de novo naquilo que a historiadora Barbara Tuchman chamou num magistral livro de história, de "a marcha da insensatez".

Não bastasse a indecisão do governo, do ex-ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, que deixou o ministério no fim de 2014, alheio à crise e fazendo de conta que nada acontecia; não bastasse uma intempestiva nota do Palácio do Planalto, ano passado, quando a operação Lava Jato foi desencadeada, com a versão de que a presidente Dilma fora enganada pelos diretores da Petrobras, quando pertencia ao Conselho de Administração, ao aprovar a compra da malfadada usina de Pasadena, nos Estados Unidos, não bastasse tudo isso, ontem o governo conseguiu piorar a crise.

Sinalizaram ao mercado que a diretoria da Petrobras iria sair, fazendo as ações da empresa na Bolsa aumentarem 15,4%, a ponto de levar a CVM questionar a companhia sobre a notícia. Hoje o mercado é surpreendido pelo pedido de demissão da presidente Graça Foster e mais cinco diretores. Tudo isso acontece no auge da crise e sem ter uma diretoria nova já indicada. Ou seja, o transatlântico está no meio da tempestade e a tripulação é afastada, sem indicar quem vai comandar a nave na travessia. Do ponto de vista da gestão da crise, um erro crasso.

Ontem, ao deixar vazar que a diretoria seria afastada, embora não oficialmente, a presidente Dilma deu um recado ao mercado que Graça e cia perderam o comando da empresa, nao mandavam mais nada. Naturalmente, quando alguém anuncia que o presidente ou a diretoria de uma empresa estatal será demitida, a partir desse momento os executivos não têm a mínima credibilidade para negociar absolutamente nada, nem mesmo com os empregados. Talvez por isso, a diretoria da Petrobras não tenha aceitado fazer o papel de fantoche, como Guido Mantega ficou fazendo no ministério da Fazenda, ano passado. Acabaram saindo sem esperar, como anunciado ontem, o fim do mês.

É dentro desse quadro que se encontra hoje a crise da Petrobras. No momento em que a instituição atravessa a mais séria crise de sua história, não há uma diretoria indicada. Há um vácuo de poder na estatal. Não se sabe os rumos da empresa; o barco está à deriva. Até porque haverá dificuldade para achar um nome forte para conduzi-la no meio desta crise. Esse executivo estaria disposto a assumir o cargo de presidente nesse cenário totalmente incerto e com um passivo que até agora a organização não conseguiu calcular?

Além disso, como explicar ao mercado que quem vai escolher essa diretoria é praticamente o mesmo Conselho de Administração acusado de omisso em saber o que estava acontecendo na empresa e, mais, presidido pelo ex-ministro Guido Mantega, sem credibilidade no mercado para fazer qualquer indicação.

A Petrobras precisa urgentemente recuperar a credibilidade, dar informações confiáveis ao mercado, ou seja, ser mais transparente, e publicar o balanço com um mínimo de certeza, contabilizando as perdas com a corrupção. Não adianta a presidente da República ficar irritada com os cálculos feitos por auditorias independentes sobre o rombo na empresa. Não é hora para amuos contábeis. É hora de sinalizar ao país o que o governo fará efetivamente para recuperar a reputação da Petrobras. O mercado quer números, quer saber o que a empresa perdeu; qual o programa de saneamento; qual o futuro da empresa.

Até o sonho do Pré-Sal, que jorrou mais marketing do que petróleo, está ameaçado diante da dificuldade da empresa de obter recursos para investimentos. E os acionistas minoritários, a parte mais fraca nesse elo, gostariam de ter respostas dos governantes para saber se os descalabros da Petrobras irão acabar e se podem continuar confiando na empresa.

Não há muito luz no fim do túnel. Acabamos de saber que Renan Calheiros, agora chamado de “fiador da governabilidade”, quer de volta à Transpetro o amigo, indicado por ele, Sérgio Machado, que estava na empresa desde 2003. Deve ser o mais longevo indicado nesse governo.

Ele foi afastado no ano passado, saindo numa oportuna “licença”, ao ter seu nome apontado pelo ex-diretor Paulo Costa, no esquema de corrupção da estatal. Estivéssemos num país sério, ele já teria sido demitido, menos pelo envolvimento, que ele nega. Mais para dar um sinal ao mercado, aos investidores internacionais de que os quadros da empresa doravante serão escolhidos por mérito, pela competência técnica. E não porque o político indicou.

Se continuar assim, talvez seja hora de você vender as ações da Petrobras, aproveitando o momento da valorização artificial desta semana. Se a gestão futura não tiver autonomia para fazer o que deve ser feito na empresa, na linha de como a crise atual está sendo conduzida, a Petrobras ainda vai continuar sangrando. E ninguém será capaz de prever o seu futuro.

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