coreia do sul estudantesComandante fez como Schettino, na Itália, abandonou o navio.

A mídia, por enquanto, dá pouco destaque à tragédia que ocorreu na manhã de terça-feira (8h55 hora local, 20h55 no Brasil) na Coreia do Sul. Mas, sob todos os aspectos, o naufrágio de um navio de médio porte, transportando 475 pessoas, a maioria estudantes de uma escola coreana, tem componentes mais trágicos do que o acidente com o navio de cruzeiro Costa Concordia, em janeiro de 2012, no litoral da Itália.

O navio, com capacidade para 900 pessoas, saiu do porto de Incheon, no noroeste do país, para um resort na Ilha de Jejun, onde os estudantes iriam passar os feriados. As causas do acidente são investigadas, mas suspeita-se de desvio da rota, com choque em algum obstáculo, exatamente como aconteceu no caso do Costa Concordia.   

Até quinta-feira (17), havia 25 mortes confirmadas entre estudantes, uma tripulante e um  professor, além de dezenas de feridos. Oficialmente, 179 pessoas foram resgatadas, embora as informações sejam contraditórias. Sobressai nessa crise grave, mais uma vez, o despreparo de autoridades e tripulação na hora das tragédias envolvendo vidas, principalmente de crianças e adolescentes, como neste caso.

Os serviços de emergência calculam que 271 pessoas estão desaparecidas, a maioria estudantes entre 16 e 17 anos, embora também haja crianças de menos de dez anos. Uma menina de seis anos foi resgatada. As tentativas de resgate dos desaparecidos, desde o início do naufrágio, são dramáticas, pelas condições do tempo e do vento no local. 500 mergulhadores oficiais e voluntários estão tentando encontrar sobreviventes no navio, que afundou rapidamente, após um possível choque com algum obstáculoo no fundo do mar.  Entre o início do naufrágio e o afundamento decorreram duas horas.

“Tirem meu filho do navio, vivo ou morto”, clamava um pai desesperado, num ginásio próximo ao local do naufrágio, onde estão os parentes dos jovens. Muitos parentes tiveram que ser contidos para não se atirar na água, na desesperada busca pelas crianças.

Por trás das crises, erros graves

tragedia na CoreiaNaufrágios com centenas de mortes são comuns em países atrasados tecnologicamente e relapsos na fiscalização. Não é o caso da Coreia do Sul. As primeiras informações dão conta de que novamente vários erros e despreparo da tripulação evidenciam a falta de prevenção para evitar tragédias semelhantes.

Até mesmo o papel do capitão, que prestou depoimento à polícia, está sendo questionado pelos parentes das vítimas. Ele teria abandonado o navio, como fez o folclórico comandante Francesco Schettino, no navio Costa Concordia, em 2012. As autoridades mudaram o número de vítimas e desaparecidos várias vezes, num desencontro de informações que irritaram e angustiam pais e parentes desesperados.

A maioria dos sobreviventes se salvou porque se atirou na água com coletes salva-vidas, nadando e conseguindo ser resgatados por barcos. Mas muitos deles disseram que a tripulação os recomendou a não sair do navio. “Nós ficamos esperando 30 a 40 minutos depois que a tripulação disse para não nos mover”, disse um sobrevivente. “Então, o navio se inclinou e começaram gritos e um empurra-empurra”, concluiu. O pânico, certamente, contribuiu para muitas crianças não conseguirem sair. Também não se tem registro de barcos salva-vidas. Fala-se que apenas dois botes foram lançados na hora do naufrágio.

Koo Bon-hee, 36, disse à agência de notícias Associated Press que o resgate “não foi correto”. “Se as pessoas tivessem se atirado na água… elas poderiam ter sido resgatadas. Mas nos disseram que não era para sair”. Os estudantes que teriam ficado presos ao casco estariam dentro das cabines ou nos corredores. Com a rápida inclinação do navio e a escuridão, não conseguiram achar o local de saída, especula-se.

"Pai, não se preocupe. Eu estou com um salva-vidas e estou com outras garotas. Nós estamos dentro do navio, no corredor”, disse uma jovem num SMS para seu pai, segundo a AFP. Mas numa mensagem seguinte, ela disse que não estava conseguindo sair. “O navio está muito inclinado. O corredor está cheio de muitas pessoas”. Não houve mais mensagens.

As equipes de salvamento dizem que apesar de ter mergulhado várias vezes, inclusive durante a noite, as fortes correntes marítimas no local e a escuridão representam obstáculo tremendo ao resgate.

Tripulação e comandante despreparados

Talvez seja ainda cedo para uma análise mais profunda e cautelosa do acidente. Mas parentes das vítimas manifestaram hoje indignação contra o governo que acusam de gerir mal o desastre e prestar informações erradas. Eles criticaram o primeiro-ministro da Coreia do Sul, Chung Hong-won, quando ele chegou à localidade de Jindo, na costa Sudoeste do país, para se reunir com os familiares.

Os parentes manifestaram desagrado pela lentidão dos trabalhos de resgate depois de o navio ter demorado cerca de duas horas para afundar e por apenas terem sido resgatadas 179 das 475 pessoas que estavam a bordo. Outro ponto contestado foi a constante alteração do número de passageiros do navio e das vítimas resgatadas.

A maioria dos parentes no local é de pais dos 325 estudantes que faziam viagem de férias e seguiam a bordo do “Sewol”. Os sobreviventes do desastre criticaram o que poderá constituir uma grave negligência da tripulação, que pediu aos passageiros para permanecerem nos seus lugares, alegando que qualquer tentativa de fuga poderia colocar em risco a segurança de todos.

Os relatos dão conta de um grande estrondo antes de o navio começar a afundar. “O barco inclinava-se cada vez mais, mas eram dadas ordens para ficarmos no nosso lugar”, disse um sobrevivente de 17 anos que acrescentou que “tudo teria sido diferente se as pessoas pudessem ter saído mais depressa do barco”. Outros relatos criticam o comandante do navio que foi uma das primeiras pessoas a abandonálo, quando afundava. Ele está sob guarda da polícia local.

Atualização do artigo 18/04/14

Autoridades da Coreia do Sul determinaram hoje a prisão do capitão e de mais dois membros da tripulação do Ferry Boat que naufragou próximo à Ilha de Jeju. Foi apurado que um oficial júnior estaria no comando do Ferry, e não o capitão, na hora do naufrágio. Até esta sexta-feira, 28 pessoas já foram confirmadas como vítimas fatais e 268 permanecem desaparecidas. Dois guardas marinhos tentaram entrar no navio nesta sexta, mas não puderam identificar ou resgatar ninguém, pelo fato de o caminho para o compartimento do navio estar obstruído. Além disso, ele teria sido dos primeiros a abandonar o navio, repetindo o fez o capitão Francesco Schettino, do navio de cruzeiro Costa Concordia, em janeiro de 2012, na Itália.

O vice-diretor da escola Danwon High School, à qual pertenciam os alunos vítimas do naufrágio, que foi resgatado com vida do Ferry Boat, foi encontrado morto perto na Ilha, na sexta-feira. Kang Min-kyu, 52, estava sumido desde terça-feira e foi descoberto pendurado em uma árvore perto do ginásio, onde se encontra a maioria dos parentes dos alunos, tudo indicando que ele tenha se suicidado.

É impressionante e inacreditável que em pleno século XXI, quando o homem já chegou à Lua, manda naves espaciais à Estação Espacial Internacional, como se fossem ônibus, não consiga entrar num pequeno navio que está no máximo a 30 metros de profundidade. Como explicar aos pais e parentes dos jovens, que estão presos no navio, que não fossem a incompetência, lentidão, despreparo e falta de tecnologia, seus filhos poderiam ter-se salvado?

Fonte:BBC News

Foto: estudantes do Colégio Danwon escreveram mensgens pela volta dos colegas desaparecidos.

Outras informações sobre o acidente

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