vaticanoA Igreja Católica vive várias crises. O dilema de se modernizar e acompanhar os avanços dos últimos anos, tanto nos costumes, quanto na tecnologia. A concorrência acirrada de outras religiões e apelos que reduzem o rebanho de católicos. As denúncias graves, dos últimos anos, com acusações de pedofilia. E o drama da autoridade papal, centrada numa figura que hoje não encontra paralelo na hierarquia de quase nenhum poder.

A Igreja Católica ainda administra o rescaldo das acusações de pedofilia que atingiram várias dioceses desde os anos 2000. A mais grave crise nesse particular estourou no início de 2010, quando religiosos e padres foram denunciados por abusos cometidos a ex-alunos na Irlanda, Estados Unidos, Alemanha, Áustria, Austrália, Espanha, Suíça e outros países, inclusive no Brasil. De início reticente, a hierarquia católica, liderada pelo próprio Papa Bento XVI, teve que fazer um mea culpa, assumindo inclusive o pagamento de ações milionárias na Justiça de vários países.

Mas a crise dos católicos não fica apenas nisso. Enfrenta o dilema da perda de fiéis para outras igrejas e cultos; o desencanto daqueles que se afastam da Igreja Católica, por não terem mais apelo, por discordarem dos caminhos tradicionais da Instituição e até pela não evolução de uma cultura milenar, nos últimos anos.

No Brasil, o Censo de 2010, pela primeira vez, registrou uma queda no número de católicos. Em todo o país, os católicos passaram de 73,6% da população em 2000, para 64,6% em 2010 - queda de 9%. Nos anos 60, eram mais de 94%. Ainda são maioria.

Por tudo isso, julgamos muito oportuno o artigo “A batalha final do Papa Bento XVI”, publicado na revista Der Spiegel, edição 24/2012, de 11/06/2012. O artigo foi escrito por Fiona Ehlers, Alexandre Smoltczyk e Peter Wensierski. A primeira versão foi publicada em alemão, e traduzida para o inglês, no site da revista.

O denso artigo é um mergulho nos bastidores do papado de Bento XVI. Podemos até não concordar com muitas afirmações constantes na publicação, mas essa é uma constatação de um grupo de três jornalistas que, de uma forma ou outra, tiveram acesso privilegiado ao Vaticano e a fontes ligadas ao Pontífice. É um retrato da luta pelo poder na Igreja, mas ao mesmo tempo traz à tona o perfil de um Papa que, apesar da idade e da sisudez, talvez tivesse desejado ficar onde sempre esteve: nos bastidores, nos seus estudos e escritos teológicos.

Tanto para católicos, como não-católicos, vale a pena ler, para entender melhor o que está acontecendo hoje nos corredores do Vaticano, principalmente quanto às perspectivas da sucessão do idoso Papa Bento XVI.

O artigo que você vai ler apareceu originalmente em alemão, na edição 24/2012, 11/06/2012, da revista DER SPIEGEL. 

A versão em inglês está reproduzida logo após a edição em português.

A Batalha Final do Papa Bento XVI

Por Fiona Ehlers, Alexander Smoltczyk and Peter Wensierski 

O clima no Vaticano é apocalíptico. O Papa Bento XVI parece cansado, e mais incapaz e sem vontade de tomar as rédeas em meio a lutas ferozes e a um escândalo. Enquanto os controladores do Vaticano brigam por poder e especulam sobre seu sucessor, Joseph Ratzinger retirou-se para se concentrar em seu ainda ambíguo legado. 

Finalmente, há clareza. A Santa Sé esclareceu as coisas e fez o documento acessível a todos: um folheto para checar se aparições da Virgem Maria são autênticas. Tudo será muito mais fácil a partir de agora. A Igreja Católica Romana deu um passo à frente.

Estas "notícias quentes" da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) revelam o tipo de questões com que o Vaticano se preocupa - e o tipo de mundo em que alguns lá vivem. É um mundo em que a investigação oficial da Igreja sobre aparições da Virgem Maria é cuidadosamente regulada, enquanto os cardeais na Cúria Romana, o aparato judicial e administrativo do Vaticano exercem o poder com absolutamente nenhum controle e a correspondência privada do papa aparece nas gavetas de um mordomo.

É uma aparição completamente diferente da Virgem Maria que tem jogado o Vaticano e a Igreja Católica em uma nova crise, cujo fim e impacto só podem ser resumidos: o aparecimento de uma fonte no coração da Igreja, uma conspiração contra o Papa e um vazamento com o nome-código "Maria".

Desde o fim de maio, o ex-mordomo do Papa, Paolo Gabriele, foi detido em uma cela de 35 metros quadrados no Vaticano, com uma janela, mas nenhuma TV. Usando o nome-código "Maria", ele supostamente contrabandeou faxes e cartas dos aposentos privados do Papa. Mas ainda não está claro quem lhe deu a ordem para fazer isso.

Mesmo com a prisão de Gabriele, o vazamento ainda não foi desvendado. Mais documentos foram liberados ao público semana passada, documentos destinados principalmente para prejudicar dois colaboradores mais próximos do Papa Bento XVI: o seu secretário particular, Georg Gänswein, e o Cardeal Secretário de Estado Tarcisio Bertone, administrador do Vaticano. De acordo com um documento, "centenas" de outros documentos secretos seriam publicados se Gänswein e Bertone não forem "expulsos do Vaticano." "Isso é chantagem", diz o especialista em Vaticano Marco Politi. "É como ameaçar guerra total".

Uma casa em desordem

O medo está correndo solto na Cúria Romana, aonde os ânimos raramente estiveram tão miseráveis. É como se alguém tivesse cutucado uma colmeia com uma vara. Homens vestidos de púrpura estão correndo ao redor, freneticamente monitorando a correspondência. Ninguém confia em mais ninguém, e alguns até mesmo hesitam em se comunicar por telefone.

Tudo começou no amaldiçoado sétimo ano do pontificado de Bento XVI, com paralelos surpreendentes com a última parte do papado de João Paulo II. As mesmas queixas sobre uma liderança pobre e divisões internas estão sendo exibidas fora dos muros do Vaticano, enquanto o próprio Papa parece esgotado e já um tanto enfraquecido para exercer seu poder.

Joseph Ratzinger completou 85 anos em abril. Isso faz dele o mais antigo Papa em 109 anos, e um dos poucos Papas que exerceram o que o próprio Bento XVI tem chamado deste “enorme” encargo para uma idade tão avançada.

Claro, ele ainda está invejavelmente em forma, tanto mentalmente quanto fisicamente, especialmente em comparação com seu antecessor em seus últimos anos. Mas falar hoje tornou-se inequivocamente mais difícil para Bento XVI do que no início de seu papado, e é difícil deixar de perceber que seus movimentos tenham se tornado rígidos e cautelosos.

Ele recentemente disse a um visitante que seu velho piano dificilmente tem sido usado. Tocá-lo requer prática, acrescentou, mas ele não tem nenhum tempo para isso. Ele prefere continuar a trabalhar na última parte de sua série sobre Jesus, que ele quer terminar antes de morrer.

Um barco sem capitão

Nestes dias, não é difícil encontrar clérigos no Vaticano que estão dispostos a falar, desde que suas identidades permaneçam anônimas.

O monsenhor que caminha à noite para um restaurante perto da Piazza Santa Maria, no Bairro Trastevere de Roma, trabalhou com Ratzinger na CDF,  por anos. Mas mesmo antes de o garçom chegar com a água e o vinho, o monsenhor oferece seu veredicto sobre o papado de Ratzinger: "O papa não exerce plenamente a sua função!" Na sua opinião, em vez de ter as coisas sob controle, eles o controlam.

O papa não está interessado nos assuntos diários do Vaticano, diz o anônimo monsenhor. Ainda assim, este não é exatamente um fato inédito, já que seu antecessor também negligenciou a Cúria. Enquanto o papa polonês passou muito tempo viajando, o seu sucessor alemão é aparentemente mais feliz enquanto se debruça sobre livros e escreve discursos. "Ele simplesmente não assume os problemas com suas próprias mãos", diz o monsenhor. Em essência, ele acrescenta, o Papa enfrenta um poder diferente em Roma – desde que ele não tenha de assumir o comando.

Embora o Vaticano seja Católico, é também dois terços italiano. No final, diz o monsenhor, os funcionários do Vaticano e da administração não se importam quem, entre suas fileiras, irá conduzir a Igreja. Mesmo para alguém que vive lá há décadas, o monsenhor diz, "o Vaticano é um novelo de lã quase impossível de desembaraçar - nem mesmo por um Papa."

Quando João Paulo II morreu em abril de 2005, a Cúria estava em péssimo estado. Eventos e decisões pessoais tinham sido adiados durante seus últimos anos, quando ele esteve muitas vezes doente. O novo papa era esperado para finalmente limpar as gavetas e dar à Cúria um novo começo.

Mas, na maior parte, essas reformas não se concretizaram. Os sacerdotes ainda mantêm todas as posições-chave, incluindo aquelas no Conselho para os Leigos e o Conselho para a Família. A única mulher em um cargo superior, a britânica Lesley-Anne Knight, foi expulsa do cargo de secretária-geral da agência de desenvolvimento católica Caritas Internationalis, em 2011, por ter se oposto abertamente à hierarquia da Igreja dominada por homens.

Fraturada e feroz

A "reforma da Cúria" é provavelmente uma contradição em termos. Seu modelo organizacional hierárquico, essencialmente medieval, é incompatível com uma gestão moderna. O Vaticano é um sistema anacrônico, embora surpreendentemente determinado, em que prevalecem os comandos e uma propensão absurda para o sigilo e a intriga. "A única coisa importante é a proximidade com o monarca", diz um membro do staff de um cardeal. Roma funciona como um tribunal absolutista, no qual as decisões são tomadas por pessoas sussurrando coisas nos ouvidos das outras e não por comitês. "Há muitas pessoas vaidosas aqui, pessoas em acirrada competição com os outros", acrescenta o funcionário.

Quem falou com quem e por quanto tempo? Sobre o que eles falam? Quem assiste à Missa cedo e com quem, e quem convida quem para jantar? Quem está “in” e quem está “out”? Quem pertence e quem não, e quem está caindo nas graças do poder e quem está caindo fora dele? "Este humor fomenta sentimentos de exclusão, discriminação, inveja, vingança e ressentimento", diz o monsenhor. E todas as coisas já apareceram nos documentos chamados Vatileaks.

O secretário do Papa, Gänswein, em particular, fez muitos inimigos. Como guardião do Papa, ele tem influência sobre a quem é concedido ou negado um favor do pontífice, bem como sobre eventos e assuntos que podem merecer sua atenção. Este poder pode provocar ciúme, medo e desprezo nos corredores do Palácio Apostólico, residência oficial do Papa. Para Gänswein, pareceu quase um milagre o Papa ser capaz de passar uma noite inteira relaxando e conversando com os clérigos alemães na embaixada do Vaticano, em Berlim, em setembro passado. Foi uma experiência que ele não poderia ter tido em Roma.

O Vaticano está se desintegrando em dezenas de grupos de interesse concorrentes. No passado, foram os jesuítas, os beneditinos, os franciscanos e outras ordens que competiam por respeito e influência na Corte do Vaticano. Mas sua influência diminuiu, e eles têm sido substituídos, agora, principalmente pelas chamadas "novas comunidades clericais" que trazem as grandes e animadas multidões, para missas celebradas pelo Papa: o Neocatecumenismo, os Legionários de Cristo e os tradicionalistas da Sociedade São Pio X (SSPX) e a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro - para não mencionar a globalizada "máfia santa" da Opus Dei.

Todos eles têm todos seus agentes abertos e clandestinos em torno do Vaticano, e todos eles possuem bens imóveis e dirigem universidades, institutos e outros estabelecimentos de ensino, em Roma. Vários cardeais e bispos defendem os seus interesses no Vaticano, muitas vezes sem um mandato oficial ou reconhecido. No Vaticano, todos estão contra todos, e todos sentem que têm Deus ao seu lado.

Talvez Bento XVI simplesmente conheça tão bem o Vaticano para seriamente tentar reformá-lo. "Como Papa, este veterano insider da Cúria acabou por ter interesse praticamente zero em realmente conduzir a Cúria Romana", escreve John L. Allen, um biógrafo do Papa.

Parte 2: Os perdedores na Batalha da Reforma

O escândalo atual desdobrou-se contra este pano de fundo. As revelações sobre os documentos secretos do Vaticano - apelidada de "Vatileaks", por ninguém menos que o porta-voz papal Padre Federico Lombardi - surgiram pela primeira vez há mais de quatro meses. Eles sugerem um Vaticano atolado em campanhas de corrupção de assassinato moral, uma trama que parece não se limitar ao alegado ato de roubo de um mordomo.

A figura central é o arcebispo Carlo Maria Viganò, a quem o Papa instruiu, em julho de 2009, para limpar a administração do Vaticano. O superzeloso advogado impôs cortes em várias áreas, incluindo os contratos de construção, setor imobiliário e gestão de Jardins do Vaticano. Em uma carta a Bertone, ele escreveu que tinha transformado um déficit no orçamento do Vaticano de 7,8 milhões de Euros (€) (US$ 9,8 milhões) em um superávit de 34,5 milhões de Euros (€) (US$ 43,3 milhões) em um ano, pondo fim à rede dos velhos amigos que "sempre fechavam contratos com as mesmas empresas "- pelo dobro dos preços pagos habitualmente, fora do Vaticano. Viganò tornou-se impopular pela sua luta contra o desperdício e abuso de poder.

Ele foi despachado de seu cargo, após somente 27 meses e, desde outubro, ele é embaixador do Vaticano nos Estados Unidos, em Washington, longe do Vaticano. Ele entendeu sua transferência como uma punição. Em uma carta de protesto ao Papa, ele pintou um retrato contundente da Cúria: "O reino está fragmentado em vários pequenos estados feudais, com todos lutando contra si". As condições, ele escreveu, são "desastrosas" e, pior ainda, são "bem conhecidas" de toda a Cúria.

O escândalo Vatileaks também trouxe à tona as razões por trás da demissão de um outro alto funcionário. Ettore Gotti Tedeschi, diretor do banco do Vaticano até pouco antes de Pentecostes, foi aparentemente enxotado, porque ele estava tentando trazer mais transparência a uma instituição repleta de escândalos. Seu objetivo era fazer com que o banco - onde padrinhos da máfia, guardavam seu dinheiro, por questões de segurança -, fosse incluído pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na "lista branca" de organizações supostamente limpas. Tedeschi queria que o Vaticano finalmente tornasse claras as transações que satisfizessem as normas internacionais de combate à lavagem de dinheiro. Ele falhou.

Observadores acreditam que o caso do banqueiro é o verdadeiro cerne do escândalo, uma luta de poder pelo controle das finanças do Vaticano. Isso provavelmente explica por que Tedeschi foi tão vigorosamente deposto. O Conselho de diretores do banco emitiu justificativas absurdas para sua expulsão, dizendo que Tedeschi, professor de ética empresarial, era imprevisível e tinha chamado a atenção para si mesmo com suas ausências.

Em qualquer caso, está claro que Tedeschi perdeu em uma luta contra Bertone. Aparentemente descontentou o segundo no comando do Papa que, em função de novas orientações, poderia fazer um corte nos ativos do Vaticano.

Uma Velha Guarda Ignorada

Seria demasiado simplista interpretar tudo isso como apenas um conflito entre reformadores e tradicionalistas. Na realidade, trata-se da esclerose da Igreja, e um problema que tem um nome: Bento XVI.

A velha guarda do Vaticano, composta por cardeais italianos e os seus apoiadores, acreditavam que tinham encontrado um Papa de transição em Ratzinger. Mas agora a transição está em seu oitavo ano, e a Cúria está mais ou menos onde ela estava, perto do fim da vida do Papa anterior (João Paulo II): Não há ninguém à vista para assumir com firmeza o leme.

Bento XVI se cerca de pessoas que ele conhece há longo tempo, e lhes dá um poder considerável. Quando ele nomeou Bertone para seu escritório principal, o Papa passou por cima da hierarquia habitual das “panelinhas”. Ele e Gänswein, conhecido em Roma como o "Adônis da Floresta Negra" por conta de suas origens do sudoeste alemão, tornaram-se demasiado poderosos e independentes, segundo muitos cardeais da Cúria. Bertone e Gänswein foram os principais alvos do ataque de codinome "Maria".

Cardeais de províncias da Itália notaram que seu acesso à Santa Sé foi se reduzindo. Apesar de Bertone ser italiano, ele prefere seus colegas membros da Ordem dos Salesianos, elevando-os para posições-chave e nomeando-os como cardeais. Além disso, Bertone, de 77 anos de idade, é visto como um gestor fraco e diplomata inábil. No verão de 2009, uma delegação de cardeais teria questionado o Papa, para substituí-lo.

Mas o chefe da administração do Vaticano dificilmente pode ser o único alvo dos ataques "Maria". A razão para isto é que é muito provável ele permanecer no cargo, por mais seis meses, em qualquer caso, para desobstruir a posição para um sucessor. Não, "Maria" tem como alvo alguém mais elevado do que Bertone.

Desconfortável na Função

A Igreja Católica tem um problema de liderança no centro da sua corte barroca. Os documentos vazados, em última análise, prejudicam o próprio Bento XVI, e o escândalo é também fundamentalmente prejudicial para o próprio papado. A cada dia mais de especulação sobre os verdadeiros autores intelectuais por trás da trama, há uma impressão crescente de um papado difícil e um papa enfraquecido que não está mais comandando as decisões.

Por um longo tempo, o próprio Ratzinger mal podia acreditar que ele de repente se tornou o líder de todos os católicos. Mais de um mês após sua eleição, em 24 de maio de 2005, ele fez uma outra visita ao local, no Vaticano, onde tantas coisas tinham começado para ele: o seminário no Campo Santo Teutônico, uma ilha verde no apertado estado papal, diretamente adjacente à sacristia da Basílica de São Pedro.

Ele viveu aqui durante o esforço radical de modernização da Igreja, conhecido como (Concílio) Vaticano II (década de 60) e, em 1982, ele voltou a Roma, vindo de Munique, permanecendo "em uma sala com apenas as necessidades básicas em torno de mim para que eu pudesse fazer um novo começo."

Ratzinger permaneceu leal à comunidade do Seminário, até que ele foi eleito papa. Durante décadas, ele celebrou a missa lá às 7 horas da manhã toda quinta-feira, e muitas vezes ele fazia refeições com os alunos, na sala de jantar, teve discussões com eles e participava da festa de Natal na sala de lareira. Era um lugar onde ele podia se refugiar de seus deveres como chefe da Congregação da Doutrina da Fé, uma espécie de família adotiva.

Ele não foi mais ao seminário, desde sua última visita, no final de maio de 2005, que durou mais de uma hora. Na despedida, Ratzinger assinou o livro de visitas. Ele escreveu: "Bento XVI" e, em seguida, deixando um espaço pequeno, rabiscou "Papa". No começo, ele escreveu com um “p” minúsculo, mas depois ele mudou para uma letra maiúscula.

Nenhum de seus antecessores nunca tinha assinado nada parecido com isso - e Bento XVI nunca faria isso novamente. Era quase como se tivesse que dizer a si mesmo: Meu Deus, eu sou o Papa!

Ratzinger sentia-se desconfortável ​​com o poder que ele tinha assumido, uma das razões pelas quais ele se recusou a fazer uma abrangente reforma do sistema. Ele preferiu colocar sua confiança em seus subordinados.

A Necessidade de Família

Bento XVI não precisa do Vaticano, ele precisa de uma pequena família. A família é sagrada para ele, e é algo que ele sempre buscou ao longo de sua vida. O único membro sobrevivente de sua família é seu irmão mais velho, Georg. Seu pai, Joseph, morreu em 1959 e sua mãe, Maria, em 1963. Sua irmã, Maria, dirigiu seus trabalhos domésticos por cerca de 30 anos, mesmo em Roma, até sua morte em 1991. Quando ela morreu, ele escreveu em suas memórias: "O mundo tornou-se um pouco mais vazio para mim."

Para Ratzinger, todas esses problemas continuam sem resolver. No Encontro Mundial das Famílias, realizada em Milão no início de junho, ele respondeu a perguntas sobre a família de uma forma improvisada e repentina. "Oi, Papa," uma menina de 7 anos disse para ele. "Eu sou Cat Tien. Eu venho do Vietnã. Eu realmente gostaria de saber algo sobre sua família e de quando você era pequeno como eu."

Bento, de 85 anos, respondeu: "Para dizer a verdade, se eu tentar imaginar um pouco como será o Paraíso, eu penso sempre no tempo da minha juventude, da minha infância. Neste contexto de confiança, de alegria, amor, nós éramos felizes, e eu acho que o Paraíso deve ser algo parecido com o que foi a minha juventude ".

Ratzinger tem repetidamente tentado promover este "ambiente de confiança", mas esse ambiente tem sido repetidamente prejudicado. Quando Ratzinger mudou-se para os aposentos do Papa em 2005, ele de repente teve que ir sem um confidente de longa data. Ingrid Stampa, a governanta que sucedeu a sua irmã, não foi autorizada a juntar-se a Ratzinger em seus novos aposentos. Ela havia caído em desgraça, no Vaticano, por ter uma vez apontado para a Praça de São Pedro, a partir da janela do apartamento do Papa, e acenado para a multidão – uma gafe imperdoável.

Em vez disso, quatro irmãs leigas, da associação Memores Domini - Loredana, Cristina, Manuela e Carmela - tornaram-se suas novas governantas. Elas cuidaram dele durante cinco anos, assistindo suas orações todas as manhãs, celebrando o Natal e os dias santos e fazendo as refeições com ele.

Então uma delas, Manuela Camagni, morreu em um acidente de trânsito em 2010. O Papa ficou abalado. Ele se ajoelhou diante de seu caixão, fez um elogio e falou dos "inesquecíveis momentos como família" que tinha desfrutado com ela.

Com a traição de seu mordomo, que tinha estado a seu lado o tempo todo, o pequeno mundo de Joseph Ratzinger foi novamente jogado fora dos eixos.

O indescritível efeito "Efeito Bento”

Quando comparado com as expectativas, os resultados de sete anos de Bento XVI, como Papa, têm sido bastante modestos. O Papa alemão não será lembrado tanto por sua luta declarada de preservar a unidade da Igreja. Em vez disso, ele será lembrado como uma vítima das circunstâncias e de facções fragmentadas, concorrentes, como um Pontífice atormentado por escândalos, erros e gafes. Ele mesmo construiu muros de proteção, que pareciam ter sido usados há muito tempo. Seu papado consistiu de anos de seguidas desculpas e mal-entendidos supostos ou reais.

Ele irritou os Protestantes, declarando que outras denominações diferentes da sua própria, não são igrejas verdadeiras. Ele afastou os muçulmanos com um discurso inepto na cidade bávara de Regensburg. E ele insultou judeus,  por reinserir uma oração pela conversão dos judeus na liturgia de Sexta-feira Santa.

Ele também esnobou a Igreja por se congratular com os tradicionalistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que rejeita as reformas do Vaticano II. As pendências atuais nas reformas da Igreja, que já tinham começado a se acumular sob o seu predecessor conservador, João Paulo II, só ficaram maiores com Bento XVI. O “Dia dos Católicos” realizado em maio, no sudoeste da cidade alemã de Mannheim, com seus 80.000 participantes, foi um último grito para a mudança na Igreja.

O fato de o Papa ser alemão não teve um efeito duradouro sobre os alemães. Quando ele foi eleito, a imprensa alemã falou de um "efeito Bento XVI," de como ter um Papa alemão poderia influenciar positivamente a conversão e as taxas de retenção (de católicos) na Alemanha. Mas, se alguma vez realmente existiu, esse efeito se dissipou rapidamente. Desde a eleição de Bento XVI, em 2005, o número de pessoas abandonando a Igreja Católica, na Alemanha, mais do que dobrou, e tem sido o maior, mais recentemente, na antiga Arquidiocese de Ratzinger, de Munique e Freising. Apenas 30 por cento dos alemães são ainda católicos hoje.

A alegação, muitas vezes feita por católicos entusiasmados em talk shows alemães - que tudo isso é um problema alemão ou europeu e nada além de uvas verdes, e que a Igreja é mais bem sucedida em outros lugares - não é sequer verdadeira, nem mesmo na profundamente católica América Latina, onde o número de católicos tem caído acentuadamente. Os cristãos evangélicos, por outro lado, multiplicam-se lá como os pães e os peixes em Canaã.

Parte 3: Travado pelos “insiders” do Vaticano

Ratzinger só foi capaz de fazer alguma coisa durante estes sete anos, por ter certeza de que poderia ter pequenas fugas. Além de suas tarefas diárias, ele já escreveu livros e encíclicas sobre o amor cristão ("Deus Caritas Est") e sobre a esperança ("Spe Salvi").

Alguns de seus escritos se tornaram best-sellers, mesmo na irremediavelmente secularizada Alemanha. Na verdade, esse Papa conseguiu colocar o Vaticano de volta no radar do mundo secular. Suas encíclicas, suas reflexões sobre a razão e a fé, e sua crítica do relativismo de todos os valores têm sido acompanhadas de perto pela imprensa. Ele tem sido visto como um Papa que entende o espírito da época.

Na verdade, a falha do Papa em atender à altura algumas expectativas, muitas vezes, realmente beneficiou a Igreja. "O Cristianismo, Catolicismo não é uma coleção de proibições, é uma opção positiva", disse Bento XVI, antes de sua viagem à Baviera, em 2006. Embora ele se coloque por trás do dogma e da doutrina pura, ele tenta não alienar ninguém, mesmo que reconhecidamente não tenha sido sempre bem sucedido no que faz. Até agora, o Papa parece quase tão doce quanto a Rainha da Inglaterra, durante suas aparições. Ele sabe como cativar uma multidão sem gestos espetaculares. Ele se encontrou com sobreviventes do Holocausto em Auschwitz, vítimas de abusos nos Estados Unidos e pessoas com AIDS nos Camarões.

Bento XVI entendeu melhor do que os outros qual é a real condição da Igreja - e quão longe do seu ideal está remover isto. Seu obstáculo sempre foi a Cúria. Talvez a verdadeira coisa, aprendida ao longo dos últimos sete anos, seja apenas quão impotente pode ser um Papa.

Procurando já por um Sucessor

O Papa só queria ser um " simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor", um "servo da verdade." Agora ele está diante da realidade de sua própria mortalidade. Por algum tempo, ele foi acometido por períodos de "profunda tristeza", diz uma fonte próxima a Bento XVI, embora, a fonte observe que não está claro se esta é apenas tristeza ou genuína depressão.

Ratzinger sobreviveu a dois acidentes vasculares cerebrais leves no início de 1990. Tanto seu pai, quanto sua irmã, morreram de AVC. O Papa toma aspirina como medicamento preventivo. Ele é atormentado pela artrose nos joelhos, especialmente o direito. Caminhar está ficando mais difícil para ele, e ele agora usa uma plataforma rolante, que ele utiliza ao entrar na Basílica de São Pedro, principalmente quando está vestindo roupas pesadas.

Ele não tem saído de férias nas montanhas desde 2010. Às vezes, faz pequenas caminhadas com o seu secretário, nos jardins do Vaticano, onde ele reza o rosário.

Na Cúria e nos bastidores dos palácios do Vaticano, os esforços já estão em andamento para procurar um sucessor. Os resultados possíveis de um conclave são analisados ​​e os candidatos são discutidos, como foi feito há sete anos. Alguns dizem que o próximo Papa deve ser alguém como Pio XII, Papa entre 1939 e 1958, que era um previsível e calculista operador do poder e insider do Vaticano. Ou alguém como Paulo VI, o Papa de 1963 a 1978, que dava atenção aos interesses da Cúria.

O nome do cardeal Angelo Scola, o arcebispo de Milão, tem sido mencionado, como tem o de Leonardo Sandri, um cardeal argentino com raízes italianas. Outro possível candidato é o Cardeal da Cúria, Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura e um dos poucos insiders do Vaticano, perito em lidar com a mídia, a política e o público.

Os italianos, com 30 votos, ainda formam o maior bloco em um conclave. Alguns acreditam que, depois de mais de 33 anos de dominação estrangeira - primeiro por um polonês e depois por um alemão - é hora de eleger um Papa italiano. Afinal, os defensores da ideia argumentam, um cardeal italiano conhece melhor a Cúria Romana. Mas os “prospect” italianos tornaram-se fracos desde o Vatileaks, diz o especialista em Vaticano, Marco Politi. "Se o escândalo expôs uma coisa, é a típica bagunça italiana. Italianos não são mais vistos como papabile (capazes de se tornarem Papa). Eles se desacreditaram com a sua luta pelo poder".

Últimos Dias e Legados

O próprio Bento XVI sabe que não tem muito tempo. "O último segmento da minha vida está começando agora", disse aos convidados no aniversário, em abril.

Na verdade, seu planejamento dificilmente vai além de julho do próximo ano, quando ele vai participar do "Dia Mundial da Juventude" Católica, no Rio de Janeiro. Consertar a rixa com a FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X)* estará no topo de sua agenda nas próximas semanas, além de admoestar grupos rivais para exercer respeito mútuo.

Com a disputa, que surgiu sobre a avaliação das reformas do Concílio Vaticano II, que começou há 50 anos, o Papa está agora experimentando um retorno ao seu próprio passado. Será que o pastor, que já teve uma mente liberal, e agora é conservador, vai encontrar forças para promover a reconciliação no final da sua vida? Para desbravar algum caminho do meio entre tradição e modernidade para o 1,2 bilhão de católicos do mundo?

"Stalin estava certo em dizer que o Papa não tem divisões e não pode emitir comandos", disse Bento XVI no livro-entrevista de 2010 "Luz do Mundo". "Nem ele tem um grande negócio em que todos os fiéis da Igreja são seus empregados ou seus subordinados. Nesse contexto, o Papa é, por um lado, um homem completamente impotente. Por outro lado, ele tem uma grande responsabilidade".

Bento XVI sempre viu a si mesmo como um educador, em vez de um pontífice governante. O professor-papa da pequena aldeia bávara de Marktl am Inn, sem dúvida, não ficará nos anais da história da Igreja como Bento, o Grande.

Mas ele será lembrado como um líder de Igreja com um rosto humano, como alguém que se manteve fiel a si mesmo como um teólogo, e como alguém que virou as costas para o poder dentro de suas próprias quatro paredes. Em outras palavras, como um Papa com um “p” minúsculo.

Traduzido do alemão por Christopher Sultan. Traduzido para o português por João Paulo Forni e João José Forni. Edição: João José Forni

* Nota dos tradutores - FSSPX – Fraternidade Sacerdotal São Pio Xum grupo de religiosos que prega o tradicionalismo na Igreja, rompendo com a autoridade papal para manter as tradições da missa em latim e outros costumes. Os bispos e padres que romperam foram excomungados (expulsos dos sacramentos da Igreja, em 1988, por João Paulo II). Apesar de Bento XVI ter-se aproximado deles, existem restrições à participarem das celebrações.

A FSSPX permanece fora da comunhão eclesiástica, pois seus padres e bispos continuam suspensos a divinis, sendo portanto considerados oficialmente um grupo às margens da Igreja Católica Romana. Assim sendo, todas as ordenações e missas oferecidas pela FSSPX são ilícitas. Já os sacramentos da penitência (confissão), matrimônio e crisma (confirmação) são completamente nulos por dependerem da jurisdição e autoridade do bispo local. Fonte: WikiPedia

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The Final Battles of Pope Benedict XVI

The article you are reading originally appeared in German in issue 24/2012 (June 11, 2012) of DER SPIEGEL.

By Fiona Ehlers, Alexander Smoltczyk e Peter Wensierski

The mood at the Vatican is apocalyptic. Pope Benedict XVI seems tired, and both unable and unwilling to seize the reins amid fierce infighting and scandal. While Vatican insiders jockey for power and speculate on his successor, Joseph Ratzinger has withdrawn to focus on his still-ambiguous legacy.

Finally, there is clarity. The Holy See has cleared things up and made the document accessible to all: a handout on checking whether apparitions of the Virgin Mary are authentic.

Everything will be much easier from now on. The Roman Catholic Church has taken a step forward.

This "breaking news" from the Congregation for the Doctrine of the Faith (CDF) reveals the kinds of issues the Vatican is concerned with -- and the kind of world in which some there live. It's a world in which the official Church investigation of Virgin Mary sightings is carefully regulated while cardinals in the Roman Curia, the Vatican's administrative and judicial apparatus, wield power with absolutely no checks and the pope's private correspondence turns up in the desk drawers of a butler.

It's a completely different apparition of the Virgin Mary that has pulled the Vatican and the Catholic Church into a new crisis, whose end and impact can only be surmised: the appearance of a source in the heart of the Church, a conspiracy against the pope and a leak code-named "Maria."

Since the end of May, the pope's former butler, Paolo Gabriele, has been detained in a 35-square-meter (377-square-foot) cell at the Vatican, with a window but no TV. Using the code name "Maria," he allegedly smuggled faxes and letters out of the pope's private quarters. But it remains unclear who was directing him to do so.

Even with Gabriele's arrest, the leak still hasn't been plugged. More documents were released to the public last week, documents intended primarily to damage two close associates of Pope Benedict XVI: his private secretary, Georg Gänswein, and Cardinal Secretary of State Tarcisio Bertone, the Vatican's top administrator. According to one document, "hundreds" of other secret documents would be published if Gänswein and Bertone weren't "kicked out of the Vatican." "This is blackmail," says Vatican expert Marco Politi. "It's like threatening total war."

A House in Disarray

Fear is running rampant in the Curia, where the mood has rarely been this miserable. It's as if someone had poked a stick into a beehive. Men wearing purple robes are rushing around, hectically monitoring correspondence. No one trusts anyone anymore, and some even hesitate to communicate by phone.

It all began in the accursed seventh year of the papacy of Benedict XVI, with striking parallels to the latter part of Pope John Paul II's papacy. The same complaints about poor leadership and internal divisions are being aired outside the Vatican's walls, while the pope himself seems exhausted and no longer able to exert his power.

Joseph Ratzinger turned 85 in April. This makes him the oldest pope in 109 years, and one of the few popes who have exercised what Benedict has called this "enormous" office at such an advanced age.

Of course, he is still enviably fit, both mentally and physically, especially compared to his predecessor in his later years. But speaking has become unmistakably more difficult for Benedict than at the beginning of his papacy, and it's hard to miss that his movements have become stiff and cautious.

He recently told a visitor that his old piano hardly gets any use anymore. Playing it requires practice, he added, but he doesn't have any time for that. He prefers to continue working on the last part of his series on Jesus, which he wants to finish before dying.

A Ship with No Captain

These days, it isn't difficult to find clerics at the Vatican who are willing to talk, provided their identities remain anonymous.

The monsignor who finds his way to a restaurant near Piazza Santa Maria in Rome's Trastevere neighborhood one evening worked closely with Ratzinger in the CDF for years. But even before the waiter arrives with water and wine, the monsignor delivers his verdict on Ratzinger's papacy: "The pope doesn't fully exercise his office!" In his view, instead of having things under control, they control him.

The pope isn't interested in daily affairs at the Vatican, says the anonymous monsignor. Still, this is not exactly unprecedented, as his predecessor also neglected the Curia. While the Polish pope spent a lot of time traveling, his German successor is apparently happiest while poring over books and writing speeches. "He simply isn't taking matters into his own hands," the monsignor says. In essence, he adds, the pope faces a different power in Rome -- and one he hasn't take command of.

Although the Vatican is Catholic, it's also two-thirds Italian. In the end, says the monsignor, the Vatican's employees and administration don't care who among their ranks leads the Church. Even for someone who has been living there for decades, the monsignor says, "the Vatican is a ball of wool that's almost impossible to untangle -- not even by a pope."

When John Paul II died in April 2005, the Curia was in terrible shape. Events and personnel decisions had been postponed during his last few years, in which he was often ill. The new pope was expected to finally clear off the desks and give the Curia a fresh start.

But, for the most part, such reforms haven't materialized. Priests still hold all key positions, including those on the Council for the Laity and the Council for the Family. The only woman in a senior position, Briton Lesley-Anne Knight, was driven out of office as secretary-general of the Catholic development agency Caritas Internationalis in 2011 for having openly opposed the Church's male-dominated hierarchy.

Fractured and Ferocious

A "reform of the Curia" is probably a contradiction in terms. Its hierarchical, essentially medieval organizational model is incompatible with modern management. The Vatican is an anachronistic, albeit surprisingly tenacious system, in which pecking orders and an absurd penchant for secrecy and intrigue prevail. "The only important thing is proximity to the monarch," says a member of a cardinal's staff. Rome works like an absolutist court, one in which decisions are made by people whispering things into the others' ears rather than by committees. "There are many vain people here, people in sharp competition with one another," the staff member adds.

Who spoke with whom, and for how long? What did they talk about? Who attends early Mass with whom, and who invites whom to dinner? Who's in and who's out? Who belongs and who doesn't, and who's coming into favor and who's falling out of it? "This mood fosters feelings of exclusion, discrimination, envy, revenge and resentment," the monsignor says. And all things have now appeared in the so-called Vatileaks documents.

Papal secretary Gänswein, in particular, has made many enemies. As the pope's gatekeeper, he has influence over who is granted or denied the pontiff's favor as well as over which events and issues might command his attention. This power can trigger fear, jealousy and derision in the corridors of the Apostolic Palace, the pope's official residence. For Gänswein, it seemed almost miraculous that he was able to spend an entire evening relaxing and conversing with German clerics at the Vatican's embassy in Berlin last September. It was an experience he couldn't have had in Rome.

The Vatican is disintegrating into dozens of competing interest groups. In the past, it was the Jesuits, the Benedictines, the Franciscans and other orders that competed for respect and sway within the Vatican court. But their influence has waned, and they have now been replaced primarily by the so-called "new clerical communities" that bring the large, cheering crowds to Masses celebrated by the pope: the Neocatechumenate, the Legionaries of Christ and the traditionalists of the Society of St. Pius X (SSPX) and the Priestly Fraternity of St. Peter -- not to mention the worldwide "santa mafia" of Opus Dei. 

They all have their open and clandestine agents in and around the Vatican, and they all own real estate and run universities, institutes and other educational facilities in Rome. Various cardinals and bishops champion their interests at the Vatican, often without an official or recognizable mandate. At the Vatican, everyone is against everyone, and everyone feels they have God on their side.

Perhaps Benedict XVI simply knows the Vatican too well to seriously attempt to reform it. "As pope, this veteran curial insider has turned out to have virtually zero interest in actually running the Roman Curia," writes John L. Allen, a biographer of the pope.

Part 2: Losers in the Battle for Reform

The current scandal unfolded against this backdrop. The revelations about the secret Vatican documents -- dubbed "Vatileaks" by none other than papal spokesman Padre Federico Lombardi -- first emerged more than four months ago. They suggest a Vatican mired in corruption and character-assassination campaigns, a plot that seems hardly limited to a butler's alleged act of theft.

The central figure is Archbishop Carlo Maria Viganò, whom the pope instructed in July 2009 to clean up at the Vatican administration. The overzealous lawyer imposed cutbacks in various areas, including construction contracts, real estate and management of the Vatican Gardens. In a letter to Bertone, he wrote that he had turned a Vatican budget deficit of €7.8 million ($9.8 million) into a surplus of €34.5 million within a year by putting an end to old boys' networks that "always awarded contracts to the same companies" -- at double the prices customarily paid outside the Vatican. Viganò made himself unpopular with his fight against waste and abuse of office.

He was maneuvered out of his position after only 27 months and, since October, he has been the Vatican's ambassador to the United States in Washington, far away from the Vatican. He has perceived his transfer as a punishment. In a letter of protest to the pope, he painted a blunt picture of the Curia: "The realm is fragmented into many small feudal states, with everyone fighting against everyone else." The conditions, he wrote, are "disastrous" and, even worse, are "well-known" to the entire Curia.

The Vatileaks scandal has also brought to light the reasons behind the sacking of another senior official. Ettore Gotti Tedeschi, head of the Vatican bank until shortly before Pentecost, was apparently shown the door because he was trying to bring more transparency to the scandal-ridden institution. His goal was to make the bank -- where Mafia godfathers once deposited their money for safekeeping -- eligible for the Organization of Economic Cooperation and Development's (OECD) "white list" of supposedly clean organizations. Tedeschi wanted the Vatican to finally disclose transactions that satisfied international standards on combating money laundering. He failed.

Observers believe that the banker's case is the real core of the scandal, a power struggle over control of the Vatican's finances. This most likely explains why Tedeschi was so vigorously ousted. The bank's board of directors issued absurd justifications for his expulsion, saying that Tedeschi, a professor of business ethics, was unpredictable and had drawn attention to himself through his absences.

In any case, it's clear that Tedeschi has lost out in a struggle against Bertone. It apparently displeased the pope's second-in-command that new guidelines could make a cut in the Vatican's assets.

An Old Guard Ignored

It would be overly simplistic to interpret all of this as merely a conflict between reformers and traditionalists. In reality, it's about the Church's sclerosis, and a problem that has a name: Benedict XVI.

The Vatican's old guard, made up of Italian cardinals and their backers, believed that they had found a transitional pope in Ratzinger. But now the transition is in its eighth year, and the Curia is roughly where it was near the end of the previous pope's life: There's no one in sight to firmly assume the helm.

Benedict XVI surrounds himself with individuals he's known for a long time, and he's given them considerable power. When he appointed Bertone to his senior office, the pope bypassed the usual pecking order of the cliques. He and Gänswein, known in Rome as the "Black Forest Adonis" on account of his southwestern-German origins, have become too powerful and independent for many cardinals in the Curia. Bertone and Gänswein were the primary targets of the attack code-named "Maria."

Cardinals from Italy's provinces have noticed that their access to the Holy See is slipping away. Although Bertone is Italian, he prefers his fellow members of the Salesian order, elevating them to key positions and nominating them as cardinals. In addition, the 77-year-old Bertone is seen as a poor manager and awkward diplomat. In the summer of 2009, a delegation of cardinals reportedly asked the pope to replace him.

But the head of the Vatican administration can hardly be the only target of the "Maria" attacks. The reason for this is that it's highly likely that he would only have remained in office for another six months in any case so as to clear the position for a successor. No, "Maria" is aiming higher than Bertone.

Uncomfortable in Office

The Catholic Church has a leadership problem at the center of its baroque court. The leaked documents ultimately harm Benedict himself, and the scandal is also fundamentally detrimental to the papacy itself. With each additional day of speculation over the true masterminds behind the plot, there is a growing impression of a difficult papacy and a weakened pope who is no longer calling the shots.

For a long time, Ratzinger himself could hardly believe he was suddenly the leader of all Catholics. More than a month after his election, on May 24, 2005, he paid another visit to the place in the Vatican where so many things had begun for him: the seminary in the Campo Santo Teutonico, a green island in the cramped papal state, directly adjacent to the sacristy of St. Peter's Basilica.

He had lived here during the Church's sweeping modernization effort known as Vatican II and, in 1982, he returned to Rome from Munich, staying "in a room with only the bare necessities around me so that I could make a fresh start."

Ratzinger remained loyal to the seminary community until he was elected pope. For decades, he celebrated Mass at 7 a.m. there every Thursday, and he often ate with students in the dining room, had discussions with them and attended the Christmas party in the fireplace room. It was a place to which he could seek refuge from his duties as head of the CDF, a kind of adopted family.

He hasn't been to the seminary since his last visit, in late May 2005, which lasted over an hour. In parting, Ratzinger signed the guestbook. He wrote "Benedict XVI" and then, leaving a small space, scribbled "pope." At first he wrote it with a lower-case p, but then he changed it to an upper-case one.

None of his predecessors had ever signed anything like that -- and Benedict himself would never do it again. It was almost as if he had to tell himself: My God, I'm the pope!

Ratzinger felt uncomfortable with the power he had assumed, which is one reason he has declined to comprehensively reform the system. He has preferred to place his trust in his underlings.

A Need for Family

Benedict doesn't need the Vatican; he needs a small family. Family is sacred to him, and it's something he has always sought throughout his life. The only surviving member of his family is his older brother, Georg. His father, Joseph, died in 1959 and his mother, Maria, in 1963. His sister, Maria, ran his household for about 30 years, even in Rome, until her death in 1991. When she died, he wrote in his memoirs: "The world became a little emptier for me."

For Ratzinger, all of these issues remain unresolved. At the World Meeting of Families held in Milan in early June, he responded to questions about family in an ad hoc and unscripted manner. "Hi, pope," a 7-year-old girl said to him. "I am Cat Tien. I come from Vietnam. I would really like to know something about your family and when you were little like me." The 85-year-old Benedict replied: "To tell the truth, if I try to imagine a little how paradise will be, I think always of the time of my youth, of my childhood. In this context of confidence, of joy and love, we were happy, and I think that paradise must be something like how it was in my youth."

Ratzinger has repeatedly tried to foster this "environment of trust," but it has repeatedly been damaged. When Ratzinger moved into the papal apartments in 2005, he suddenly had to go without a longtime confidante. Ingrid Stampa, the housekeeper who had succeeded his sister, was not permitted to join Ratzinger in his new quarters. She had been disgraced in the Vatican for having once pointed at St. Peter's Square from the window of the pope's apartment and waved to the crowd -- an unforgivable faux pas.

Instead, four lay sisters with the Memores Domini association -- Loredana, Cristina, Manuela and Carmela -- became his new housekeepers. They looked after him for five years, attended his prayers every morning, celebrated Christmas and saints' days with him, and ate their meals with him.

Then one of them, Manuela Camagni, was killed in a traffic accident in 2010. The pope was shaken. He knelt before her coffin, delivered a eulogy and spoke of the "unforgettable family-like moments" he had enjoyed with her.

With the betrayal of his butler, who had been at his side around the clock, the small world of Joseph Ratzinger has once again been thrown out of joint.

The Elusive 'Benedict Effect'

When compared with expectations, the results of Benedict XVI's seven years as pope have been rather modest. The German pope will not be remembered much for his avowed fight to preserve the unity of the Church. Instead, he will be remembered as a victim of circumstances and of fragmented, competing factions, as a pontiff plagued by scandals, mistakes and gaffes. He even built walls back up that seemed to have been worn down long ago. His papacy has consisted of years of ongoing apologies and alleged or actual misunderstandings.

He has annoyed the Protestants by declaring that denominations other than his own are not true churches. He has alienated Muslims with an inept speech in the Bavarian city of Regensburg. And he has insulted Jews by reinserting a prayer for the conversion of the Jews into the Good Friday liturgy.

He has also snubbed the Church by currying favor with the traditionalists of the Society of St. Pius X, which rejects the Vatican II reforms. The current backlog of Church reforms, which had already started piling up under his conservative predecessor, John Paul II, has only gotten bigger under Benedict. The Catholics' Day held in May in the southwestern German city of Mannheim, with its 80,000 attendees, was a last cry for change in the Church.

The fact that the pope is German has not had a lasting effect on Germans. When he was newly elected, the German media spoke of a "Benedict effect," of how having a German pope would positively influence conversion and retention rates in Germany. But, if it ever really existed, this effect quickly dissipated. Since Benedict's election in 2005, the number of people leaving the Catholic Church in Germany has more than doubled, and it's been the highest most recently in Ratzinger's former Archdiocese of Munich and Freising. Only 30 percent of Germans are still Catholic today.

The claim, often made by enthusiastic Catholics on German talk shows -- that all of this is a German or European problem and nothing but sour grapes, and that the Church is more successful elsewhere -- isn't even true in deeply Catholic Latin America, where the number of Catholics has been sharply declining. Evangelical Christians, on the other hand, are multiplying there like the loaves and fishes in Canaan.

Part 3: Stymied by Vatican Insiders

Ratzinger has only been able to make it through those seven years by making sure he has small escapes. In addition to his everyday duties, he has written books and encyclicals on Christian love ("Deus Caritas Est") and on hope ("Spe Salvi").

Some of his writings have become best-sellers, even in hopelessly secularized Germany. Indeed, this pope has managed to put the Vatican back on the secular world's radar. His encyclicals, his thoughts on reason and faith, and his criticism of the relativism of all values have been closely followed in the press. He has been seen as a pope who understands the zeitgeist.

In fact, the pope's failure to live up to many expectations has actually often benefited the Church. "Christianity, Catholicism, is not a collection of prohibitions; it's a positive option," Benedict said before his trip to Bavaria in 2006. Although he stands behind dogma and pure doctrine, he tries not to alienate anyone, even if he admittedly hasn't always been successful at it. By now, the pope seems about as mild as the Queen of England during his appearances. He knows how to captivate a crowd without spectacular gestures. He has met with Holocaust survivors in Auschwitz, abuse victims in the United States and people with AIDS in Cameroon.

Benedict has understood better than others what the Church's real condition is -- and how far removed it is from his ideal. His stumbling block has always been the Curia. Perhaps the real thing learned over the last seven years is just how powerlessness a pope can be.

Already Searching for a Successor

The pope only wanted to be a "simple, humble worker in the vineyard of the Lord," a "servant of the truth." Now he stands before the reality of his own mortality. For some time, he has been overcome by periods of "deep sadness," says a source close to Benedict, though he notes that it is unclear whether this is merely sadness or genuine depression.

Ratzinger survived two mild strokes in the early 1990s. Both his father and sister died of strokes. The pope takes aspirin as a preventive medicine. He is plagued by osteoarthritis in his knees, especially the right one. Walking is getting more difficult for him, and he now uses a rolling platform, which he mounts upon entering St. Peter's Basilica, such as when he is wearing heavy garments.

He hasn't gone on vacation in the mountains since 2010. Sometimes he takes short walks with his secretary in the Vatican Gardens, where he says the rosary.

In the Curia and the backrooms of the Vatican's palaces, efforts are already underway to search for a successor. The possible outcomes of a conclave are analyzed and candidates are discussed, as was done seven years ago. Some say the next pope should be someone like Pius XII, the pope between 1939 and 1958 who was a calculating and predictable power player and Vatican insider. Or someone like Paul VI, the pope from 1963 to 1978, who paid attention to the Curia's interests. The name of Cardinal Angelo Scola, the archbishop of Milan, has been mentioned, as has that of Leonardo Sandri, an Argentine cardinal with Italian roots. Another possible candidate is Curia Cardinal Gianfranco Ravasi, president of the Pontifical Council for Culture and one of the few Vatican insiders who is adept at handling the media, politics and the public.

The Italians, with 30 votes, still form the largest bloc in a conclave. Some believe that, after more than 33 years of foreign dominance -- first by a Pole and then by a German -- it's high time to elect an Italian pope. After all, proponents of the idea argue, an Italian cardinal knows the Roman Curia best. But the Italians' prospects have become slim since Vatileaks, says Vatican expert Marco Politi. "If the scandal has exposed one thing, it is the typical Italian mess. Italians are no longer seen as papabile (capable of becoming pope). They have discredited themselves with their power struggle."

Last Days and Legacies

Benedict himself knows that he doesn't have much time left. "The last segment of my life is now beginning," he told birthday guests in April.

In fact, his planning hardly goes past next July, when he will attend the Catholic "World Youth Day" in Rio de Janeiro. Healing the rift with the SSPX will be at the top of his agenda in the coming weeks, in addition to admonishing feuding groups to exercise mutual respect.

With the dispute that has erupted over the assessment of the reforms of Vatican II, which began 50 years, the pope is now experiencing a return to his own past. Will the once liberal-minded and now conservative pastor find the strength to foster reconciliation at the end of his life? To blaze some middle path between tradition and modernity for the world's 1.2 billion Catholics?

"Stalin was right in saying that the pope has no divisions and cannot issue commands," Benedict said in the 2010 book-length interview "Light of the World." "Nor does he have a big business in which all the faithful of the Church are his employees or his subordinates. In that respect, the pope is, on the one hand, a completely powerless man. On the other hand, he bears a great responsibility."

Benedict has always seen himself as a teaching rather than a governing pontiff. The professor-pope from the small Bavarian village of Marktl am Inn will undoubtedly not go down in the annals of Church history as Benedict the Great.

But he will be remembered as a church leader with a human face, as someone who has remained true to himself as a theologian, and as someone who turned his back on the power within his own four walls. In other words, as a pope with a lower-case p.´

You can follow Peter Wensierski on Twitter @wensierski.

Translated from the German by Christopher Sultan

Foto: Getty Images. Ilustração: Der Spiegel.

 

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