folhaspdilmaA polêmica entrevista concedida à Folha de S. Paulo  pelo ex-dirigente do grupo Var-Palmares, Antonio Roberto Espinosa, que combateu a ditadura nos anos 60 e 70, rendeu desmentido da fonte e cobranças do Ombudsman do jornal. Na entrevista, o ex-militante teria admitido que o grupo planejou o sequestro do então ministro da Fazenda Delfim Netto. A ministra Dilma Rousseff participou desse grupo e, segundo a matéria, tomou conhecimento dos planos do sequestro, embora não tivesse missão diretiva no grupo.

A ministra Dilma em entrevista, na mesma reportagem, alega não se lembrar dos planos desse sequestro, se é que houve. E fez uma negativa peremptória, como diz o jornal. O ex-dirigente, fonte da matéria, após a publicação também desmentiu que a ministra soubesse dos planos do sequestro, com uma contundente carta ao jornal. Acusou a edição de “oportunista” por ter transformado “um não fato do passado (o sequestro que não houve) num factóide do presente (o início de uma sórdida campanha)”, insinuando que a matéria prejudicaria a virtual candidatura da ministra à presidência. A repórter, autora da matéria, replicou: não afirmou que Dilma participou da ação;  o entrevistado, na entrevista gravada por telefone, deu a entender que Dilma sabia do plano de sequestro.

Esse bate-boca é muito comum quando o tema é polêmico e o resultado da entrevista não agrada a fonte. Neste domingo (12), a coluna do Ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, criticou a reprodução da ficha policial da ministra Dilma Rousseff, durante a ditadura. Considerou “uma forçada de barra” do jornal. “O certo seria colocar ali a foto de Antonio Espinosa”, a fonte da entrevista, diz ele.

A quase totalidade dos leitores em cartas para o Ombudsman disseram que a reportagem prejudicaria as aspirações da candidata Dilma. Segundo Carlos Lins da Silva, o dirigente da organização negou ter dito que a ministra tinha conhecimento do plano de seqüestro, distinguindo a “informação política” que ela pode ter tido e “informação factual”, que ela não tinha. Embora a reportagem assegure que a operação tinha data e local definidos, isso não foi informado pelo jornal.  

A polêmica começou pela extensão da carta do dirigente, enviada ainda no domingo para a Folha e outras publicações. O jornal se negou a publicá-la, solicitando um desmentido mais resumido. Cartas longas sempre serão cortadas. Os jornais dificilmente publicam na íntegra.

Na quarta-feira (7), a Folha, enfim, publicou a carta de Antonio Espinosa, desmentindo vários aspectos da matéria. Diante da polêmica, na análise semanal, o Ombudsman recomendou a publicação das gravações da entrevista. Com isso, muitas dúvidas suscitadas seriam sanadas e ficaria a cargo dos leitores julgar quem distorceu as informações. O jornal alegou falta de espaço para não publicar a gravação. A a matéria teria sido suficiente para expor a opinião da fonte.

Esse imbróglio suscita algumas considerações à luz dos preceitos da gestão de crise. Por princípio, se o tema é polêmico e não existe premência ou obrigação de dar uma entrevista, ao concedê-la a fonte está sujeita a interpretações algumas vezes subjetivas do jornalista ou à divulgação de informações que poderão gerar controvérsia. No jargão jornalístico, a fonte está “esquentando” uma matéria que por vezes nem existia ou não tinha ainda elementos suficientes para ser publicada. Conceder a entrevista, nesses casos, sempre implica risco para a fonte.

A imprensa gosta de polêmica, de conflito. Se na entrevista a posição da fonte não ficou bem clara, o jornalista pode entender de modo diferente. A reportagem da Folha tem grande componente político, que ainda não foi bem assimilado e explicado na história do país. A matéria não foi produzida apenas porque há 40 anos o grupo Var-Palmares planejou o sequestro de Delfim Netto. Muitos outros sequestros foram certamente planejados. A notícia, no caso é o envolvimento de Dilma Rousseff – provável candidata a presidente pelo PT – no planejamento das ações. Não devem existir pruridos para mexer com o passado de quem militou no período da ditadura. Qualquer que seja o lado. E principalmente de quem quer ser candidata a presidente da República.

A propósito da fonte, o jornalista Antonio Carlos Azenha diz no seu Blog “quem mandou dar trela à Folha? Acabou usado para um jogo político”. O Ombudsman na análise deste domingo toca num outro ponto importante. Entrevistas sobre temas polêmicos, questionamentos ou denúncias não devem ser dadas por telefone, mas pessoalmente. Essa é uma boa dica.

Mesmo preservadas com a gravação – que deve ser feita também pela fonte - , fica sempre aquele diálogo eletrônico, em que jornalista e fonte não se vêem, não se conhecem e muitas vezes essa distância leva a interpretações que não agradam a fonte.  Mesmo quando o jornalista está em outra cidade, se o entrevistado não tiver absoluta convicção de que pode com tranquilidade atendê-lo por telefone, pode-se condicionar a concessão da entrevista à presença do jornalista.

Mas, de quem partiu a iniciativa da entrevista, se o tema era tão complicado? Do jornal, provavelmente. Mas ninguém é obrigado a dar entrevista. Se você não disser, não será publicado, não haverá entrevista.  O desgaste de jornalista e fonte são inevitáveis nesses casos. Isso é muito comum, principalmente quando toca em temas sobre os quais a fonte não quer dar todas as informações. A precipitação do ex-dirigente em divulgar sua longa carta em outras publicações também não ajudou a resolver a polêmica. O imbróglio envolvendo as versões da jornalista e da fonte, nesse caso, é tão complicado quanto a história não contada do pseudosequestro de Delfim Netto.

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