CrocodiloDois episódios na semana mostram como acontecimentos banais, sem nenhum ingrediente explosivo, podem acabar em crise. O Palácio do Planalto promoveu uma concorrida festa para cerca de 300 pessoas, pela comemoração do dia da secretária, em 30 de setembro.

Nada contra, até porque as secretárias merecem. Além do coquetel e show, a festa foi concorrida porque distribuiu valiosos prêmios que iam de simples sacolas com canetas e agendas até passagens aéreas para o exterior, lingeries e hospedagem em hotéis.

Nada mais justo, se os mimos distribuídos não tivessem excedido o valor fixado no código de conduta dos servidores públicos, que proíbe o recebimento de presentes acima de R$ 100,00. Como o conteúdo de alguns kits e as passagens passavam desse valor, estava criado um grande problema para a Casa Civil, promotora da festa.

Não foi informado como a Secretaria de Administração da Casa Civil conseguiu os brindes, mas foram citadas pelo imprensa as empresas Tam, Ocean Air, Gol e Webjet e até uma joalheria. A Tam apressou-se em desmentir a doação de brindes. Somente as sacolas com o nome da empresa foram usadas para distribuição. Outras empresas confirmaram.

Resultado da comemoração: a casa Civil mandou devolver os presentes para evitar que a inocente festa das secretárias se transformasse em mais uma crise para o Planalto.

Em Canberra, na Austrália, um menino de sete anos conseguiu matar vários animais para alimentar um crocodilo de 200 quilos e 3 metros de comprimento. Ele matou a pauladas ou entregou vivos uma tartaruga, quatro lagartos de língua azul, dois lagartos barbudos, dois lagartos “diabo espinhento” e uma lagarta gigante fêmea de 1,8 metro de comprimento. Em vez das secretárias, lá quem fez a festa foi o crocodilo de água doce.  As cenas foram gravadas e mostram as estripulias do menino, sem ninguém por perto para intervir.

O menino foi encontrado depois e a polícia decidirá se processa os pais. O diretor do zoológico disse que o garoto correu sério risco de ser arrastado ou atacado pelo crocodilo, pela idade e pela sua inexperiência em lidar em esses animais.

O que os dois fatos têm em comum? São todos estopins para crises. Não é de hoje que o patrocínio de brindes ou eventos, muito comum na Esplanada dos Ministérios, coloca em risco a isenção que órgãos públicos devem ter quando lidam com assuntos da área privada. Empresas aéreas são reincidentes em se envolver nesse tipo de agrado. No ano passado, a TAM patrocinou o Cirque du Soleil e fez sessões fechadas para convidados vips. O valor dos ingressos era bem superior aos R$ 100,00 permitidos para presentes. O problema não é só de quem oferece, mas dos que aceitam.

Empresas estatais e privadas também se envolvem com patrocínios para órgãos do Judiciário, fato denunciado pela imprensa como suspeito do ponto de vista ético,  quando empresas patrocinadores têm processos pendentes de julgamento.

Tanto os brindes quanto os patrocínios não ficam bem para nenhum dos lados. Empresas públicas ou autarquias devem estar atentos a ofertas de presentes e não cair na esparrela de aceitar, sem questionar, e ter que explicar depois. Em muitos casos, a própria repartição pública solicita o pagamento da festa. No reveillon de 2006, a Prefeitura de Fortaleza passou por apertos para explicar o patrocínio da festa de fim-de-ano, depois de ter utilizado verba paga pelo Banco do Brasil, decorrente da aquisição da folha de pagamento.

E o que tem isso a ver com o crocodilo? O zoológico de Canberra deve estar passando pelo mesmo aperto, porque também se descuidou no detalhe. Como um zoológico, com animais selvagens, não identificou uma criança de sete anos, que pulou uma cerca e fez uma matança de animais na calada da noite. E as câmeras, os seguranças estão lá para quê?

Fica difícil agora explicar para a sociedade como foi possível acontecer um desatino desses. E se o menino tivesse sido atacado pelo crocodilo, como admite o diretor do zoológico? O risco da tragédia andou rondando a incompetente segurança desse zoológico. Uma criança de sete anos pode circular sozinho pelo zoológico, a ponto de fazer uma matança e ninguém ver?

Ao fim e ao cabo damos razão aos especialistas em crise que asseguram: as crises não são surpreendentes. Raríssimas acontecem por fatalidade. As empresas e organizações é que relaxam, não se previnem e acabam tendo que explicar fatos banais, que poderiam ser evitados se alguém, com bom senso, tivesse o cuidado de analisar quem está pagando a festa e os brindes. Ou o risco de crianças circularem no meio dos animais, sem qualquer segurança.

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