Fake News aberjeSe há uma coisa que o período da pandemia agravou foi a credibilidade e o poder das redes sociais, colocando em xeque informações não comprovadas. Desde o início de 2020, pesquisas apontavam que o aumento das fake news, principalmente as relacionadas à Covid-19, levou leitores e usuários das redes a procurarem outras fontes, não confiando em muito do que era publicado nas mídias sociais. Como se sabe, as redes sociais emergiram como uma poderosa ferramenta para a expressão e o engajamento político. Daí o perigo de se transformarem em instrumento de distorção da verdade e até de mais um instrumento político para, deliberadamente, enganar os eleitores.

A manipulação da opinião pública via plataformas de mídia social emergiu como uma questão crítica ante uma sociedade contemporânea digital. Dados recentes mostram isso. Uma das pesquisas mais conceituadas, feita anualmente, sobre credibilidade, é conduzida pela empresa americana de PR Edelman. Trata-se do Edelman Barometer, pesquisa feita em 28 países de maior PIB, com cerca de 33 mil pessoas, abrangendo vários segmentos que opinam, principalmente, sobre confiança nas instituições. No trabalho deste ano, divulgado em maio (pesquisa realizada até dez/2020), ao avaliar o percentual de confiança de cada setor de indústria, a área de tecnologia aparece em primeiro lugar, como habitualmente tem acontecido, seguida de manufatura e indústria da saúde. Esta, certamente, pelo protagonismo da saúde, no ano de pandemia. Mas, todas as indústrias perderam credibilidade na pesquisa.

Na outra ponta, denotando baixa confiança, as redes sociais aparecem em último lugar, nos segmentos pesquisados, com apenas 46% de aprovação; em penúltimo, o setor financeiro com 53% (perdeu 5 pontos) e o de moda que obteve índice de 58%, mas perdendo 6 pontos em relação a 2020.

Edelman Confiança na indústria maio 2021Quando a pesquisa avalia a credibilidade das informações de cada fonte, que vão do governo, passando por reportagens jornalísticas, publicidade, veículos da empresa, as redes sociais são as que têm o índice mais baixo de credibilidade: são confiáveis apenas para 39% dos respondentes. Esse quadro se agravou no decorrer da pandemia, porque muitas das informações, disseminadas pelas mídias sociais, por não serem verdadeiras, acabam enganando quem deveria ser informado. Não confiando nas redes sociais, como fonte de informação, a opinião pública fica exposta a charlatões e aventureiros ou, na pior hipótese, desinformada.

É a própria Edelman que constatou isso na pesquisa, de modo geral: "A pandemia Covid-19, com mais de 1,9 milhão de vidas perdidas (em 16 de junho de 2021, já eram 3 milhões 840 mil mortos) e desemprego equivalente à Grande Depressão, acelerou a erosão da confiança em todo o mundo. Isso é evidente na queda significativa na confiança nas duas maiores economias: EUA e China. Os governos dos EUA (40 por cento) e da China (30 por cento) são profundamente desconfiados pelos entrevistados dos outros 26 mercados pesquisados. E o mais notável é a queda na confiança entre seus próprios cidadãos, com os EUA, já no quartil inferior de confiança, experimentando uma queda adicional de 5 pontos desde a eleição presidencial, em novembro de 2020 e a China tendo uma queda de 18 pontos desde maio de 2020."

Não vou condenar 100% a informação que recebemos hoje através dos meios de comunicação, nem vou elogiá-la 100%. Se um cidadão gastar um pouco de seu tempo em adquirir cultura, ler livros, sair um pouco de casa e perguntar sobre o que está ocorrendo, se buscar mais de uma fonte, terá a possibilidade de criar um critério próprio para interpretar e entender o que ocorre. (Fernando Aramburu, escritor espanhol, autor de “Pátria”).

Mas por que as redes sociais se tornaram uma fonte inesgotável de fake news? Provavelmente, porque possibilita a qualquer pessoa se transformar em protagonista, fonte da notícia, não importam os critérios para apuração do fato ou a intenção da fonte. Hoje, muitos relatos não têm dono, começam a ser disseminados sem qualquer responsabilidade, ferindo a boa prática do jornalismo, e se tornam virais, nas redes sociais, sem que ao menos se saiba a origem da notícia.

Os jornalistas perderam o monopólio da pauta e da produção da notícia. O que restou nas redes sociais, em sua maior parte, não é jornalismo. Qualquer cidadão com um celular pode ser um repórter por um dia e dar um furo na grande mídia. Ou espalhar notícias falsas, com a mesma ânimo com que publica outra verdadeira. Já há estudos apontando que nos momentos políticos decisivos, como aconteceu na eleição do Brasil em 2018; e na dos EUA, em 2020, essa prática se transformou numa verdadeira infodemia.

A horizontalidade na captação e disseminação de informações permite que a notícia séria concorra com teorias conspiratórias, como deixou bem evidente a batalha das fake news disseminadas, tanto na eleição de 2018, quanto no Brasil, em relação a vacinas, tratamento precoce, uso de remédios ineficazes, distanciamento social, desde o início de 2020, na pandemia. Essa pseudoliberdade permite que se escreva o que quiser, sem correr risco de ser processado, levando as redes a serem um fonte tóxica de fake news, como aconteceu, com a maior desfaçatez, no governo Trump. Ele, um dos maiores propagadores desse tipo de prática, a ponto de ser banido de algumas redes.

Como fugir desse dilema

O escritor Fernando Aramburu diz que “Um escritor não fala apenas aos cérebros de quem lê seus livros, mas também aos corações, a todo um mundo de emoções que cada um leva consigo na vida. Mas, se ele escutar apenas uma voz, um discurso, o de sua bolha, tudo o que pensa estará determinado por essa voz. Não satanizo todos os jornalistas. Existem os de qualidade e os que não cumprem bem seu trabalho.”

“O que caracteriza esse tempo atual é que qualquer coisa que ocorra no mundo já é suscetível de informação. Agora mesmo, numa ilha do Pacífico, cai um avião, e isso salta nos jornais do planeta, abarcamos uma imensa quantidade de realidades suscetíveis de gerar informação. E temos apenas um cérebro. Então, processar essas quantidades imensas de informação, que, às vezes, vêm embrulhadas numa opinião, é muito difícil.”

O que Aramburu defende é criarmos nossos mecanismos de checagem, primeiramente evitando espalhar posts, notícias, vídeos sobre os quais não temos controle, nem informação completa. E, em segundo lugar, corrigir aquilo que conscientemente sabemos ser falso e fabricado. “Creio que os cidadãos devem adotar uma postura ativa para saber o que ocorre ao seu redor, e não ter uma atitude passiva diante de uma tela, esperando que lhes digam o que têm de saber, de sentir, de pensar. Porque aí sim estarão numa posição de debilidade, em que as fake news realmente podem ter êxito com essas pessoas.”

Segundo o escritor, “a sobrecarga de informações ajuda a espalhar notícias falsas e a mídia social sabe disso. Compreender como os manipuladores de algoritmo exploram nossas vulnerabilidades cognitivas nos capacita a contra-atacar.” E uma das boas ações que qualquer leitor pode ter é primeiro não replicar mensagens sobre as quais não tenha comprovação ou não venha de fonte credenciada. Segundo, não divulgar notícias precipitadamente. Lamentavelmente, as redes sociais, sobretudo, se tornaram um estuário de notícias falsas pela facilidade de disseminação, para milhões de usuários. Que, por sua vez, no afã de “dar um furo” espalham notícia que foi divulgada, muitas vezes, sem a devida apuração. De lembrar que já existem mecanismos legais para investigar e processar quem dissemina inverdades ou ataques pessoais, irresponsavelmente.

A desinformação política

Estudo realizado pelo Internet Institute da Universidade de Oxford concluiu que a manipulação de campanhas políticas nas redes sociais continua se alastrando pelo mundo. De 70 países que foram afetados em 2019, saltou-se para 81 em 2020. Dentre esses países, está o Brasil. Isso indica a crescente ameaça da desinformação nas mídias sociais às democracias ao redor do mundo.

O relatório apontou para três tendências que envolvem propagandas nos meios digitais. Além do aumento da utilização de tropas cibernéticas como forma de espalhar desinformação e propaganda, esses movimentos têm se profissionalizado e, inclusive, sido procurados por agentes públicos. O estudo deixa bem claro que são utilizadas tropas cibernéticas para espalhar desinformação de forma profissional, inclusive no Brasil.

Em 48 países, agentes de Estado contrataram empresas privadas para realizar campanhas manipulativas. Essas empresas acumularam receitas de US$ 60 milhões desde 2009. O Facebook relatou que já foram gastos US$ 10 milhões em propaganda política por tropas cibernéticas ao redor do mundo em sua plataforma. A desinformação passou a ser produzida em escala industrial por governos, empresas de relações públicas e partidos políticos.

E no Brasil?

Segundo artigo publicado no site tele.sintese, “No Brasil, a pesquisa identificou três propagadores de desinformação: agências do governo, políticos e partidos, inciativa privada e cidadãos, além de influenciadores. Apenas organizações da sociedade civil não foram consideradas disseminadoras de manipulação cibernética.

“A última tendência do relatório diz respeito a movimentação recente das mídias sociais, que até então se declaravam neutras. As redes deletaram 317 mil contas e páginas de tropas cibernéticas entre janeiro de 2019 e novembro de 2020. Em um dos episódios mais recentes, diversas plataformas suspenderam a conta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a invasão do Congresso em Washington por militantes da extrema-direita.

“Agora mais do que nunca, o público precisa ser capaz de depender de informações confiáveis sobre a política e atividade do governo. Redes sociais precisam melhorar seu jogo, aumentando seus esforços para indicar desinformação e fechar contas de fake news sem a necessidade da intervenção do governo”, defendeu Philip Howard, diretor do Oxford Internet Institute e co-autor do relatório.”

Em resumo, o que surgiu de bom, como rescaldo desse primeiro ano da pandemia, após a avalanche de fake news, é que os gigantes da Internet, como Google, You Tube e Twitter já entenderam que mentiras deliberadas precisam ser contidas em redes que se propõem defender a informação correta, verdadeira e tempestiva. O Facebook já sentiu o efeito dessa política. Teve que desembolsar milhões de euros, na Europa. Donald Trump também sentiu: ele praticamente foi banido de várias redes pela quantidade de informações falsas ou suspeitas, que espalhou durante o mandato na presidência, principalmente quando sentiu que poderia perder a eleição.

Outras informações sobre o artigo

Buscar mais de uma fonte de informação ajuda a combater 'fake news'

The global organization of social media desinformation campaigns

 

 

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