NeymarUm jogador de futebol deveria estar nas manchetes pelos lances geniais ou gols que marca ou defende. Ele passa a semana toda treinando, joga uma ou duas vezes por semana. Ele tem 90 minutos para mostrar o trabalho e brilhar. Quando se projeta, como Neymar e tantos outros, superando uma vida difícil, até mesmo de pobreza, são negociados por valores milionários, que se transformam também em participações e salários nababescos. Alguns poucos, muito poucos viram celebridades. É uma mudança de patamar muito rápida, para a qual a maioria não está preparada.

O que faz, então, um atleta frequentar com certa assiduidade as páginas policiais, em vez das páginas esportivas? Erros, tropeços, más companhias, envolvimento com drogas, romances conturbados, aventuras e até crimes. Exemplos não faltam, no Brasil. Bruno e Adriano são exemplos recentes. Mesmo no exterior, jogadores famosos, não importa a modalidade do esporte, volta e meia se envolvem em escândalos. E, por serem celebridades, vão parar nas manchetes. Cristiano Ronaldo, Messi e mesmo Neymar recentemente estiveram citados em investigações de sonegação de impostos.

Por que nem todos os jogadores famosos se envolvem em escândalos? Talvez porque sejam melhor preparados. Pela família, pela base que trouxeram da escola e do lar,  ou por uma boa assessoria. No caso de Neymar, não é de hoje o envolvimento do jogador com fatos alheios à carreira no futebol. Polêmicas com juízes, por reclamar demais; contusões que o tiram de decisões; investigação sobre ganhos não tributados, na contratação pelo Barcelona. Na Copa do Mundo na Rússia, onde muitos cronistas esportivos indicavam que ele iria brilhar, acabou saindo como vilão, até porque ao cair sistematicamente no gramado, durante os jogos do Brasil, e reclamar acintosamente, muitos juízes nem marcavam falta, devido à fama de cai-cai que adquiriu desde os tempos do Santos. Acabava até recebendo cartão amarelo, por reclamações. Ele exagerava nas faltas, para que o juiz marcasse, talvez. 

Aos poucos, no exterior, ele foi corrigindo essa forma bizarra de jogar. Mas, pelo fato de não ter brilhado na Copa do Mundo, como todos esperavam, acabou saindo chamuscado numa competição em que outros jogadores desconhecidos começaram a brilhar. Não é fácil para quem não conseguiu ainda amadurecer para a carreira, pageado sempre pelo pai, conviver com a crise. E Neymar já demonstrou que tem o pavio curto, como no episódio de um suposto tapa num torcedor do Paris Saint-German, após o jogo em que seu time perdeu, em Paris.

Uma escorregada amadora

Agora, Neymar se envolve em nova polêmica, ao aceitar sugestão de uma internauta brasileira, que o teria contactado pelo Instagram, para que ela fosse à França se encontrar com ele. Para quem vive cercado de seguranças, foi um tremendo fora, porque uma aventura dessas, pra começar, sempre é arriscada. Ao que consta, ele não conhecia a “partner”. Mas, o pior ainda estava por vir. Ao regressar, a visitante o acusou de estupro. Os advogados da denunciante, que romperam o contrato, dizem que aceitaram o caso, porque a denúncia era de agressão. Ao acusá-lo de estupro, a mulher teria rompido o acordo com os advogados. 

O atleta, provavelmente orientado por advogados, resolveu vir a público porque se sentiu chantageado, uma vez que os advogados da denunciante já haviam contactado os advogados de Neymar, logo após o episódio.  Ele, que provavelmente percebeu algo estranho, disse que caiu numa “armadilha”. Vídeos circulam na Internet com cenas de Neymar num quarto de hotel e a denunciante forçando a barra para ele batê-la. O novo advogado da suposta vítima de estupro, contratado agora, assegura que foi "tudo gravado por ela."

No caso de Neymar, ao expor publicamente diálogos e imagens íntimas do encontro de Paris, ele pode ter cometido crime de sigilo informático, ou seja, expor em rede social dados privados, sem autorização da pessoa. Agravado pelo fato de as imagens vazadas terem também como protagonista o próprio Neymar. De qualquer modo, a estratégia foi expor a moça que o denunciou, para deixar claro que a relação foi consensual, como se depreende dos diálogos que ocorreram antes e depois do encontro. 

O que pode dar errado

Neymar acertou em denunciar imediatamente a tentativa de extorsão, se houve. Se a mulher queria assustá-lo com a denúncia, ele não se atemorizou. Imediatamente a denunciou publicamente. A TV Globo identificou a mulher. Só que o atleta se precipitou – talvez mal aconselhado – em divulgar esses diálogos privados em rede social, para todo mundo. A nosso ver, ele poderia ter entregue essas imagens à Justiça, ficando a cargo do juiz liberá-las ou não. Se Neymar conseguir se livrar da acusação de estupro, ele vai precisar de um bom advogado para se livrar da acusação de vazamento de dados pessoais da denunciante. 

Para a advogada Giselle Truzzi, especialista em direito digital, em declarações ao jornal El País, “Neymar teria cometido crime ao não respeitar a privacidade da mulher com quem se relacionou. “Apesar de ter borrado as imagens, ele pratica o delito por violar a intimidade de uma pessoa que não o autorizou a compartilhar esse material. A questão não é somente o conteúdo, mas a exposição de forma indevida”.

O que representa esse fato, em particular, para a reputação de Neymar? O momento em que aconteceu foi extremamente prejudicial à imagem, porque ocorre às vésperas de uma competição internacional, a Copa América, com o Brasil por sede. Quando o jogador estaria sob os olhos internacionais. Ou seja, se o Brasil estava colocando toda sua aposta numa conquista, como está a cabeça do principal jogador para ser o “pusher” do time, nessa competição? Não deve estar boa. Uma corrente da CBF defendeu ontem a saída de Neymar do grupo que irá disputar a Copa América, mas essa parece não ser a vontade do atleta, nem a disposição de Tite e dos colegas. Por enquanto, o ambiente na seleção está preservado. De qualquer modo, o atleta tem uma enorme crise para administrar, por causa de um breve relacionamento, muito mal administrado. Se realmente não houve estupro, como parece, quem pode ser processada por denúncia falsa é a parceira do jogador.

O prejuízo de Neymar também pode ser com os patrocinadores, porque algumas marcas certamente não ficaram nada satisfeitos pelo fato de o jogador aparecer nos últimos tempos mais nas páginas policiais ou de fofocas do que nas páginas esportivas. Faltou uma boa assessoria ao jogador, para ele não cometer erros desse tipo de forma recorrente. Precipitar-se nessas ocasiões tem um preço muito alto. Não se sabe ainda quais os próximos passos da Justiça, mas carros da polícia já estiveram na Granja Comari, em Teresópolis, para entregar uma intimação aos jogador quanto ao vazamento das informações privadas. Nessa hora, além da versão da suposta vítima, que pode ou não estar chantageando o jogador,  dar explicação à polícia não deve ser boa coisa para uma celebridade que vive num mundo à parte.

Os efeitos negativos desta crise de Neymar podem ser vários, atingindo e envolvendo várias pessoas. O primeiro advogado da denunciante já foi chamado para dar explicações à OAB. A moça que gravou um vídeo, também pode ser processada por falsa denúncia; o pai de Neymar, por tabela, também pode entrar no processo, porque deu entrevista, tentando defender o atleta, e expôs fatos íntimos do casal. Esta semana sobrou ainda para o repórter esportivo Mauro Naves, da TV Globo. Ele foi afastado das funções, por ter compartilhado os dados do pai de Neymar (que ele tinha, provavelmente, por cobrir esportes) com um advogado. A rigor, isso nada tinha a ver com seu trabalho, a não ser abrir uma brecha para algum furo de reportagem.

O que fica demonstrado nessa crise de Neymar, num mundo conectado 24 horas online, onde não escapa nada ao escrutínio público, é que contratos milionários e múltiplos patrocinadores, muitos de marcas famosas, não dão à celebridade a capacidade e o discernimento para escapar de crises e de "armadilhas. Só o tempo, uma avaliação rigorosa dos erros e uma boa assessoria, na qual o atleta confie totalmente, além de uma avaliação da interferência do pai do atleta, poderão minimizar e evitar a possibilidade de o jogador continuar sendo uma usina de crises.

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