Parte do mundo acordou na manhã de sábado, 28 de fevereiro, com as manchetes internacionais anunciando que os Estados Unidos, junto com Israel, haviam iniciado bombardeios ao Irã. Várias incursões foram realizadas contra a capital Teerã e cidades do interior, nas primeiras horas. A primeira coisa que a maioria da população se perguntou é se o Irã havia atacado um desses países. Não. Na início da noite em Washington; 8 horas da manhã em Tel Aviv e 10 horas em Teerã, os EUA, junto com Israel, iniciaram o bombardeio sobre a capital e algumas cidades do interior do Irã.
As explicações sobre o porquê do ataque são bizarras, até inacreditáveis. Primeiro, o secretario de Estado dos EUA, Marco Rubio, tentou explicar, dizendo que os EUA resolveram atacar, após Israel iniciar os bombardeios. Desmentido, depois, por Donald Trump que, no seu costumeiro autoelogio e arrogância, disse que os EUA resolveram atacar primeiro, porque o Irã não parecia disposto a fazer um acordo sobre as ogivas nucleares, o secretário tentou consertar: "Eu nunca disse que atacamos porque Israel ia atacar."
Tanto os países das Américas, quanto a União Europeia (aliada dos Estados Unidos) não foram avisados das ações das forças armadas americanas. Não causa estranheza, porque, num desrespeito histórico e inédito, o presidente americano sequer solicitou autorização do Congresso de seu país, para iniciar uma guerra, conforme prevê a Constituição dos EUA. E, numa acintosa afronta política, tampouco comunicou aos países aliados, incluindo vários com bases militares americanas no Golfo Pérsico, que iria tomar uma decisão tão drástica contra um país asiático.
Segundo jornalistas americanos, Donald Trump teria decidido bombardear o Irã minutos depois de saber que Israel estava atacando a república dos aiatolás. Ou seja, decidiu por impulso atacar outro país, sem que os americanos também ficassem sabendo. Seria tática de guerra? Receio de que o vazamento provocasse manifestações? Ou que o Congresso americano não aprovasse? Ou irresponsabilidade mesmo, como se o presidente americano não devesse satisfação a ninguém? Afinal, Donald Trump tem se especializado durante o mandato em tomar decisões absurdas, por conta e risco, sem consultar o Congresso do país, como é muito próprio dos ditadores. Assim ocorreu com a tosca intervenção na Venezuela, prendendo e sequestrando o autocrata presidente Nicolas Maduro, o levando para ser julgado nos EUA, como se o país fosse o justiceiro do mundo. Seria a intenção de Trump fazer o mesmo com o Irã?
Uma guerra para chamar de sua
A guerra particular de Trump, estimulada pelo premier de Israel, Benjamim Netanyahu, foi desencadeada sem um objetivo definido. Se a intenção alegada fosse impedir que o Irã avance na produção de ogivas nucleares, até agora, ao que se sabe, os bombardeios não teriam atingido os protegidos abrigos subterrâneos do Irã. No primeiro dia, tentando atingir uma unidade militar no interior do país, os Estados Unidos provocaram uma tragédia imperdoável: bombardearam uma escola de meninas, na hora das aulas, causando a morte de 165 alunas e profissionais da escola. Ato que mereceu o repúdio da Unicef e de diversas organizações e ongs internacionais.
Os bombardeios americanos estão procurando atingir unidades do governo e militares, como aconteceu com a destruição do bunker onde morava o líder do Irã Ali Khamenei e sua família. A tática de Trump é castigar o Irã para que o povo provoque a mudança do regime. Mas, até agora, passados cinco dias dos ataques, a resiliência e a reação dos militares do Irã está provocando um caos nos países próximos ao Golfo Pérsico. O Irã imediatamente revidou os ataques, atingindo Israel com uma chuva de mísseis, a maioria interceptada pelas defesas israelenses.
Entretanto, o Irã não se limitou a atacar Israel. Em resposta aos EUA, bombardeou várias bases americanas na região, prédios de embaixada dos EUA e até uma base na União Europeia, no Chipre, fazendo os países da Europa se colocarem em estado de alerta diante da possibilidade de os ataques dos EUA e Israel ao Irã provocarem retaliação no seus próprios territórios.
Quanto a Israel, sempre apoiado pelos Estados Unidos, mantém os ataques ao Irã, sofrendo por outro lado uma avalanche de ataques de drones ao país, a maioria neutralizado pelo poderoso sistema de defesa do país.
Alguns flashes da imprensa ou de colunistas sobre a crise no Oriente Médio
“Dos 15 milhões de barris que passam por Osmuz todo dia, 5 milhões vão para a China, 2 milhões para a a Índia e 1,7 milhão para o Japão, mesma quantidade recebida pela Coreia do Sul. (O Globo)
O que aparece para muitos iranianos é um dilema entre a terrível repressão dos aitolás e a alternativa oferecida pelos ocidentais, que não é liberação, mas colapso. Para eles, o país é refém de um regime, como se vivessem numa casa de ódio, aterrorizados pelo fogo exterior – pelo destino dos vizinhos. (Fernando Gabeira).
“A situação do presidente norte-americano também não é fácil. Numa guerra há sempre o imponderável. Ele não consegue marcar a data do fim do confronto. As restrições ao fornecimento do petróleo afetará o preço interno que, nos Estados Unidos, segue automaticamente a cotação internacional. Trump disse que não iniciaria uma nova guerra e está fazendo o oposto do que prometeu.” (Miriam Leitão, O Globo, 03/03/26).
“É cedo para estimar o impacto econômico da guerra que EUA e Israel movem contra o Irã. Mas, se o conflito se prolongar, pode produzir um movimento de alta global de preços, semelhante aos que vimos no pós-pandemia e na invasão da Ucrânia, com consequências eleitorais em várias partes do planeta, inclusive no Brasil.” (Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 04/03/26).
“Enquanto aviões de guerra dos Estados Unidos e de Israel continuam a bombardear cidades iranianas, os aliados europeus voltaram a ocupar um lugar familiar: o de espectadores. O presidente Donald Trump excluiu-os do planejamento de um conflito com implicações diretas para a segurança do continente”. (O Globo, 03/03/26)
“O inimigo deve aguardar ataques punitivos contínuos; os portões do inferno se abrirão cada vez mais, momento a momento, sobre os Estados Unidos e Israel”, disse Ali Mohammad Naini, porta-voz do governo do Irã, à TV estatal. (The Times, 03/03/26, Londres).
“Até mesmo membros do gabinete americano “não têm certeza do que virá a seguir, porque Trump é muito imprevisível e errático”. Nosso aliado mais próximo, tradicionalmente, os Estados Unidos, a superpotência em torno da qual construímos toda a nossa segurança, tornou-se profundamente errático, imprevisível e emocional. Não está claro qual é o objetivo da guerra. É possível, embora improvável, que uma mudança de regime possa ser alcançada por meio de bombardeios. É bastante improvável, não há precedentes de sucesso para isso.” (Lord Hague de Richmond, ex-secretário de Relações Exteriores do Reino Unido).
O membro da Câmara dos Lordes pelo Partido Conservador alertou que Trump “pode se tornar mais imprevisível e fazer coisas ainda mais ultrajantes” em seu segundo mandato. (The Times, 03/03/2026)
“Centenas de mortos no Irã desde o início dos ataques” O Crescente Vermelho iraniano afirmou que mais de 780 pessoas foram mortas em todo o país desde o início dos ataques dos EUA e de Israel. A organização disse que mais de 1.000 ataques desde sábado atingiram 153 cidades e mais de 500 localidades em todo o Irã.”
“É preciso haver provas de uma ameaça iminente aos EUA”. O senador americano, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, afirmou que “não havia ameaça iminente” aos EUA antes dos ataques ao Irã. O senador democrata Mark Warner disse: “Havia uma ameaça a Israel. Se equipararmos uma ameaça a Israel a uma ameaça iminente aos Estados Unidos, estaremos em território desconhecido.” (The Times, 03/03/26).
“A alegria no Irã se transformou em incerteza. No Irã, a esperança inicial de que o assassinato do líder supremo pudesse anunciar uma mudança rápida está dando lugar ao medo do que acontecerá a seguir. “Estamos comemorando em particular”, disse um morador de Mashhad ao jornal britânico “The Times”. “Muitos iranianos não estão comemorando publicamente, pois o regime os prenderá.” (The Times, 03/03/26)
“A noite de sábado foi memorável, foi o melhor momento das nossas vidas. Comemoramos com os amigos, demos uma festa e nos divertimos muito. Esperamos ser livres em breve e viver nossas vidas de acordo com a nossa vontade. Não dormimos por muitas noites e ainda nos sentimos revigorados. Sou a favor da mudança de regime. Mas sou contra a operação militar, pois ela levará a derramamento de sangue e agitação civil.” (Depoimento de estudante iraniano ao jornal The Times, 03/03/26).
“O míssil atingiu a escola durante o período da manhã. No Irã, a semana escolar vai de sábado a quinta-feira, então, quando as bombas americanas e israelenses começaram a cair por volta das 10h da manhã de sábado, as aulas estavam em andamento. Em algum momento entre 10h e 10h45, um míssil atingiu diretamente a escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, demolindo seu prédio de concreto e matando dezenas de meninas de sete a doze anos”. (The Guardian, 03/03/26). O número oficial divulgado sobre as mortes de crianças e profissionais da escola é de 165 pessoas.
A colunista Marine Hyde, do jornal britânico The Guardian, resumiu o que pode acontecer, a partir dos ataques. "A guerra é o reino da incerteza", disse Carl von Clausewitz, que – e sem querer ser maldosa – ainda considero um teórico militar mais impressionante do que Pete Hegseth. Certamente, Carl tinha menos tatuagens das Cruzadas do que o secretário de defesa dos EUA. Hegseth tem 100% de certeza sobre todas as suas posições, mesmo as que parecem estar em conflito entre si. E parece um ótimo sinal que ele, Marco Rubio e JD Vance já pareçam ter justificativas diferentes para o início desta guerra. Esta é uma administração que chegou ao poder com a promessa explícita de "chega de guerras".
“Claro que não! Trump e seus aliados nem sequer amam a democracia em seu próprio país, então não vão querer exatamente uma para um desses chamados países de merda. São muitas variáveis. Pense nisso como uma guerra de renovação de regime. Você ainda não conseguirá distinguir os aiatolás, mas, idealmente, o novo líder terá um perfil mais fantoche, como o da Venezuela. Não sei quanto a "mulheres" e "liberdade" e coisas do tipo, mas imagino que Hegseth não se importaria nem um pouco com o fato de esses temas estarem na lista de prioridades.”
O colunista do New York Times, Ezra Klein, em denso artigo publicado em 03/03/26, analisa a decisão americana de atacar o Irã. “Não creio que o que estamos vendo aqui seja uma política de mudança de regime. Eu chamaria isso de política externa de "cabeças em estacas". Os Estados Unidos estão demonstrando que podemos facilmente invadir países mais fracos para matar ou capturar seus chefes de Estado. Não nos deixaremos dissuadir por leis internacionais, pelo medo de consequências imprevistas ou pela dificuldade de convencer o povo americano ou o Congresso dos Estados Unidos da necessidade de uma guerra. Nem sequer tentaremos.
“Não nos importamos particularmente com quem substituirá as pessoas que matamos. Não insistiremos que venham de fora do regime, nem que sejam eleitos democraticamente. A única coisa que nos importa é que quem vier depois de nós nos tema o suficiente para obedecer quando fizermos uma exigência — que saibam que podem ser os próximos a serem decapitados.
“Aparentemente, Trump acredita que pode decapitar esses regimes e controlar seus sucessores — sem que os eventos saiam do seu controle. Ele parece acreditar que foi a idiotice, a covardia ou um respeito juridicamente formal pelas normas internacionais que impediu seus antecessores de substituir líderes estrangeiros que detestavam por subordinados mais maleáveis.
“Trump é um homem que não leu muita história, mas que certamente pretende escrevê-la. Mas e se o Irã não for a Venezuela? E se o povo iraniano se rebelar, como Trump pediu, e for massacrado pelos militares iranianos? E se o Irã mergulhar em uma guerra civil, como aconteceu no Iraque, onde os Estados Unidos tinham tropas em solo iraquiano, e mesmo assim centenas de milhares de iraquianos foram mortos? E se seguir o caminho da Líbia, do Iêmen ou da Síria? Quem pagará o preço se Trump estiver errado?”
Conclusão
O fato é que o mundo, surpreendido pela decisão intempestiva e de certa forma injustificada do presidente americano de atacar o Irã, matando a principal autoridade do país, é um tiro incerto. Trump atacou, certamente, na esperança de uma reação popular, facilitando a queda do regime autocrático e religioso do país. Ninguém aposta no que possa resultar dessas ações dos Estados Unidos e Israel. Há muitas perguntas e poucas respostas. Enquanto isso, países-chave nesse tabuleiro, como China, Rússia, Inglaterra, França, Arábia Saudita e até o Brasil, entre outros, estão acompanhando de perto o que acontece para poderem tomar uma posição referente ao conflito. A incerteza desses países tem mais a ver com a economia do que com os direitos humanos. A instabilidade política do Irã, diante de um conflito que pode se arrastar, mobiliza e preocupa todos os países que têm algum tipo de relação comercial com aquele país ou negócios que precisam de paz e normalidade para prosseguir.
Fotos: Bombardeio sobre a capital Teerã, em 28/02/26; Donald Trump e o secretário de Defesa dos EUA, Peter Brian Hegseth; velório das estudantes mortas numa escola; explosão em Manama, capital do Bahrein.
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