Em 27 de janeiro de 2013, o Brasil foi acordado por uma das maiores tragédias do país, com o incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), que matou 242 jovens. Ali se consumou, em toda sua dimensão, um dos maiores crimes cometidos no país pela irresponsabilidade e erros primários dos donos da boate e do conjunto musical Gurizada Fandangueira, que provocou o incêndio. Mas também pela omissão das autoridades e de vários órgãos públicos, incluindo prefeitura e bombeiros, que deviam ter fiscalizado, autuado e fechado aquela verdadeira arapuca que resultou na morte de tantas pessoas.
Em Santa Maria, foi exposta da pior forma a omissão dos órgãos públicos em fiscalizar ambientes de grandes aglomerações, que, no caso, não tinha as mínimas condições de segurança para reunir cerca de mil pessoas, num ambiente fechado, apertado, sem saída de emergência e com lotação acima da capacidade. Ou seja, uma tragédia anunciada.
Passados 13 anos do incêndio de Santa Maria, no primeiro dia de 2026, por volta de 1h30 (21h30 de quarta-feira pelo horário de Brasília) tragédia muito semelhante ocorreu num dos países detentores de uma das melhores reputações do mundo, por qualquer indicativo que se olhe, principalmente segurança e pelo funcionamento exemplar das instituições. Qual o risco que um turista teria ao ir passar férias na Suíça e ser surpreendido por uma tragédia ou acidente de grandes proporções?
A Suíça não é famosa apenas pela qualidade dos seus relógios e do chocolate. É uma das nações mais desenvolvidas e industrializadas de todo o mundo. A Suíça historicamente sempre adotou uma visão pacífica frente aos conflitos mundiais, além de um país conhecido pelo seu respeitado sistema financeiro e bancário. Atrai turistas de todo o mundo, mas principalmente da Europa. O país abriga diversas organizações internacionais. Além do escritório das Nações Unidas, lá estão a OMS, a OIT, a OMC, a sede do Fórum Mundial.
Falta de prevenção arranha imagem do país
O bar suíço, em Crans-Montana, cidade nos Alpes suíços, onde ocorreu o incêndio que matou 40 pessoas no primeiro dia do ano, maioria deles jovens de diversas nacionalidades, metade com menos de 18 anos, e feriu 119, não passava por inspeções de segurança há cinco anos, reconheceram as autoridades da Suíça. Esse "relaxamento" na fiscalização certamente contribuiu para a extensão e gravidade da tragédia que ocorreu naquela casa.
O prefeito de Crans-Montana, Nicolas Feraud, disse em uma coletiva de imprensa cinco dias após o acidente que não conseguia explicar por que o bar Le Constellation não havia sido inspecionado por tanto tempo, mas que a prefeitura estava "profundamente arrependida". Inspeções periódicas de segurança e contra incêndio não foram realizadas entre 2020 e 2025. “Lamentamos isso amargamente”, disse o prefeito. Segundo ele, os estabelecimentos deveriam ser inspecionados anualmente.
É lamentável que erros e falhas de prevenção, que ocasionam tragédias como essa, só venham à tona quando o fato já foi consumado. Assim foi em Santa Maria, na boate Kiss; como também no incêndio ocorrido no hospital Badim, no Rio de Janeiro, em 2019, que causou a morte de 23 pessoas; e recentemente, em Hong Kong, quando um incêndio devastador num conjunto de prédios residenciais resultou na morte de pelo menos 146 pessoas. Como em tantas outras catástrofes que poderiam ser evitadas com uma eficiente gestão de riscos e a consequente prevenção. Seria muito difícil isso?
Há exatamente um ano, em 2 de janeiro de 2024, tivemos um exemplo de uma eficiente gestão de crises, quando um avião da Japan Airlines se chocou com outro pequeno avião, que taxiava na pista, no Aeroporto de Haneda, em Tóquio. No choque, em poucos segundos o Airbus 350 da JAL pegou fogo na parte traseira e as labaredas invadiram a aeronave. Os 379 ocupantes do aparelho (12 tripulantes) conseguiram sair do avião em 90 segundos, sem ferimentos, naquilo que foi chamado de "O milagre de Tóquio". Pânico? Foi sorte? Improviso? Não. Os passageiros e tripulantes foram treinados para essa evacuação em tempo recorde. Daí o sucesso da operação.
Na Suíça, como se sabe, o incêndio começou nas primeiras horas de quinta-feira, dia 1º de janeiro, quando sinalizadores presos a bebidas foram erguidos pelos próprios empregados do bar, muito perto do teto, segundo relatório preliminar das investigações oficiais. No mínimo, uma ação totalmente irresponsável, até porque o teto era composto de material acústico, altamente inflamável. Daí porque as chamas se espalharam rapidamente.
Alguns jovens, sem dimensionar a extensão da catástrofe e pela inexperiência, ainda tentaram apagar as primeiras chamas. Sem sucesso. Não há registro de ações efetivas do estabelecimento para tentar apagar o incêndio. O que caracteriza a inexistência de gestão de riscos, com brigadas de incêndio e pessoal treinado. Não demorou para o bar se transformar num autêntico forno incandescente, com uma estrutura apertada, sem saídas de emergência, que comportassem a evacuação de dezenas de pessoas em poucos minutos.
No desespero, alguns frequentadores conseguiram quebrar janelas e escapar. Da rua, pessoas correram para ajudar. "Pensei que meu irmãozinho estivesse lá dentro, então vim e tentei quebrar a janela para ajudar as pessoas a saírem", disse um homem à BBC. Ele viu pessoas "em chamas da cabeça aos pés, sem mais roupas", segundo o jornal britânico The Guardian.
Falhas em série, dos proprietários e das autoridades
Autoridades locais continuam as investigações da tragédia. Em comunicado, a prefeitura de Crans-Montana informou que havia revisado todos os documentos enviados à Procuradoria do Cantão de Valais após o incêndio e garantiu que os documentos detalham os "procedimentos administrativos sobre a conformidade do estabelecimento".
"Embora somente em 2025 tenham sido realizadas mais de 1.400 inspeções de incêndio no município, o conselho municipal lamenta profundamente descobrir que este estabelecimento não foi submetido às inspeções periódicas entre 2020 e 2025", afirmou a prefeitura.
"Lamentamos isso - temos uma dívida com as famílias e assumiremos a responsabilidade", disse o prefeito da cidade suíça. Como se esse reconhecimento amenizasse a dor dos pais, parentes e amigos de mais de 150 pessoas, maioria jovens (40 mortos), que literalmente ficaram presos numa escada estreita para fugirem do fogo, já que não havia saída de emergência para um local que comportava 300 pessoas, quando lotado. Do ponto de vista da segurança, um verdadeiro absurdo. Houve negligência. E uma falha grave do Corpo de bombeiros local.
É de se questionar – como se perguntou na crise da boate Kiss, em Santa Maria - se nenhum político, policial, engenheiro, bombeiro ou especialista em segurança frequentou esse bar, durante os cinco anos em que deixou de ser inspecionado? O casal irresponsável, dono do bar, não tem o que possa amenizar sua responsabilidade, porque contribuiu para a tragédia, ao assumir o risco do incêndio, não apenas pelas instalações impróprias, com pela pirotecnia arriscada e altamente perigosa, conduzida por empregados do estabelecimento. Como aconteceu, em Santa Maria, com o conjunto musical na boate Kiss, pelo uso de sinalizadores em direção ao teto.
O prefeito da cidade suíça acrescentou que fogos de artifício - que acredita-se terem causado o incêndio ao serem erguidos muito perto do teto - serão proibidos em estabelecimentos da região. Portas arrombadas, trancas de ferro, diz o adágio popular. Traduzindo, faltou o mínimo de prevenção de crise nesse bar-boate. Não bastasse isso, ao se intitular “bar”, também abriu um brecha, um “jeitinho”, como se diz no Brasil, para receber adolescentes de até 14 anos, vários deles vítimas fatais no incêndio.
Segundo reportagem da BBC, “as autoridades locais contratarão uma empresa externa para inspecionar e auditar todos os 128 estabelecimentos da área. O prefeito admitiu que havia uma equipe de cinco pessoas inspecionando mais de 10.000 edifícios em Crans-Montana e não soube explicar por que o bar não havia sido inspecionado desde 2019.”
Respondendo a repetidas perguntas sobre o motivo de o bar não ter sido inspecionado por tanto tempo, o prefeito disse: "Não tenho resposta para vocês hoje. Lamentamos profundamente o ocorrido e sei o quanto isso será difícil para as famílias. Não vou renunciar, não, e não quero", acrescentou mais tarde.
Segundo reportagem da BBC, “o prefeito afirmou que caberia "aos juízes" decidir se membros da administração local seriam incluídos em uma investigação criminal aberta pela promotoria suíça. Quando o incêndio ocorreu no dia de Ano Novo, o bar parecia ter muito mais pessoas do que o permitido por lei, o que, segundo Feraud, era responsabilidade dos gerentes do Le Constellation regularizar.
A promotoria suíça abriu um inquérito criminal contra os dois gerentes do bar, identificados pela mídia local como o casal francês Jacques e Jessica Moretti. Ambos são suspeitos de homicídio culposo, lesão corporal culposa e incêndio criminoso culposo, informou a promotoria de Valais.”
Na coletiva, o prefeito afirmou que o uso de material de isolamento acústico no teto do bar e a permissão para o uso de fogos de artifício no local foram atos de extrema negligência. Questionado sobre o motivo pelo qual as autoridades não tomaram providências em relação às fotos dos fogos de artifício próximos ao teto do bar, amplamente divulgadas nas redes sociais e utilizadas como promoção do Le Constellation antes do incêndio, Feraud disse que provavelmente ninguém na prefeitura viu as imagens.
O incêndio mudou a rotina pacata da estação de esqui. O espírito comunitário do unido resort suíço, onde tantas histórias bonitas foram interrompidas ou nem tinham começado, permanece forte, mesmo com os moradores dizendo que se sentem devastados pela tragédia.
As 40 pessoas que morreram no incêndio – incluindo 21 cidadãos suíços, nove cidadãos franceses, seis italianos e uma pessoa de cada um dos seguintes países: Bélgica, Portugal, Romênia e Turquia – foram identificadas quatro dias após a tragédia. Um país pouco acostumado a acidentes como esse tenta se recuperar, fazendo um mea culpa pelo fato de um estabelecimento como esse ter funcionado há tantos anos sem qualquer vistoria.
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