pwerpoint_no_iraqueSe você é daqueles que não dispensa um PowerPoint (PPT) para qualquer tipo de apresentação, tanto em palestras externas, quanto em reuniões internas, de negócios, é bom ficar atento. Os militares americanos implicaram com o PPT e a história teria ocorrido no primeiro semestre, no Afeganistão, quando o general Stanley A. McChrystal era líder dos americanos e das forças da NATO naquele país.

Como se sabe, McChrystal foi demitido por Obama,  em junho, após ter escorregado numa entrevista à revista Rolling Stone, quando passou alguns dias com um jornalista, na Europa, e criticou a estratégia americana para vencer a guerra do Afeganistão. Falou demais, caiu. 

O The New York Times fez um artigo excelente Nós encontramos o inimigo e ele é o PowerPoint, de Elisabeth Bumiller, sobre questionamentos que os militares estão fazendo quanto ao uso excessivo desse programa como instrumento de informação e treinamento. 

Numa das apresentações a militares, em Cabul, no ano passado, o general McChrystal  estava mostrando um slide do PPT (veja no link acima), "criado para retratar a complexidade da estratégia militar americana, mas que parecia mais um prato de espaguete". E saiu com essa: "Quando nós entendermos aquele slide, teremos vencido a guerra", comentou secamente McChrystal, como lembra um de seus conselheiros, quando a sala explodiu em gargalhadas.

Segundo o NYT, o slide, desde então, tem circulado na Internet como um exemplo de um instrumento militar que saiu de controle. Assim como a insurgência, o PPT tem se insinuado na vida quotidiana dos comandantes militares e atingiu o nível próximo da obsessão. "A quantidade de tempo gasto no PPT, o programa de apresentação da Microsoft com mapas, gráficos e tópicos de texto, transformou-se numa piada corrente no Pentágono, no Iraque e no Afeganistão".

A pressão sobre o uso do PPT contaminou outros oficiais americanos, estacionados no exterior, e serviria como lição também às empresas: "O PowerPoint nos faz estúpidos", disse o general James N. Mattis do Corpo de Fuzileiros Navais, Comandante das Forças Conjuntas, em uma conferência militar na Carolina do Norte. O NYT assegura que ele falou sem PPT.

A explicação talvez esteja com o general HR McMaster, que proibiu apresentações em PPT, quando liderou o esforço bem sucedido para proteger a cidade iraquiana de Tal Afar, em 2005, e acompanhou Mattis na mesma conferência, comparando o PPT a uma ameaça interna". "É perigoso porque ele pode criar a ilusão da compreensão e a ilusão do controle", disse o General McMaster, em entrevista por telefone depois. "Alguns problemas do mundo não são bullet-izable (itemizáveis)", teria dito.

O artigo do NYT afirma que "a pior ofensa do PPT - na opinião do General McMaster - não é um quadro como o espaguete gráfico, que foi descoberto por Richard NBC Engel, mas as listas rígidas de pontos (em uma apresentação sobre as causas de um conflito) que não levam em conta a interligação das forças políticas, econômicas e étnicas". "Se você separa a guerra de tudo isso,  torna-se apenas um exercício de focalização", disse o General McMaster.

"Os comandantes dizem que por trás de todas as piadas sobre o PPT estão sérias preocupações de que o programa abafa a discussão, o pensamento crítico e reflexivo de tomada de decisão. Não menos importante, isso ocupa os oficiais juniores - conhecido como os PowerPoint rangers - na preparação diária de slides, seja para uma reunião de Estado-Maior Conjunto, em Washington, ou para um briefing do líder de pelotão de uma pré-missão de combate, em um remota área do Afeganistão". O que seria uma perda de tempo.

O artigo também critica o tempo despendido por militares com a elaboração das apresentações, o que não contribuiria para a verdadeira produtividade que se espera de um militar. "No ano passado, quando um website militar perguntou a um líder de pelotão do Exército no Iraque, o tenente Sam Nuxoll, como ele passava a maior parte de seu tempo, ele respondeu: "Fazendo apresentações em PPT." Quando pressionado para contar a verdade, ele disse que era sério.

"Apesar dessas histórias, "morte pelo PowerPoint", a frase usada para descrever a sensação de entorpecimento que acompanha um briefing de 30 slides, parece que veio para ficar. O programa, que começou a ser vendido em 1987 e foi adquirida pela Microsoft logo depois, está profundamente enraizado em uma cultura militar que passou a confiar no ordenamento hierárquico do PPT de um mundo confuso. Ou seja, o PPT seria a solução para os problemas emergentes".

O que o artigo deixa implícito é que o PPT daria uma ilusão de conhecimento. "Os comandantes dizem que os slides divulgam menos informação do que um documento de cinco páginas poderia conter, e que eles aliviam o apresentador da necessidade da transmitir um ponto analítico e persuasivo com uma escrita mais refinada. Imagine advogados apresentando argumentos perante a Suprema Corte em lâminas, em vez de peças processuais".

O artigo não perdoa o uso abusivo do PPT em reuniões decisivas das guerras do Iraque e Afeganistão. "Ninguém está sugerindo que o PPT é o culpado pelos erros cometidos nas guerras atuais, mas o programa se tornou notório durante o prelúdio da invasão do Iraque".  E alude a episódio relatado no livro "Fiasco", de Thomas E. Ricks sobre a guerra do Iraque.

"O tenente-general David D. McKiernan, que liderou as forças aliadas na invasão à terra do Iraque em 2003, ficou frustrado quando não conseguiria que o general Tommy R. Franks, o comandante das forças americanas na região do Golfo Pérsico, na época, emitisse ordens que estabelecessem explicitamente como ele queria que a invasão fosse conduzida, e por quê. Em vez disso, o general Franks apenas repassou ao general McKiernan vagos slides do PPT que ele já tinha mostrado a Donald H. Rumsfeld, secretário da Defesa na época.

Do artigo, o que podemos tirar é uma reflexão sobre a ditadura do PPT, a ponto de em algumas palestras, conferências, cursos e aulas o PPT ter se tornado a vedete, a figura mais importante. Chega-se ao exagero de deixar o conferencista no escuro completo e só deixar a tela visível. Uma inversão completa do que a ferramenta representa para o apresentador, um mero instrumento complementar da exposição. Está na hora de professores e conferencistas repensarem se o PPT, de apoio à apresentação, não está assumindo o papel de bengala para conteúdos que o titular não domina. Como disse um assistente, assíduo frequentador de palestras: "Se for para ouvir leitura de PPT, eu não preciso vir pessoalmente. Leio pela internet".  

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