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submarino argentino ara san juan em imagem de 2010 1511388794884 615x300Desde o dia 15 de novembro, a Argentina conviveu com um mistério. Onde estava o submarino Ara San Juan, com 44 marinheiros, sendo uma mulher, a bordo? Ele fez o último contato nesse dia e, ficamos sabendo depois, no mesmo local desse último sinal foi detectado um barulho semelhante a uma explosão. Em seguida a embarcação desapareceu dos radares.

Na pior das hipóteses, o oxigênio, alimentado por baterias, teria se esgotado na quarta-feira, dia 22. E na melhor das hipóteses, duraria até dia 30, quinta-feira. Uma verdadeira cruzada internacional, que envolveu dez países – além da Argentina- como Brasil, EUA, Rússia, Reino Unido, Chile, Uruguai, procurou o submarino na região onde desapareceu. Enfrentaram o mau tempo e ondas de até sete metros. Pelo menos nisso a Argentina acertou, buscando ajuda internacional. Não faltou o orgulho inapropriado de autoridade que sugeriu recusar o auxílio do Reino Unido por causa da histórica briga (que já provocou uma guerra entre os países, em 1982) sobre o controle das Ilhas Malvinas.

Transparência nas crises é fundamental

A Marinha argentina foi muito comedida nas informações iniciais, talvez apostando na possibilidade de encontrar o submarino rapidamente. À medida que o tempo foi passando, a falta de transparência dos militares com o acidente do submarino começou a emergir com todas as consequências quando, numa crise, a organização responsável omite, tergiversa e não explica tudo o que sabe para a mídia e demais stakeholders, como os parentes dos marinheiros.  

No dia 27, 12 dias após o desaparecimento, novas informações apareceram. Teria havido uma explosão a bordo do submarino cinco dias depois da viagem de pesquisa, no litoral do Chile. O destino era Mar Del Plata, um grande cidade argentina, onde fica a base do submarino. À medida que a Marinha argentina foi reconhecendo a gravidade do caso resolveu adiantar algumas informações, mostrando que sabia muito mais do que dizia. Isso irritou parentes que no início foram iludidos com notícias tranquilizadoras, quando a realidade era muito pior.

A versão da explosão foi vazada por um canal de TV argentino, incluindo o teor exato da comunicação que o comandante do submarino enviou antes de a embarcação sumir. A mensagem, de 15 de novembro (dia do desaparecimento), assinada pelo comandante Claudio Javier Villamide, foi endereçada ao Comando da Força dos Submarinos.

A mensagem era dramática: “Ingresso de água do mar pelo sistema de ventilação ao tanque de baterias número 3 ocasionou curto-circuito e princípio de incêndio no balcão de barras de baterias. Baterias de proa fora do serviço no momento da imersão propulsando com circuito dividido. Sem novidades de pessoal. Manterei informado, termina a mensagem.”

Essa informação vazada causou alvoroço na imprensa do país, porque a Marinha já estava sob suspeição de que omitia alguns dados sobre o acidente. No início, ela noticiou o caso como uma “falta de comunicação” entre o comando e a nave, quando já tinha informação de uma pane nas baterias. Segundo especialistas, pane nas baterias é incidente grave num submarino.

Especula-se que essa falha das baterias teria afetado o sistema de propulsão e os equipamentos de comunicação da embarcação. O submarino – assim como aconteceu com o avião da Malaysia Airlines, em 2014 - desapareceu. No caso do avião, nenhum sinal definitivo havia sido detectado até agora, passados quase quatro anos do acidente. A possibilidade de encontrar o submarino, mesmo que não se assegure a possibilidade de vida no interior da embarcação, é bastante remota. Os equipamentos podem ter sido afetados pela explosão. Os parentes já se preparam para o pior e na base de onde saiu, as pessoas levam flores, homenageando cada um dos tripulantes que sumiram junto com o submarino.

Circularam também informações de que o submarino, que passou por uma longa reforma, que durou sete anos, não foi devidamente equipado com baterias novas por falta de recursos, no governo Kirchner. As baterias teriam sido recicladas. Acrescente-se a isso problemas de orçamento que afeta muitos países da América do Sul; a Marinha pediu mais recursos, mas não havia.

Cada entrevista do porta-voz da Marinha gerava uma enorme expectativa dos parentes que se revezavam na Base, em Mar Del Plata. Só que os militares, temerosos de adiantar todas as informações, iam falando a conta-gotas, o que irritou os parentes. As organizações militares têm extrema dificuldade de serem transparentes, em crises graves, por causa da burocracia provocada pela rigorosa hierarquização dessas unidades. São muitas instâncias decisórias, com um alto nível de submissão hierárquica, tudo que não combina com a urgência de decisões numa crise.

A falta de transparência da Marinha causou até uma dissidência entre os parentes dos militares. De um lado, aqueles que têm esperança de encontrá-los com vida. De outro, aqueles mais realistas que acreditam que a Marinha omitiu a gravidade da explosão e que nada mais seria possível. 

Em 30 de novembro, a Marinha argentina oficialmente deu o submarino como desaparecido, praticamente encerrando o verdadeiro mutirão, organizado com vários países, para achar o Ara San Juan. Em vão. Ao admitir a impossibilidade de encontrá-lo, a Marinha admitiu indiretamente, também, os 44 marinheiros como desaparecidos.

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