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| Tragédia do Costa Concordia expõe falhas primárias de gestão de crises |
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| Ter, 17 de Janeiro de 2012 00:04 |
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As empresas julgam estar preparadas para acontecimentos negativos, potenciais crises. Mas incorrem em dois graves erros. Não cogitam a possibilidade de que acidentes graves possam acontecer com elas. Julgam-se poderosas, inatingíveis. Minimizam o risco. Segundo: desdenham de prevenção, treinamento e do preparo do pessoal. Resultado: perda de vidas humanas, feridos e sofrimento; arranhão na imagem e prejuízos financeiros. Das primeiras informações do naufrágio do navio Costa Concordia, pertencente à empresa Costa Cruzeiros, pode-se deduzir a ocorrência de vários erros. Falha do comandante e da tripulação na rota do navio, ao navegar próximo à costa, em rota de risco. E, logo após, uma sucessão de falhas graves na administração do acidente: falta de clareza nos avisos, demora, falta de transparência com o ocorrido, evacuação e socorro confusos dos 4.234 passageiros e tripulantes. Enfim, uma sucessão de erros. O presidente e CEO da Costa Cruzeiros, Pier Luigi Foschi, atribuiu o acidente com o navio Costa Concordia a um "erro humano" do comandante Francesco Schettino. "A empresa ficará com o capitão e lhe dará toda a assistência necessária, mas temos de reconhecer os fatos e não podemos negar um erro humano", disse o CEO a repórteres, em uma coletiva de imprensa em Gênova, nesta segunda-feira. Foi uma atitude ousada, mesmo antes de qualquer apuração, mas esperada pela falha primária do Comandante, no entendimento de todos. Ele, que estaria em estado de choque, nega ter falhado. Foi preso, acusado de homicídio, e prestará o primeiro depoimento nesta terça-feira "A companhia desaprova o comportamento que causou o acidente, ao decidir desviar o navio de sua rota ideal", afirmou Foschi, garantindo que o navio, com mais de 4.000 pessoas a bordo, não tinha qualquer problemas de segurança. “Esses navios são ultrasseguros. Esse é um acontecimento excepcional, que era imprevisível." Já está praticamente comprovado que o Comandante saiu da rota para agradar um amigo, Antonello, membro da tripulação e natural da Ilha. O jornal El País informou que às 21:08 de sexta-feira, Patrizia Tivoli, enviou uma mensagem no Facebook para seus amigos, informando que o Costa Concordia passaria muito próximo da Ilha. A população da cidade confirmou a exibição do Comandante. Resultado: às 21.35 a cidade flutuante de 17 andares e mais de 4 mil habitantes batia nas pedras do costa italiana. Equipes de resgate procuravam 14 pessoas desaparecidas no acidente, mais de 48 horas depois de o navio ter virado e tombado perto da costa da Itália, matando pelo menos seis pessoas e ferindo mais de 60. Jornais da Itália, como o Corriere della Sera falam em 29 desaparecidos. Nesta segunda-feira, as buscas foram suspensas por medida de segurança. "Houve um deslizamento de nove centímetros verticalmente e 1,5 centímetro horizontalmente. Nós saímos imediatamente. Isto é algo com que temos de nos preocupar", afirmou o comandante do resgate. "Não se pode conduzir um cruzeiro, como se fosse um vaporzinho", disse o ministro do Meio Ambiente da Itália. Sucessão de erros Estima-se que um navio de passageiros desse porte deva ser evacuado totalmente em 20 minutos. A tripulação internacional deve ser treinada para organizar a emergência em tempo recorde, tendo em conta variáveis importantes, como o mau tempo, as ondas, o movimento do barco. Além disso, deve haver tripulantes que falem e entendam a língua de todos os passageiros, e atendimento especial a idosos, deficientes físicos e crianças. Mas o maior preparo da tripulação é para atender situações que agravam os acidentes, como pessoas em pânico, eventuais queda na água ou, como no caso, inclinação do navio, que dificulta o socorro pelo deslocamento de objetos e inundação no seu interior. Tudo isso, numa situação de extrema tensão e pânico. Até agora todas as informações, porque ainda não foi aberta qualquer investigação, apontam para o fator “erro humano”. O comandante, com 30 anos de experiência, teria incorrido num erro grave, ao aproximar o navio da costa para saudar um colega aposentado, segundo os primeiros informes. Mais grave ainda na atitude do comandante foi a acusação, testemunhada por passageiros, de que abandonou o navio antes de todos os passageiros serem resgatados. Esse é a mais grave infração de um comandante de navio, avião ou qualquer outro meio de transporte. É bom recordar o gesto do Comandante americano Chesley Sullenberger, do voo 1549, da US Airways, que conseguiu fazer um pouso forçado nas águas geladas do rio Hudson, em Nova York, em janeiro de 2009. Ele só deixou o avião, que flutuava, depois de um pouso espetacular na água, após se certificar de que todos os passageiros haviam sido resgatados. Não houve uma vítima sequer. E, por isso, foi considerado um herói. As notícias que chegam do atrapalhado resgate do Costa Concordia mostram que nem o Comandante, nem a tripulação tinham preparo para situações de emergência. Ou pelo menos não demonstraram isso. O pseudo-treinamento oferecido a todos os passageiros, que deve ter ocorrido antes da embarcação zarpar, como é praxe nos navios de passageiros, foi apenas para cumprir um ritual. Não valeu de nada. Segundo depoimentos de passageiros, a tripulação pareceu tão ou mais em pânico do que os passageiros. Despreparada; colocou coletes salva-vidas antes dos passageiros, que, atônitos e desinformados, perguntavam aos tripulantes por que eles estavam de coletes se a situação estava sob controle, como eles mesmos anunciavam nos auto-falantes. Chega a ser ridículo, não fosse tremendamente trágico e triste. Até agora não ficou claro também, se os avisos de alerta foram dados na hora certa e em que idiomas foram feitos. A denúncia grave é que os primeiros avisos somente foram dados uma hora depois de o navio bater nas rochas, em frente à Ilha de Giglio, na Itália. Testemunhas dizem que os avisos não eram claros e minimizaram a extensão da tragédia, dizendo que a situação estava sob controle e o blackout estava em fase de reparação. Tudo falso. Portanto, perdeu-se tempo precioso na evacuação de mais de 4 mil pessoas, com essa desinformação. A tripulação estava tão despreparada, a ponto de muitos terem abandonado o barco antes dos passageiros. O que agora se pergunta, principalmente se levarmos em conta o crescimento do turismo marítimo e fluvial, é até que ponto uma viagem num transatlântico é segura, a se julgar o completo despreparo do Comandante e da Tripulação do Costa Concordia para uma situação que, felizmente, não foi de pânico total. O navio se inclinou próximo à costa. Isso permitiu, ainda que de forma atabalhoada, evacuar a maioria dos passageiros e tripulantes. Mesmo assim, a evacuação teria levado de duas a três horas. Um tempo fatal, no caso de uma tragédia mais grave. Segundo comandantes experientes, esse tipo de embarcação é dotado de equipamentos de última geração e cartas náuticas moderníssimas que reduzem a hipótese de erro a praticamente zero. O navio deveria estar a 15 milhas náuticas da costa, quando ocorreu a tragédia. Estava a nove milhas, portanto completamente fora de rota. Assim como nos acidentes de avião, não existe uma única causa para as tragédias. Mesmo os erros humanos, como tudo indica ser este caso, podem ser sanados ou minimizados se toda a tripulação estivesse concentrada na navegação do navio. A rotina e o piloto automático já derrubaram muitos aviões. Assim também ocorre nos navios. Evacuação difícil O que tornou a evacuação do Costa Concórdia mais difícil foi a inclinação do navio, que praticamente impede caminhar por seu interior, devido ao deslocamento dos objetos. Para isso, parece não ter havido treinamento. Provavelmente devido à inclinação do navio, os barcos salva-vidas também emperraram, nesse cenário de horror, sem iluminação e sob a pressão do pânico. Nessa hora, como disse um passageiro, todos querem se salvar e ninguém quer ceder prioridade a crianças, dependentes físicos, idosos ou mulheres, como pregam as normas internacionais. Convém lembrar as cenas do filme Titanic, em que predominava o “salve-se quem puder”. Mas mesmo para um acidente pouco provável como esse, dizem os especialistas, há centros internacionais de formação na Holanda, Austrália, Canadá e Inglaterra. Provavelmente em outras partes do mundo. Eles simulam um navio com diferentes graus de inclinação e se preparam para resolver vários exercícios de evacuação em situações muito difíceis. Pelo que se viu no Costa Concordia, é pouco provável que a maioria dos tripulantes tivesse passado por esses centros. O número de mortos, até agora seis, mostra que a tragédia só não foi pior porque o navio estava próximo à costa. O tempo de evacuação também não agravou a tragédia, porque o navio estava em águas tranquilas, muito próximo do socorro em terra. Outras tragédias no mar
Essas tragédias apenas representam navios de turismo, porque são inúmeros os acidentes com navios e barcos que transportam passageiros regularmente. Na Amazônia, os naufrágios são frequentes, principalmente causados por excesso de passageiros e falta de manutenção. Em alguns países da Ásia também são comuns tragédias envolvendo barcos de transporte. Em dezembro, um barco com imigrantes afundou na Indonésia deixando mais de 250 pessoas desaparecidas. Em setembro de 2011, um barco com 600 passageiros, muito acima da capacidade, afundou na Tanzânia. Quase 200 mortos. Como se vê, acidentes com navios são mais frequentes do que imaginamos. O que fazer agora Embora várias investigações devam ser abertas, a empresa já reconhece erro humano. As notas emitidas até agora procuraram ser transparentes, mas pouco têm a acrescentar ao que os próprios passageiros disseram. A Costa Cruzeiros deve arcar com todas as despesas de retorno dos turistas; ressarcir os valores do cruzeiro; indenizar todos os passageiros pelos objetos perdidos: bagagens, pertences pessoais, documentos. E certamente terá que pagar seguro aos familiares dos mortos e feridos. Para complicar ainda mais a situação da empresa, nesta segunda-feira as autoridades italianas temiam um acidente ecológico. Começaram a vazar as 2.400 toneladas de combustível armazenadas no navio. Este será outro passivo que a empresa deverá enfrentar. Como resultado da "bravata" do Comandante, as ações da Costa Cruzeiros caíram 23% na Bolsa de Londres, nesta segunda-feira. Nesse momento, como acontece nos acidentes aéreos, a preocupação principal deve ser as pessoas atingidas pela tragédia. Enquanto houver um só passageiro desaparecido ou fora de sua residência, a responsabilidade total é da empresa Costa Cruzeiros. Somados, o prejuízo pelos danos no navio e sua desativação temporária, mais as indenizações e possíveis ações judiciárias, a estripolia do piloto italiano poderá custar nada menos do que US$ 100 milhões, cobertos certamente por apólices de seguro. Foto: Gregorio Borgia (AP)
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A tragédia é ainda muito recente para uma análise mais detalhada. Mas o acidente com o navio Costa Concordia, no litoral da Itália, na noite de sábado, expôs o que os especialistas em gestão de crises cansam de alertar.
O despreparo mostra que o transporte marítimo parece não ter aprendido com as tragédias do Titanic, amplamente documentada e analisada. Em 1987, o navio Herald of Free Enterprise sepultou 188 passageiros, num acidente no Mar do Norte. Esse navio também emborcou, como o Costa Concordia. Em 1994, no Mar Báltico, Finlãndia, o Estonia teve 854 mortos, num dos piores acidentes no mar, no século XX. O pânico parece ter sido a causa maior do acidente. E em 1990, o Scandinavian Star vitimou 155 passageiros, quando houve erros primários nas mensagens de emergência, não entendidas pelos viajantes, porque foram feitas em norueguês. Incrível isso.