Ligações perigosas entre mídia e poder

09 de Fev de 2010 - 18h27min

As relações entre imprensa e poder sempre foram difíceis. Desde que a imprensa, se transformou em instrumento de opinião independente, os governantes tentam controlá-la. Não podemos esquecer que o jornal foi a primeira mídia de massa, após a revolução protagonizada pela prensa de Gutenberg.


Passou o tempo, outras mídias surgiram, mas os governos não conseguem se acostumar. Insistem em discordar, tentar interferir, cooptar pelo apoio financeiro, para pressionar jornalistas, editores e os próprios empresários de comunicação. Ou então usam a força mesmo, com censura, prisões e fechamento.


O papel da imprensa ainda continua mal interpretado por certos governantes. O presidente Lula afirmou certa vez que não lê jornais, nem assiste noticiários, porque o jornalismo lhe faz mal ao fígado, a imprensa informa mal ou deturpa as notícias, preferindo as informações repassadas por assessores, que seriam mais fidedignas. É uma forma de ver o mundo, pelo olhar cor-de-rosa dos áulicos.


Essa visão equivocada da imprensa parece ter contaminado governantes da América Latina, sem esquecer Irã, China, Coréia do Norte e outros, que têm aversão à verdade. Aqui mais perto, o folclórico presidente Hugo Chávez, da Venezuela, faz gato e sapato para impedir críticas da imprensa livre. Ele quer se perpetuar no poder com a república bolivariana e acredita que a imprensa tenta impedir.


Enfrentando uma crise sem precedentes, com escassez de alimentos, racionamento de energia, inflação alta e protestos, resolveu se voltar para quem dá a notícia. Fechou seis canais de TV a Cabo, entre eles o mais popular da Venezuela, a RCTV. Persegue jornalistas e estudantes, que gritam na ruas. Deve ficar muito feliz quando assiste às tevês oficiais com as “boas” notícias de seu governo. Não tem muita diferença da China, que censura sites e notícias da internet. A última investida chinesa foi contra o Google e o gmail, invadidos por hackers, ao que tudo indica patrocinados pelas autoridades do país.


Na Bolívia e no Equador, o cenário não é muito diferente. Os discípulos de Chávez, sempre que as coisas não vão bem, culpam a imprensa por mobilizar as massas e estimular protestos. Para completar, Cristina Kirchner, na Argentina, depois de crises contínuas no governo e ver ameaçada a possibilidade de se manter no poder, resolveu brigar com o grupo que controla o jornal El Clarín, além de outros meios de comunicação. Abriu uma guerra particular com os proprietários do grupo.


A visão equivocada dos governantes sobre a imprensa não significa falta de cultura midiática. Governos, tanto de direita quanto de esquerda, não gostam de ser fiscalizados. A imprensa é um freio para os desvios de conduta, suas liberalidades e arroubos de perpetuidade. Nos EUA, o partido Republicano elegeu a mídia o inimigo número 1, na campanha de Obama, porque batia no presidente Bush. Berlusconi vive brigando com a imprensa italiana e Sarkozy, que não é bobo, aprovou um pacote de US$ 777 milhões de apoio financeiro aos grupos de comunicação.


Thomas Jefferson, o grande mentor da independência americana, queixou-se certa vez de que a imprensa se alimentava “como os lobos, do sangue dos cordeiros”. Mas ele disse também que, se tivesse de escolher entre um governo sem jornais e jornais sem governo, não hesitaria em ficar com a última opção. É melhor aprender a lidar com a mídia, do que ficar brigando para que ela não cumpra o seu papel.


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